quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Tão tranquilo e tão em paz

NOITE DE 19 PARA 20 DE JANEIRO DE 1997
Estou num Centro comercial a escolher perfumes. Há duas lojas, uma no primeiro andar outra na cave. Vou às duas para ter a certeza de que escolho o perfume certo, e aliás na loja do primeiro andar nem encontro nada de especial, porque estão mais especializadas nas essências que vendem a peso, e que não são de grande qualidade.
A empregada diz-me que na loja da cave há mais escolha.
E é verdade. Eu quero comprar dois perfumes, não por necessidade mas por aquele impulso que nos leva a desejar ter perfumes. Provo vários, há frascos lindíssimos, procuro os mais recentes.
Na cave há duas salas de cinema. Numa delas passa o filme «O ABC do Amor», do Woody Allen, só que em vez de ser aquele filme cómico parece ser outro, porque é a preto e branco e os actores que aparecem nos cartazes têm um aspecto mais sério, como se o argumento fosse romântico. Mas eu não tenho tempo, agora, para ir ao cinema.
Cá fora dois travestis entram comigo num carro onde já está um homem. Estamos os três no banco de trás do automóvel, o homem é rico. Sinto-me apertada e tenho medo, porque a cena parece que pode tornar-se pesada. Peço para sair e ir comprar cigarrilhas. O homem, que tem as pernas dos travestis em cima dele, (e eu estou de frente para ele sentada e mal nos seus joelhos, com uma perna de um deles a sair pela janela), diz que não preciso de sair porque tem cigarrilhas ali, e não vale a pena.
Antes, ou depois? vi o Zé no primeiro andar de um edifício, talvez aquela espécie de Centro comercial onde comprei os perfumes. Ele tem a boca pintada e pó de arroz. E penso, olha que bem que ele anda, tão tranquilo, tão em paz.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

"John you faded"

