quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Os olhos verdes de Joshua estão cheios de riso


Vários sonhos, várias noites, Novembro e Outubro 1995
Sonho várias vezes com o Joshua. Os olhosverdes dele estão cheios de riso. De uma vez ele está escondido à entrada da minha casa, como se fosse um miúdo, a rir e a preparar-se para me fazer uma surpresa, ou pregar-me um susto, e ao mesmo tempo sem coragem para me enfrentar. Dizem-me que ele está ali, mas creio que não nos chegamos a encontrar.
Depois ele telefona-me e a chamada cai. Depois, noutra noite, noutro sonho, vejo-o passar por um corredor de uma casa. Ele está feliz e infeliz, porque primeiro passa um bebé, uma menina, e ele é o pai. E eu fico tão feliz por ver o bebé, e tão contente por ele. E dou-lhe os parabéns, mas vejo que ele está muito constrangido, e feliz a contra-gosto.
E noutro sonho, sonho que o Duarte me olha para as mãos e diz que eu continuo melhor, mas devia ir ter com o Gonçalo, seu irmão, médico homeopata, à casa de Sintra, para ele me ver e medicar. E cheira-me as mãos e dizia que apesar de estar muito melhor não estava ainda curada.
Eu vou para a casa de Sintra dele, no sonho muito maior e muito diferente da verdadeira. Esta casa está cheia de gente e tem muitos quartos. Num deles o telefone toca e uma criada atende e é para mim. É uma extensão de telefone muito antiga, e eu ouço com muita dificuldade o Joshua dizer, do outro lado, “vou ser pai”, e eu dou-lhe os parabéns, e ele está infeliz. Depois a chamada caí, ou é cortada, e ele tenta mais duas vezes falar-me, mas eu ouço a voz dele tão ao longe e tão sumida.
Saio desse quarto, e pelos corredores e no grande pátio interior, e nas salas e salões, há muito gente, e muita gente com crianças, porque é uma casa de família, com espaço para todos e aquele ambiente alegre, e ritual e tão leve porque há espaço e intimidade para todos. De um quarto sai um cão pequeno parecido com uma raposa, e a criada diz que ele tem de humor incerto, e eu pergunto se não será por estar sempre preso, no quarto do Miguel que vai lá ia muito pouco. O Miguel, no sonho, é o médico chamado Gonçalo. O cão dá uma volta à minha volta, e fica a cheirar-me os calcanhares. Não me mexo. Baixo-me para olhar para ele e o cão ferra-me os dentes na palma da mão esquerda. Continuo sem me mexer, sempre a olhar para ele, a pensar “não tenho medo de ti, sou capaz de te dar um pontapé que te atiro para muito longe, mas não quero fazer isso, portanto vê se me entendes e larga-me.” E ele não me magoa porque eu não ofereço resistência com a minha mão, de modo que ele só a prende, enquanto se vai parecendo cada vez mais com uma raposa, e eu continuo a falar com ele. Então ele larga-me a mão e eu vejo que está domesticado, apesar de ser agora, definitivamente, uma pequena fera.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

A produtora, a biblioteca, o avião, a loja

NOITE DE 7 PARA 8 DE NOVEMBRO DE 1995
Na Produtora. A entrada é diferente. As escadas são largas, de mármore, e digo, quando estou a subir, "que maravilha, as outras eram tão estreitinhas e tão íngremes, estavamos sempre a pensar que podíamos partir uma perna." Lá dentro está tudo muito diferente, mas continua a ser a mesma. Vou dar um beijinho à Paula e estendo-me sobre a secretária dela para dar um abraço á Tinucha.
O chão é de mármore raiado, lajes grandes e muito bonitas. O mobiliário é high teck, e há uma janela grande, com um parapeito cheio de vasos de sardinheiras, onde me encosto a olhar para a rua.
Volto-me para trás e vejo o Pedro que vem ter comigo, e dá-me um abraço, e ficamos a falar, à janela.Depois vejo o Jorge e peço-lhe autorização para utilizarmos imagens da produtora para fazer o spot , e ele diz que evidentemente, sem problema nenhum.