NOITE DE 18 PARA 19 DE JANEIRO DE 1997
Estou algures, talvez no Alentejo, quando se torna conhecida uma decisão do governo: cortar a energia eléctrica a uma aldeia completamente habitada por norte-americanos que se recusam a pagar as suas contas de electricidade. O Presidente Sampaio é amigo do presidente americano, contudo este envia-lhe um telegrama em que lhe diz: «John you faded».
Estou na redacção de um jornal local. Ninguém parece, contudo, dar muita importância aquilo. Eu sinto vontade de rir perante o teor daquele e de outros telegramas que traduzo por «John estás fodido». Não tenho a certeza de que é esta a tradução, e procuro um dicionário. O director do jornal local é um padre, que não percebe muito o meu empenho de fazer uma notícia sobre o assunto, mas eu explico-lhe que pode ser a oportunidade de fazer o seu jornal crescer de importância. De resto, apenas me encontro ali por acaso. Depois convenço-o a mandar-me com um fotógrafo até à tal aldeia de americanos agora sem luz eléctrica nas suas casas.
Mas agora estou com um pequeno grupo de soldados, e eu também pertenço a essa tropa especial. O nosso aquartelamento é mais ou menos no deserto, e portanto tem um ar transitório. Eu escolho a melhor das casas de banho, que mesmo assim não é nada de especial, e tenho que a dividir com outra pessoa. Vou ter com o general peço uma só para mim, “e tem de ser boa”, mas ele explica-me que eu fiquei com a melhor casa de banho das redondezas, basta ir comparar com a dos outros, que até têm que a dividir com mais gente. Então compro alguns objectos básicos de limpeza, nada de muito sofisticado: esfregona, balde e pano de pó, para a manter em ordem. A dos outros é um pouco mais confusa, porque há muito roupa pendurada atrás das portas.
Entretanto vamos a caminho da nossa missão, e subitamente o grupo divide-se em dois, e torna-se antagónico. De um lado os anteriores camaradas, que agora são americanos e disparam contra nós. Somos poucos, estamos separados por montículos, à distância de meia dúzia de metros, e estamos muitíssimo bem armados. Ao meu lado um dos soldados tem um lança-morteiros. Peço-lhe que dispare rapidamente ou corremos o risco de morrer todos. Ele põe uma pistola na minha mão. É tão pesada que a mão até cai. Faço um esforço, uma vez que sou soldado, e ergo-a tentando não tremer a mão para fazer pontaria. Digo ao soldado ao meu lado que vá por trás dos montes desarmar de surpresa os inimigos. Agora à minha frente está só um, que é um perigo. Aparentemente todos os outros se acalmaram, e ninguém ficou ferido. Isso é espantoso,
Mas aquele é perigosíssimo, porque está artilhado de bombas de alto a baixo. Granadas pendem-lhe do peito, coisas ainda mais sofisticadas que granadas amarram-se-lhe à cintura. Exijo que se renda. Ele tem um olhar parado de quem não compreende, ou de quem não tem já nada a perder. Diz “se me tocarem vamos todos pelos ares”. Então ouço a voz da Tita, ao meu lado, dizer que o tem sob a mira e que, ou ele se rende imediatamente, ou leva um tiro na cabeça e morre instantaneamente.
Há um longo momento de silêncio e de suspense. Nós todos pensamos “porque raio não dispara ela de uma vez? é menos um perigo para todos”. Mas ela insiste. E ele acaba por se render, ou seja, larga o fio do cordão que ameaçava puxar e que despoletaria a bomba que nos faria ir a todos pelos ares. Pomo-nos a caminho e somos de novo um grupo coeso, o mesmo corpo de comandos. Há homens e mulheres no grupo, mas não somos mais do que cinco, penso. Digo à Tita (nunca a chego a ver) que ela é um espírito muito elevado, para ter tido um inimigo sob a mira e poupar-lhe a vida. É preciso estar muito acima na escala evolutiva humana, para reagir dessa forma. Ela explica-me que não foi só por isso, embora seja sempre de evitar matar os inimigos. Mas o que a impediu também de o fazer foi uma questão de inteligência, porque se o atingisse, mesmo depois de ele ter largado aquele cordão que estava ligado à bomba, as suas mãos ao escorregarem ao longo do corpo iam despoletar outro engenho, mais perigoso ainda, que estava guardado ao nível das virilhas. Assim sendo só havia uma maneira que era dominá-lo de forma psicológica, a fim de que, e por sua vontade, ele desistisse de nos fazer explodir a todos.
Vamos a andar e eu reparo que, para além dos trajes militares em caqui, etc., estamos todos muito bem calçados, com botas sólidas. Uma das mulheres-soldado acho que está com ténis. Falamos de sapatos, e eu digo que, apesar das minhas, das nossas botas, serem muito boas, agora há outros materiais que ainda são melhores, e que era bom substituir o nosso equipamento. Basicamente os sapatos.
As forças vivas da terra estão num palanque, é uma coisa um pouco desorganizada, porque a terra é pequena, e se calhar também não estavam à espera que aparecêssemos naquela altura. A gente não lhes liga, porque os militares não prestam muita atenção aos civis. E aquilo é um bocado saloio. Nós nem estamos a marchar afinados, mas também não é preciso. Cumprimentam-me e eu respondo fazendo uma continência, sem ligar, e a rir. Pergunto ao soldado ao meu lado se fiz bem e ele diz que sim, que é mesmo assim, mas que se quiser fazer a coisa mais a sério tenho que levantar bem a perna esquerda e marchar, não me lembro dos pormenores.

Cães de guarda vêm ao nosso encontro

NOITE DE 16 PARA 17 JANEIRO DE 1997
É uma daquelas terras que conhecemos em viagem. Espreito por uma janela para ver um portal recortado sob não sei que espécie de luz. Vista assim, aquela construção revela outra atrás, lindíssima, um pouco medieval. Ponho-me em cima de um banco de pedra, embutido na parede para olhar. Depois resolvemos subir por uma escadas, também de pedra, exteriores, que dão para uma cúpula ou um caramanchão de onde podemos ver muito mais. Há uma amiga comigo que conhece aquilo. As escadas são muito estreitas. Quando vamos a descer cães de guarda vêm ao nosso encontro. Rosnam. São perigosos. Penso, não posso mostrar medo, e para não mostrar medo não posso sequer senti-lo. Estendo-lhes a mão, avançando o braço porque quase não há espaço nas escadas estreitas. E eles cheiram a minha mão e vão-se acalmando. Até abanam o rabo como se me reconhecessem. E depois aparece um criado daquela casa, e depois o senhor daquela casa, e ficam espantados por nos ver naquela situação, até porque não era preciso. Bastava termos tocado à porta. E convidam-nos a entrar.
E depois, sei que estou em Espanha a caminho de Portugal, é a mesma terra de há bocado, e encontro o Joshua que vem de Portugal a caminho de Espanha. E percebo que ele fez isto para me encontrar. E que como eu nunca mais não lhe disse nada, nem sequer respondi aquele seu recado sumido no atendedor de chamadas, está a começar a ficar inquieto. Ele tenta falar comigo, mas estou completamente desinteressada, e ele não sabe o que há-de dizer ou fazer.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Uma ilha muito próxima de terra


OUTRO ANO: 1997

NOITE DE 10 PARA 11 DE JANEIRO DE 1997
Por uma razão que ignoro sou condenada, juntamente com um rapaz brasileiro. Eu não cometi nenhum crime, ele sim. A pena que lhe dão a ele é de morte. A mim não sabem, mas estão a deliberar de modo que, não sendo a pena máxima, seja pesada. Estou tão indignada pela injustiça que exijo que me condenem à pena capital. É meu direito reivindicá-la. Eu sei que isso cria um grande constragimento nos orgão de cúpula judiciais.

Movimento-me numa cidade, ou num território, ou seja lá o que for, que é uma casa de muitos andares. Em liberdade. Num dos quartos está o tal rapaz brasileiro. O padre Pedro anda por lá.
Então, e de repente, é véspera de minha morte. Tomo consciência disso de uma forma avassaladora. Penso: agora tenho de escolher a melhor forma de morrer.
Visualizo-as a todas: enforcamento. Vejo-me pendurada por uma corda diante de meia dúzia de pessoas sentadas numa sala como se fosse uma sala de aulas. Acho ignominioso que a minha morte seja assim, e exijo, na projecção mental, que cubram o meu imaginado corpo com capuz até aos pés. Mas assim baloiço imaginariamente com falta de ar, mesmo antes de morrer. Desisto do enforcamento.
Passo ao fuzilamento. Vejo-me diante de um pelotão que atira sobre mim. E surpreende-me a dor que sinto. As balas traçam no meu corpo dores ardentes. E é tão estúpido morrer assim.
Visualizo o gaz. Penso: assim é rápido e indolor. Mas quando me visualizo amarrada naquela cadeira, e a ampola larga o veneno, sinto um pânico horrível e penso que não posso, não devo morrer com aquela sensação pavorosa de medo e de claustrofobia.
E percebo tudo: estou demasiado saudável para poder morrer. É anormal deixar-me matar assim. Ando pelos corredores com este pensamento a queimar-me.
Tomo a decisão de fugir. Urgentemente. Os conceitos, as palavras, que importa tudo isso diante do absurdo da minha morte no dia seguinte, por uma falta que não cometi?
Chamo a Tita. Ela sai de uma igreja onde estava a assistir à missa rezada pelo padre Pedro, uma capela de Centro Comercial, e um pouco atrás dela vem a Ninor, velha e curvada, mas indiferente ou inconsciente em relação ao que se passa. Penso: "lá anda ela a fazer de conta que reza pelos filhos."

Chamo a Tita à parte. Peço-lhe que meta dentro da mochila do Nuno, aquela que ele me empresta de vez em quando, os básicos da minha partida. Roupa interior, os meus cremes, uma água-de-colónia, pouco mais. Falamos em sussurros. Dinheiro não preciso, tenho o suficiente. Próximo, o padre Pedro está no quarto do brasileiro, suponho que a prepará-lo para a morte imediata. Mas não há nenhuma tensão, nenhum drama, nenhum desgosto no ar.
Eu vou fugir para muito próximo, que estranho. E não é por terra que vou partir. É por mar. Ou pelo Sul ou por Ocidente. Sei que há uma ilha muito próximo de terra, uma coisa tão próxima que se atravessa a vau. Tem de ser assim para eu continuar a cumprir o meu Sonho na vida de acordada. Vou para outra terra tem outra jurisdição. Ali estou salva.
Imagem: http://www.jeffpritchard.com/index.html