Depois vou a uma biblioteca que tem muitos , muitos, muitos andares. E quase todos são debaixo do chão. Estou no 5º ou 6º da cave, mas quero ir à "literatura das origens", mas informam-me que devo descer muito mais, ao mais fundo, e o mais fundo é aí o 47º andar inferior. Sinto muito calor, e aquele peso opressivo de quem está a entrar profundamente dentro da Terra, e sente o mundo inteiro por cima de si.
Saio no andar que marquei e que é o último, penso, e entro numa biblioteca muito bem arrumada, com livros muito bonitos que quero levar, e objectos de arqueologia fac-similada que também gostava de ter, e recordo-me das lojas dos bons museus, mais ou menos como no British, e pego em várias coisas, e então o senhor que toma conta da biblioteca diz-me para começar mesmo pelas origens, que neste caso são a Bíblia, e livros dos primeiros tempos da Era Cristã, o que me causa alguma estranheza, porque pensava que as origens eram muito mais recuadas.
Há um livro que abro e tem uma gravura muito bonita, e um tanto bizantina com alguns laivos de gótico, representando Jesus Cristo e o diabo, sob o fundo de uma Cruz radiante, e aquela gravura referia-se á Tentação.

Depois vou numa avião e o avião vai a sair de uma cidade capital, acho que é Berlim. Olho pela janela e digo às pessoas que o avião está a voltar para trás, está mesmo a voltar, e é um avião de 17 lugares.
Perde altura e começa a fazer-se à pista numa auto-estrada, porque nem tem tempo de chegar ao aeroporto. O piloto diz às pessoas que vai voltar para trás, mas isso não vai alterar em nada o destino do voo, e não é caso para alarme.
Vejo o avião aterrar na estrada, no meio dos automóveis que, por sorte, se desviam, mas a situação, embora perigosa, é estranhamente desprovida de perigo real. O sentimento é de frustração pelo tempo que se perde
Depois o avião volta outra vez a subir, porque na estrada de emergência não há combustível, e ele precisa absolutamente de combustível. Olho para cima e comando as operações, porque há fios de alta tensão e o avião pode destruir-se neles, e esse é na verdade um perigo grande. Agora estou sentada a cavalo no avião, cá fora, a levar com o vento e a minha carteira está em risco de me cair do ombro, e eu própria estou muito mal sentada, e tenho medo de não me conseguir aguentar e desprender-me e cair. Alguém me diz para curvar a cabeça e o pescoço de forma a não acometer o vento directamente, da mesma forma que nos sentamos para andar de mota, acomodando-nos ao vento e não contra ele. De modo que consigo endireitar a carteira, e arranjar uma posição muito mais segura, e agarrar-me bem. Só penso no horror que vai ser morrer congelada, quando o avião ganhar altura. Mas a mesma pessoa diz que não corro esse perigo. O avião agora só vai voar à altura que está, relativamente próximo de terra. De modo que não faz frio, não corro perigo, e posso olhar para baixo, e ver a terra verde e castanha dos campos arados e bem cultivados, a deslizar por baixo de mim.
E depois estou em terra, á entrada de uma loja de alta costura, onde exprimentei, há tempos, um casaco que não cheguei a comprar. Todas as pessoas estão a fazer compras. Eu não tenho dinheiro. Mas também não estou a ver nada que me agrade muito. Então pergunto à minha mãe se acha que eu posso fazer compras e apresentar a factura à companhia de aviação para me compensar pelosdanos causados pelo incómodo da interrupção da vaigem, em vez de ir para os jornais fazer queixas deles, e a mãe diz que é óbvio que devo fazer isso mesmo. Então é um stress, quero despachar-me a ver as coisas, mas não encontro nada que goste, e vou entrando e saindo de salas com roupas de toilete, que não me agradam, e, de sala em sala, agora já acompanhada por uma empregada que já conhecia de ter comprado ali outras coisas, encontro finalmente o meu casaco, que a vendedora me traz mais o chapéu, duas peças que eu tinha visto, gostado, e escolhido faz tempo. Mas é um chapéu preto e branco, cheio de penas, e já não gosto de me ver com ele. Penso: como é que vou apresentar a factura à companhia? Se peço à loja para lhes ir cobrar não deve ser muito fácil, porque não me conhecem, e estou num país que não é o meu.Se deixo as coisas para mas mandarem quando a companhia lhes pagar, arrisco-me a demorar a recebê-las. Para pagá-las eu e levá-las já não posso, não tenho dinheiro. Mas tenho cartão de crédito. E é assim que faço.
E depois estou num estúdio e vai-se fazer um filme e parece que eu entro, ou pertenço ali, e encontro (transcrição indecifrável e inacabada)

domingo, 17 de dezembro de 2006

O cão mensageiro e os prédios todos iguais

NOITE DE 19 PARA 20 DE MAIO DE 1995
Estou em casa do Paulo. Ele abraça-me. Entra a Luísa. Tem olheiras fundas, e os olhos pisados, a pele baça, um ar desamparado. O Paulo vem do quintal e volta a abraçar-me. Ela olha e quando ele sai diz: «tenho de resolver esta paixão por este homem. Voltar a conquistá-lo. Tenho sido tão parva, os ciúmes cegam-me, imagina que cheguei a pensar que vocês tinham um caso. De facto estou doente, mas vou ultrapassar isto». Respondo-lhe por banalidades, digo-lhe que precisa, em primeiro lugar, de ficar de bem consigo mesma antes de tentar reconquistar o homem. Ela sorri, continua sentada a balouçar-se tranquilamente, mesmo quando ele volta de novo a abraçar-me.
Depois no quintal, que é de cimento, há umas lajes meio deslocadas, e debaixo delas vê-se água, e é daí que emerge um cão com dois sacos de compras na boca. Já no quintal o cão sacode-se, sem nunca largar os sacos, e depois avança para a porta da saída. Tento perceber se ele quer companhia ou comida, mas é evidente que ele quer é sair, como se tivesse uma missão. Abro-lhe a porta e fico a vê-lo, na rua, onde os prédios, agora, são todos absolutamente iguais, à procura da sua casa. Eu própria tento dar uma ajuda, tocando a várias campainhas. Nas janelas há crianças que criticam a cena, mais pelo incómodo de terem de vir ao intercomunicador explicar que não é a sua casa a que o cão procura. Grito-lhes que se estão preocupadas então falem com os pais delas para eles não voltarem a tratar o cão daquela maneira. Depois percebo que o cão encontrou o seu destino. Abre-se uma porta e ele entrega os sacos, que, por incrível que pareça, não estão molhados, nem o seu conteúdo estragado. A casa não é dos donos do cão. Ele é só um mensageiro. Mas agora estoueu na rua, e esqueci-me do numero da porta, e os prédios são todos iguais, e vou tocando, aliás só tento uma vez, e não é a casa, e por mais que tente não me lembro mesmo do número nem do lote. E penso, que estranho, afinal estava aqui agora e vim cá tantas vezes, e não encontro a casa. O seu lugar não me ficou na memória, como se tivesse sido apagado.