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

O crocodilo é albino e não tem dentes

Noite de 14 para 15 Dezembro de 1996
Um pequeno quiosque circundado por um cordão de monumento. Parece uma antiga cabine telefónica preservada para a curiosidade do futuro. O telefone não funciona. Ergo o cordão que a protege simbolicamente, porque é mais fácil passar por baixo do que saltar por cima deste frágil obstáculo. A Tita está comigo e eu continuo a segurá-lo para ela passar. Então, atrás de nós, a estrutura frágil, de madeira, da cabine, oscila e quase cai. Fica tombada num equilíbrio instável e eu ouço as vozes risonhas de uns turistas que andam por ali a fotografar curiosidades e que me exortam a não deitar tudo ao chão. Pelo menos enquanto as fotografias não estiveram completas. Fico embaraçada e quero ir logo embora daquele local, mas a Tita fica a falar com eles e não se despacha.
Então avanço até um tanque de lavar a roupa quase em frente, do outro lado da estrada. E vejo que a superfície das águas agitar-se e percebo a sombra de um pequeno réptil que assoma à superfície. Retiro a mão que avançava para a água. A Tita chega e, com um dedo, aflora o ponto onde emerge a cabeça do réptil e eu digo-lhe que tenha cuidado porque parece um crocodilo.
E é um crocodilo que acaba de emergir, agora já em ponto grande. Recuo ainda mais assustada, mas a Tita continua ali, ao lado, a mão quase a afagar a cabeça do monstro que é albino e manchado e abre a boca enorme de onde os dentes parecem ter sido arrancados porque só se vêm umas lascas de osso.
E o crocodilo abre a boca inútil como se bocejasse. Mas logo a água se agita de novo com outro crocodilo que começa a emergir. Mas parece que aquela raça de crocodilos não tem dentes. Já não tem dentes.
E depois sei que estou grávida. Vou ter mais dois filhos. Lembro-me então dos outros sonhos em que sonho com essas gravidezes inesperadas e totalmente inoportunas. Só que agora percebo que esta é uma decisão minha que só tem a ver comigo. Sei que preparei tudo isto, removi obstáculos, e determinei que o meu ventre estivesse pronto para tornar possível consentir neste destino. E penso: “desta vez não sou apanhada de surpresa. Fui eu que determinei isto porque é assim que deve ser.”
E depois há uma mulher que cai das escadas com tanta força e tanto barulho que corro para a ajudar a tempo de ver que ela não está mais do que atordoada e aflita e então acordo.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Eu, Joshua, o amigo recente e a noiva no super-mercado

1996, Julho, s/dia
Vou a um super fazer compras. Viajo através de uma cidade de Domingo, e acho que vou de mota. Estou nos subúrbios ou fora do meu lugar de viver. O super-mercado é um conjunto de grandes armazéns cheios de coisas para a casa. Quero comprar mas não tenho dinheiro. Entretanto a Tita aparece e diz que já tem os dois cheques do Jornal. É mais do que suficiente. É o que estava combinado. Quase me passo de contente. Depois vou ao super mas a Tita tem o mesmo carrinho que eu, e eu não quero, porque ela já está despachada e eu tenho de ir à carne que é no rés-do-chão, melhor na cave, e é preciso descer umas rampas inclinadíssimas. A Tita leva outro carrinho. Acho que não chego a descer completamente.
Encontro outro amigo recente. Depois passa por mim, no corredor deste armazém, o Joshua. Não me fala. Fico chocada, porque ainda há muito pouco tempo me escreveu. Volta a passar e eu cumprimento-o, e então ele responde, mas tudo ao longe, sem dar mostras de se querer aproximar.
O meu amigo recente está sentado aos pés de uma cama de casal, e diz-me que o Joshua está ali porque veio ver uma colega analista, que trabalha no mesmo Centro de Saúde onde ele dá consultas, com o pretexto de fazer umas análises, mas a mulher é lindíssima e é só um pretexto. Depois vejo a Mimi que me diz que o Joshua se esconde e que os nossos contactos são sempre assim no desencontro, e que não a espanta nada. Aquilo é a confirmação.
Entretanto aproxima-se de uma das portas de saída – que não é porta de entrada – uma noiva recém-casada, de véu e tudo, a empurrar um carrinho de compras para ir ao super. Falamos através dos vidros sem se ouvir nenhum som. Nós a dizer que ela não pode entrar por ali ela a perguntar então por onde? O cortejo dos convidados aproxima-se e junta-se diante daquela porta por onde não podem entrar. Até é cómico porque eles não estão aborrecidos. E estamos todos a rir. Cá dentro, comigo, junta-se imensa gente conhecida, minha conhecida. Uns são pintores, outros cantores.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

A Verdade da Mentira parte II

1996, Julho, s/dia
Alguém cometeu um crime. Eu estava lá. Não vi, mas soube, de algum modo, que estava lá. Fugi, mas deixei naquele local a minha carteira. Uma carteira que uso muito poucas vezes. A presença da minha carteira no local do crime, contudo, é um indicador muito forte da minha culpabilidade. Depois, estou a procurar activamente o meu passaporte. Esvazio gavetas sem o encontrar. E no entanto preciso muitíssimo dele porque tenho uma viagem de trabalho fora da Europa, e preciso de tratar de vistos, etc. Então dizem-me insistentemente para ir buscar a minha carteira para apagar os vestígios da presença no local do crime. Mas quando volto há um cordão em volta do cenário do crime. Passa-se por uma espécie de corredor traçado por cordões, numa sala muito grande. As pessoas desfilam e identificam os objectos expostos como se fosse uma espécie de museu. E atribuem ou tentam atribuir-lhes a procedência. Não tenho qualquer hipótese de recuperar a minha carteira, e fico muito aliviada porque a uso tão pouco que ninguém se lembra de a relacionar comigo.
Depois afasto-me deste cenário, e vou a um local fora do Tempo e do Espaço, onde me encontro com o Victor. É um encontro só de pensamento. Não há lá nada, nem mesmo nós como costumamos ser nós. Só o nosso pensamento. Digo-lhe: "É uma situação como esta a que te referias, quando estavamos descodificar os meus sonhos anteriores com o Inquisidor? Este sonho é uma espécie de aula prática? "
Ele confirma.
Volto ao sonho, mas agora já sem medo. Tudo perdeu a importância, porque sei como proceder nestas circunstâncias. Depois há um aeroporto. Mas a partir daqui é confuso.

Sonho do metropolitano

Julho 1996 s/dia
Há uma estação de metropolitano que vai ser inaugurada, e eu tenho alguma coisa a ver com isso, pelo menos estou lá em baixo, no meio de tuneis estreados e por estrear. Avanço por um deles, recém terminado, mas ainda em fase de acabamento nos retoques. Há muita humidade no chão e nas paredes. Algumas têm rachas. Fico preocupada, porque este túnel está construído sob o mar. Penso: terá estrutura para aguentar? Depois reparo que as rachas são mais de mau acabamento em paredes secundárias. As vigas, as traves mestras, o tecto, parecem sólidos. O chão está empoeirado, como quando as obras ainda não acabaram de vez e pisamos pedaços de areia com cimento. Avanço. Tenho algum receio. O tunel é muito grande e eu tenho medo de ter medo de estar ali. Então vejo a luz do dia coada numa cortina de luz em diagonal, e nessa luminosidade baça que atravessou vidros ainda sujos para vir bater neste ar e neste chão, dançam miríades de insectos minusculos à mistura com grãos microscópicos de poeira. Avanço, feliz, para a luz do dia, e vejo que está no que vai ser, brevemente, uma nova paragem do metropolitano. E fica ali nas ruínas do Carmo, e é uma paragem meramente turística, embora também possa servir as pessoas que trabalham.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

A Verdade da Mentira parte I

Julho de 1996 (s/dia)
É um sonho com um filho, penso que o Lula. A história consiste nisto: ele, ao dizer a verdade não sei a propósito de quê, condena-me à morte. Tudo se passa num ambiente extremamente tranquilo, como se fosse absolutamente normal este tipo de procedimentos. É como se estivessemos a viver agora, e simultâneamente noutro tempo anterior, quando havia Inquisição.
Toda a gente pressiona o Lula a mentir, para me salvar. Ele recusa-se. Eu não tenho coragem de lhe pedir isso. Penso. Tantas vezes lhe chamei a atenção sobre o erro da mentira, não vou agora convê-lo a mentir só porque agora me convém. O surreal é que o castigo é totalmente desproporcionado em relação ao acto, que é tão irrelevante que nem me recordo do conteúdo. O Inquisidor é meu amigo. Não pode abertamente incitar-me à mentira, mas convida-me a ir, de novo, com ele, confirmar as declarações do meu filho, antes que o processo siga os trâmites irrevogáveis dos tribunais.
O Lula está no quarto com amigos a jogar cartas. O quarto tem computador, está desarrumado, alguns rapazes estão estendidos em cima de camas a ler, outros no chão a jogar.
O Lula fica contrariadíssimo. Os amigos ainda vão dizer qualquer coisa, mas eu interrompo-os e peço-lhes que saiam. Ele fica mais tranquilo. Ficamos só os três, eu, ele e o Inquisidor. Sento-me ao pé dele, e ele encosta-se a mim como quando era pequeno. Deita a cabeça no meu colo e pergunta: e agora o que faço? Respondo-lhe, ao ouvido: podes mentir ou podes continuar a dizer a verdade. Se mentires eu salvo-me. Mas é contigo.
O Inquisidor faz de conta que não percebe o nosso diálogo que foi rapidíssimo e em voz baixa.