A festa de despedida, o camião cisterna e os brinquedos enterrados

26 PARA 27 DE FEVEREIRO DE 95
Toda a gente se vai embora. Há uma festa em casa da Paula. Ela e o Hendrik vão vender tudo e mudar de País. Ele explica-me que está só à espera de Janeiro que é a melhor altura para executar esse tipo de operações. Estou a ajudar à festa. Bebo um copo de uísque com coca-cola, mas pouco. A Paula chama-me a atenção para outros copos que estão cheios, à espera que eu os beba, e é como se me censurasse. Digo-lhe que não foi por descuido, mas não acabei ainda resto da minha bebida. Então dou um gole num copo pequeno, numa bebia alcoólica, muito amarga. Depois vou ajudar a arrumar copos vazios, mas é mais como se fosse uma obrigação do que uma ajuda de amiga. Sinto-me incomodada porque entretanto, num dos cantos do jardim onde a festa corre, cheia de convidados, vejo o Manuel sentado, como se não quisesse ver-me, porque eu estou com o Paulo e também não quero que ele perceba que estou ali a despejar uma bandeja cheia de cinzas, porque me sinto mais no papel de empregada do que de amiga. Depois preciso de ir buscar umas calças de seda que estão na costureira a fazer bainhas, e desço uma rua muito íngreme, depois de ter avisado na festa de que já vinha. À entrada da loja da modista vejo a Paula que vai entrar na casa da frente. Ela ri-se para mim, e faz um sinal de quem diz «já volto, mas não digas nada a ninguém».
Depois estou outra vez na rua e um amigo da Paula que veio da Holanda está a estacionar o carro. O filho dele sai. Tem nove anos. O carro, entretanto, começa a descair, e é quase impossível travá-lo. Junta-se gente. Estou com a criança ao lado, a ver. Entretanto o carro embate num grande camião cisterna, e as pessoas tentam segurá-lo para que não se enfie nas lojas. E tentam impedir que se fechem as portas do camião cisterna para ninguém ficar entalado. O camião mais ou menos rebenta e a água começa a inundar a rua. Pensei que ia ser assustador mas não é. A água não é tanta que faça uma inundação. Então o miúdo pede-me que o leve ao colo. Está pálido, assustado, e eu não tenho coragem de dizer-lhe que não. Pego-lhe ao colo, mas ele é grande e a rua é íngreme. Subo com alguma dificuldade, mas percebo que, mais do que colo o que ele quer é mimo, porque é extraordinariamente carente. Abraço-o e conforto-o e ele encosta a cabeça com força contra o meu ombro.
Novamente no jardim. Já não há festa. Há crianças a brincar. Faço um buraco num recinto pequeno, com areia, uma espécie de caixote, e descubro que lá dentro estão imensos brinquedos novos, coloridos, de plástico. Penso: "que criança os escondeu aqui e se esqueceu deles? Que criança os poderá vir a reclamar se os der a este que trouxe comigo? E se ninguém reparar?"
Eu quero dar estes brinquedos à criança que está comigo.

domingo, 10 de dezembro de 2006

Uma faca suja de sangue, dois monstros assassinados

25 PARA 26 DE FEVEREIRO DE 1995
Uma casa, uma espécie de cave. É o quarto onde está um homem, cujo rosto não vejo, e uma mulher, alta, e uma menina, que apenas vejo de relance, nas sombras do fundo do quarto. A menina chora. Ainda não tem quatro anos.
Para não ouvir os gritos da menina começo a subir as escadas. As escadas vão-se iluminando à medida que as subo. E penso. "Se fosse agora, descia e com uma faca assassinava os dois, pegava na menina ao colo e fugia com ela." E, como se estivesse acordada, executo mentalmente esse propósito sem o visualizar.
Depois estou coberta de sangue. Tenho uma faca na mão, e sei que matei aqueles dois, e estou numa estrada. Eu estou com a menina. Eu sei que as imagens que vejo são imagens criadas pela minha vontade . Depois estou dentro de um carro.
A estrada é deserta, rodeada de campos desolados. Dentro do automóvel há duas pessoas, além de nós. Nós vamos sentadas no banco de trás. Penso que nos ameaçam, ou que ameaçam ameaçar-nos. Puxo da faca encosto-a ao pescoço do condutor e digo: "esta faca está suja de sangue porque acabei de assassinar dois monstros. Posso voltar a fazer o mesmo." Então somos atiradas, as duas, para fora do carro. Ficamos de novo sozinhas, na estrada desolada e deserta.