sábado, 27 de janeiro de 2007

Sonho do Avião

Julho de 1996 (s/dia)
Estou numa rua larga, com prédios altos. Olho para o céu e vejo um avião a passar. Está uma pessoa comigo, uma amiga, creio. O avião é lindíssimo, ou pelo menos é assim que me chamam a atenção sobre ele, dizendo que aquele é o modelo de avião que sempre preferi sobre todos os outros. Sei que é um avião francês, mas não é o Concorde. No momento seguinte as asas do avião soltam-se e caiem quase sobre nós. As asas caiem no chão, a poucos metros de nós, com um ruído metálico que fere os ouvidos, mas não fere mais nada. Ninguém é atingido.
No momento a seguir olhamos para o céu. O avião, é evidente, vai cair.
Mesmo em cima do prédio em frente de nós.
Não há tempo para fugir, e também fugir para onde? O impacto do choque vai atingir toda a gente que ali se encontra próximo. Ainda penso abrigar-me dentro do próprio prédio. Mas a sequência do acidente é muito rápida.
No momento seguinte o avião cai em cima do prédio.
Depois há vozes a dizer, que sorte, ninguém morreu, e os pilotos (ou o piloto?) conseguiu saltar a tempo.
Os bombeiros chegam mas não é preciso. No alto do prédio nem sequer há labaredas. Uns rolos de fumo saiem do telhado, mas é um fumo de nada. O telhado do prédio sofreu um impacto tremendo, mas não ficou danificado por isso.
Sinto um alívio enorme.

SONHO DAS MEDUSAS

Julho de 1996. Não anotei o dia. Recordei-o ao folhear um Science et Vie dedicado aos oceanos.
Uma praia ao pôr do sol. Um mar coalhado de medusas. Lindíssimas, enormes, opalescentes. Há cada vez mais e eu estou a tomar banho e tenho medo que me toquem, porque são venenosas. É estranho ver tantas neste mar português, porque me lembro de só ver tantas assim no Índico, que é, por vezes, um mar escuro, quase barrento.
De qualquer maneira entro e saio da água sem ser atingida. Depois, com um pedaço de bambu ou de madeira agarro numa que estava quase na areia e transporto-a assim, de braço estendido, até uma cova grande onde está aninhado um organismo qualquer. É um animal muitíssimo primitivo, se calhar tão primitivo como a medusa, e atiro-a para o buraco. A criatura que lá se aninha é carnívora. Devora a medusa num ápice.
Quase sinto remorsos.

Passo por uma esplanada de carro

NOITE DE 30 PARA 1 DE JUNHO DE 1996
Vou num carro descapotável, com alguém a conduzir e passamos por uma esplanada. Vejo uma mesa com várias pessoas sentadas, a estudar. O Paulo AB é uma delas. O meu coração dispara.Não tanto pelo facto de o encontrar, mas pela contrariedade de ele me encontrar a mim. Não quero que ele me veja. Peço para acelararam o carro, e seguro o cabelo, que, com o vento, me começou a bater na cara. Apercebo-me, ao passar, que ele está a conversar com um amigo. Há mais duas mulheres na mesa, mas muito diluídas, uma de costas, outra de frente.

O maravilhoso jardim botânico está a morrer

NOITE DE 1 PARA 2 DE JULHO DE 1996
Estou à janela de uma casa, é a casa do Zé , só que tudo encolheu de uma maneira atroz. A terra está seca, esfolada, e ressequida, e o maravilhoso jardim botânico deu lugar àquele espaço árido, onde arbustos amarelecidos lutam contra a morte. Havia um jardim de catos, vê-se pelo chão coberto de pedrinhas negras, mas os próprios cactos estão desmaiados. A parede da casa está semi coberta por uma trepadeira de malvas ou sardinheiras. Só que ninguém parece perceber o estado a que chegou aquele jardim. O Zé fala como se tudo estivesse na mesma. E eu penso, que horror, as pessoas não se dão conta das transformações, a não ser quando se afastam? Porque ele diz que realmente está tudo um pouco mais seco, porque há problemas de água, mas é um problema já resolvido.
Penso: e agora o que vem aqui fazer, nesta desolação, um estagiário de botânica?
A paisagem em redor é também ela semi-desértica, e avança como se preparasse para engolir as poucas árvores que teimam em viver.

domingo, 21 de janeiro de 2007

A abelha cura a minha ferida


NOITE DE 17 PARA 18 DE FEVEREIRO DE 1996
Vou por uma estrada fora, sentada na capota de um automóvel, e a certa altura o carro cruza uma estrada cheia de abelhas. Vejo-as pousar nas minhas pernas estendidas e fico assustada. Tento não me mexer para não ser picada. Com gestos suaves, exoto-as, e o vento da deslocação ajuda a afastá-las. A minha perna esquerda, reparo de repente, tem uma ferida. Uma bolha de pus. Uma abelha enorme voa na minha direcção e eu tremo só de pensar que me pode picar na ferida. Ela pousa exactamente ali. Espero, em agonia. Ela agita as asas, e docemente pica-me na ferida. Espantada reparo que não me doeu. Vejo o pus a sair, e a abelha drena-me a ferida, com uma atenção cirúrgica. Tem um ferrão na boca, como se fosse um êmbolo, que aspira o resto das impurezas. Com um ligeiro frémito de asas limpa-me a perna. Depois, no local onde estava a ferida injecta-me um soro, um liquido translúcido que forma uma bolha sob a pele, e que eu sinto entrar directamente nos vasos capilares para me secar, curar e desinfectar a ferida. Sinto um imenso alívio. E uma gratidão profunda.
Imagem: http://www.answers.com/topic/bees-wings-web-jpg
O PAULO SONHOU connosco: o sonho da raspadinha, o sonho do labirinto e do homem invisível e o sonho do fantasma da avó.

sábado, 20 de janeiro de 2007

Carícias de Amantes criam Novos Mundos

NOITE DE 16 PARA 17 FEVEREIRO DE 1996
o Paulo B. teve um sonho lindíssimo, connosco, e é esse que vou escrever:
“Avançamos por uma vastidão, um deserto imenso, e uma terceira pessoa acompanha-nos. Não me lembro se é homem ou mulher. E à medida que andamos vamos fazendo jogos eróticos, e desses jogos de carícias e sedução, nascem, sob nossos passos, como se fossem cogumelos, povoações e vilas, cheias de pessoas, a fervilhar de vida”.

Três mulheres e um rato


NOITE DE 8 PARA 9 DE FEVEREIRO DE 1996
Duas ou três mulheres perseguem um rato, gritando. Estamos em casa do Zé M.N., onde voltei para buscar um guião do programa. Eu estou com pressa e quero demorar pouco tempo. Depois o telefone toca e acontem muitas coisas, e vou ficando. Estamos na cozinha a ouvir os gritos das mulheres pela casa toda. Vemo-las passar, na sua correria, de um modo quase subliminar. O rato, que já tinha saído, volta a entrar em casa. Elas perseguem-no com a vassoura, mas falham os golpes. Estou enojada.
De uma das vezes que o rato passa por mim, a correr. Levanto as pernas, para ele não se enredar nos meus pés, e deixo-o passar, sem entender o histerismo provocado pelo sua presença. Nessa altura olho para o rato que está num canto da cozinha, à entrada de um buraco salvador, sem contudo se enfiar dentro dele. Ele volta-se para mim, para nós, porque entretanto a cozinha encheu-se de gente, e grita, guincha, pondo as patas acima da cabeça, numa mímica quase humana, de desespero e de raiva, como quem diz, estou exausto e cheio de raiva e não vou fugir mais.
Pergunto: “porque querem matar o rato? Fazer uma desinfestação à casa ou ao quarteirão, tudo bem, mas perseguir um animal sózinho, numa caçada tão desigual é desumano, é errado.”
Depois vejo, como se fosse num filme, os planos dos olhos das pessoas a olhar na direção do rato, e todos, em silêncio, deixam o animal partir, e afinal é uma fémea, muito digna, com umas orelhas espetadas como se fosse um gato (?), com uma cria agarrada às suas costas, e estamos todos muito espantados, e ela mete-se, finalmente, no seu buraco próprio.
Dados possíveis de levar em conta. Entramos no Ano do Rato.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Gente Portuguesa dos Painéis