Eu, o indiano, o Paulo, o Joshua e muitos livros

22 PARA 23 DE FEVEREIRO DE 1995
Novamente um indiano. Sei que já o encontrei mais vezes, nos meus sonhos. Agor, aliás, é um casal de indianos, mas a mulher não está. Eu é que estou em casa com ele. Há um cão no quarto. É cachorro e brincalhão. Antes, penso, eu tinha combinado com o indiano ir à loja dele buscar coisas, ou fazer compras. Mas agora estou a brincar com o cão, que se agarra ao cinto do meu roupão, que é como que uma trança de seda. O cão morde e brinca com o cinto do meu roupão e acaba por desmanchar uma das pontas.
Olho para o Paulo, que está ao meu lado e peço-lhe que me conserte aquele cinto, mas faço-lhe o pedido com imensa cerimónia, e ele responde quase do mesmo modo, mas a rir. E garante-me que conserta o cinto.
Depois estou a atravessar uma rua, com ele, porque combinei ir encontrar-me com a Blá numa estação de Caminhos-de-Ferro, penso que no Cais do Sodré. O Paulo está ao meu lado. Ele vai carregado de livros. São tantos livros que quase lhe tapam a a cara. Depois eu ainda lhe passo umas coisas, que tinha na mão, para ele carregar com elas. Depois ele põe-me o braço por cima dos ombros.
Depois encontro o Joshua e fico tão contente, tão contente. Começo a contar-lhe dos sonhos que sonhei com ele. Ele, entretanto, diz que recebeu aquela minha carta, que lhe mandei no mundo de acordada, e pergunta-me se não lhe voltei a escrever, e eu digo-lhe, super animada, que continuo a escrever os meus sonhos, sempre. E ele diz-me que faz o mesmo há imenso tempo, e eu não acredito. E ele insiste, mas explica-me que não vai escrever nenhum livro, porque o negócio dos livros está mau, mas vai fazer um CD Rom. E repete que escreve sonhos desde o tempo em que andamos juntos, mas se calhar nunca me disse.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Eu, o Paulo e o bebé do Paulo

18 PARA 19 DE FEVEREIRO DE 1995
Levo um bebé ao colo. Este bebé é do Paulo, mas aninha-se tão bem, e enrola-se tão confortavelmente nos meus braços, que não me pesa, e pelo contrário, é muito bom tê-lo assim. Depois vejo que tem a cara suja. E suja-me a mim, também, porque bolsa, e muito. Procuro uma casa de banho. Há duas, mas escolho a dos homens, onde está o Paulo a lavar as mãos. Entro e começo a lavar a minha cara, depois as minhas mãos, e só depois ligo ao bebé, que está feliz, no meu colo, a rir-se para o espelho.
Depois meto-me num eléctrico que é um comboio, ou o contrário. Primeiro eu estava à procura da estação, mas não era nada fácil encontrá-la. Depois ensinam-me. Entra-se por uma espécie de quinta, mas é uma quinta cheia de edifícios baixos, casas de habitação. Sinto, quando entro ali, que é como se ganhasse uma certa independência em relação ao que fica cá fora, uma vez que ninguém, a menos que eu queira, pode dar comigo ali.
Sei que me procuram. Fico contente por saber que só me encontrarão quando eu quiser.
Tudo aquilo é velho e mal conservado, mas, ao mesmo tempo, é bonito como se estivesse abandonado há muito tempo.
Entro no comboio que é um eléctrico. Adoro a viagem que ele faz. Calma e longa, através de uma cidade que é o Porto. O Lula vai ao meu lado. Engana-se a mexer num telemóvel. Ouve-se uma voz. É o pai do Zé. Olhamos um para o outro, como se ele não devesse ter feito aquilo. O Lula toma a iniciativa e simplesmente desliga o telemóvel.