16 PARA 17 DE NOVEMBRO DE 1995
Ando num quintal de uma quinta, meio às escuras, a limpar, com pedaços de algodão, manchas de sangue menstrual no empedrado do terraço, mas já não vejo bem onde estão todas. Depois vou a um encontro com Portugueses. São muitos, rostos anónimos que me recordam as figuras dos Painéis. Comparo estes portugueses, baixos, entroncados, fortes, de olhar franco, nobre e leal, rude mas sensível, com outros arquétipos, e percebo que este é mesmo o meu povo. De algum modo é um povo exilado. Só vejo homens e rapazes.
Depois há uns quartos, umas dispensas, onde as pessoas vão dormir, enroladas como se fossem crisálidas. Põem-nas numas prateleiras, umas por cima das outras, e faz-me impressão. Mas a mulher que toma conta da dispensa explica-me que aquele processo é bom, e as pessoas não se incomodam, porque entre umas e outras prateleiras há mesas iluminadas por candeeiros pequenos, com espaço e luz suficiente para as pessoas se sentarem a escrever.
Depois fecho-me na mesma dispensa, mas sozinha. Com uma mesa onde se escreve. Faço isso sozinha. Depois vou com a Tita omprar umas botas. Só que não há, à vista, para o meu tamanho, e estou cheia de pressa. Mexo nas botas e nos sapatos expostos, mas não gosto de nada. A empregada está ocupada a atender outras pessoas.

O corno do unicórnio brilha na escuridão do sangue

NOITE DE 15 PARA 16 DE NOVEMBRO DE 1995
Estou com a Su e o V. morreu. Sentimos uma grande alegria porque comentamos uma com a outra que agora, e finalmente, o V. pode voltar a ser, inteiramente, o que era, e é muito forte aquela noção de que, de algum modo, ele recuperou o ser que era antes da doença, embora num estádio superior de desenvolvimento. Mas, e ao mesmo tempo, há uma saudade muito grande: “Tu ouves-nos e vês-nos, dá-nos um sinal da tua presença” – pedimos, mas só sentimos aquele calor invisível da sua energia radiante. É um sonho muito mais vasto de que já não recordo os pormenores.
[Nesta altura a Su teve, também, um sonho muito estranho com o V. Estava com ele num quarto e as vísceras escorriam-lhe do ventre dele, e ela tentava organizar aquele caos de entranhas e sangue, muitíssimo calma e decidida no meio do caos. Ali, ela sabia, houvera um crime medonho. E no meio deste caos, da sujeira, e do corpo morto, da cabeça dele, saía como que um corno de unicórnio, inconcebivelmente luminoso e iridiscente.)

O mapa das estrelas

NOITE DE 12 PARA 13 DE NOVEMBRO DE 1995
Sonhei com o meu irmão Paulo, com o mapa das estrelas, com uma fuga e já não me lembro do resto. Com o Paulo encontrávamo-nos numa carruagem de comboio, parece que alguém ia a fugir de alguém. Depois havia uma discoteca e eu dizia-lhe para irmos até lá conversar. O mapa das estrelas era um livro, porque as páginas do mapa eram tantas que se tornava difícil ou impossível fazer apenas um desdobrável. De modo que víamos o céu página a página, em sequência, com as estrelas, as constelações, as nebulosas, os espaços intergaláticos e os buracos negros, e, atravessando tudo isso, as linhas a branco das rotas interestelares.
E o Luís A.R. tinha vindo de Vega, em Orion [confirmar se é assim: Vega é na Constelação Lira], e eu dizia aos meus filhos para verem, no livro que eu desfolhava, o percurso dele traçado na rota assinalada. Mas havia muito mais rotas no vastíssimo mapa tridimensional das estrelas, e cada um de nós tinha a influência dominante de uma constelação de onde tinha vindo.
E eu estava cá fora, sob o céu, de mão abertas e palmas para cima, a reproduzir, como se os recordasse, gestos de uma sacralidade esquecida, através dos quais captava as energias do Universo, de todas as constelações para onde apontava os meus dedos, incluindo aquela que me pertencia, a matriz do meu ser.
E então via, a negro translúcido sobrepondo-se ao azul escuríssimo da noite iluminada, a minha mão no céu, grande, muito grande, e eu sabia que era a minha mão, embora não estivesse ligada ao meu corpo real.
imagem: http://www.anzwers.org/free/universe/virgo.html

Um anjo de procissão

NOITE DE 6 PARA 7 DE NOVEMBRO DE 1995
A menina tem três anos, está vestida de anjo de procissão, com asas meio caídas e um fatinho de cetim amachucado. Foi o presidente da Câmara da cidade que mandou organizar a procissão. Ele pede para levaram, após a procissão, a menina a sua casa. Sou eu que levo a menina. (...)
Sinto uma enorme tristeza.
Depois sonhei com um barco e o director/comandante do barco convidava-me para a sua mesa. E havia um cinema na cave.