Meu inimigo, minha sombra, minha fera, meu amor

17 PARA 18 DE FEVEREIRO DE 1995
Tenho de fugir sem pôr os pés no chão. Estou numa grande sala de baile, com lianas penduradas do tecto, a várias alturas. Agarro-me e vou passando de umas para as outras, dando balanço com o corpo e projectando-me sempre para diante. Tenho de fugir de um homem que me persegue. Faço-o com dificuldade. Então encontro um casal de meia-idade a quem peço abrigo em sua casa. É uma casa de passagem. Lá dentro há uma sala e um quarto. Eles acolhem-me e eu vou-me esconder no quarto do fundo.
Depois tocam à campainha, e sei logo que é ELE. Peço ao casal que diga ao homem que eu não estou ali, nem sabem de mim. Explico-lhes que devem ter muito cuidado porque ele é inteligentíssimo. Escondo-me no quarto, que tem uma porta que dá, também, para a rua. Para as traseiras da casa. Na porta há um olho-de-peixe.
Ouço, mal, a conversa entre o casal meu amigo e o homem que me persegue. Ouço a porta da rua bater e sei que ele se foi embora. Então ponho-me a espreitar pelo olho-de-peixe para o ver ir-se embora também deste lado da casa. Espreito e vejo só um corredor vazio ligeiramente deformado pela lente.
Afasto-me. Volto a olhar. Nada. Afasto-me e aproximo-me de novo, para ter a certeza de que ele se vai mesmo embora. E quando encosto, de novo, o meu olho ao olho-de-peixe sinto uma espécie de descarga eléctrica, um susto, um terror, porque, no mesmo instante, o meu perseguidor faz o mesmo do outro lado.
Num salto, enrolome no chão, junto à porta, e, a tremer, fico à espera que ele não tenha detectado a minha presença. Mas sei que, apesar de estar agachada junto da porta, não posso movimentar-me pelo quarto porque ele me detecta. E sei que há maneiras de ele conseguir espreitar, através do olho-de-peixe, e conseguir mesmo ver-me no ponto em que estou, embora não o faça por métodos habituais, até porque aquele dispositivo, em princípio, só serve para olhar de dentro para fora e não o contrário. Mas ELE consegue. Eu sei que ele consegue fazê-lo.
Ouço a sua respiração através da porta. Uma respiração pesada, de animal selvagem. Sei que ele nunca vai sair dali, nunca vai deixar de me perseguir, só vai parar quando me apanhar.
Tremo e aguardo.
Então, de repente, tomo uma decisão de instinto. Levanto-me e abro a porta ao meu inimigo, à fera que me persegue, ao homem ameaçador. E ele entra e eu atiro-me para ele e fundimo-nos num intensíssimo abraço.

domingo, 26 de novembro de 2006

Tempestade terrível sobre os amantes


14 PARA 15 DE FEVEREIRO 1995
Na cozinha da minha casa há uma barata horrível, e estão os meus filhos a ver, e está o Paulo Ab. a ver, e ninguém faz nada, a não ser eu, que grito e salto, e a barata, que não grita, mas salta.
E depois estou com o Paulo a passear na rua. E está a chover um pouco, e cada um de nós tem um guarda-chuva. Olho para o céu e vejo uma nuvem carregadíssima, negra, e digo, olha Paulo que nuvem tão gorda. Vai rebentar em água e trovões por cima da nossa cabeça. E a nuvem pára mesmo em cima de nós e não se mexe.
Estamos numa rua de uma cidade, num passeio junto a montras iluminadas. Há, aqui e além, toldos. Entretanto, a nuvem torna-se ameaçadora, pelo menos para mim. O meu guarda-chuva torce-se e vira-se do avesso. Sinto uma tremendaelectricidade no ar. Percebo que o meu guarda-chuva e o do Paulo podem servir de pára-raios e nós seremos literalmente feitos em cinza. Estou aterrada. Ele agarra-me e leva-me para dentro de um café onde servem pequenos-almoços. Lá dentro está calor e estamos protegidos. Pergunto-lhe se viu bem como estava o meu guarda-chuva. Ele diz que sim mas tranquiliza-me. A comida é imensa. Ele pede batatas salteadas. É um pequeno-almoço americano muito pesado para nós.

Correntes cobrem o corpo dos amantes

NOITE DE 12 PARA 13 DE FEVEREIRO DE 1995
Um prédio em obras e dentro de um vagão de entulho está o Paulo Ab amarrado com correntes. As correntes estão á volta do seu peito e ele está deitado num contentor das obras. Olho sem perceber o que devo fazer nestas circunstas, e vejo uma mulher, ao lado dele que tem uma das pontas da corrente na mão. A mulher olha para mim e atira com essa ponta para dentro do vagão. É como se ela estivesse a dizer-me "agora é contigo." Então vejo que ele não está amarrado mesmo, só está coberto com todas aquelas grilhetas e anéis de ferro, mas como a ponta está solta nem precisa de se desamarrar. Ele só precisa de sacudir-se, ou desembrulhar-se.
Agora eu sei que está nas minhas mãos soltá-lo, até porque as correntes já só o cobrem.
E eu sinto que agora, sou ele.
Depois há um pombo frágil, no chão. Esse pombo não consegue levantar voo. Percebo que é porque ainda não lhe tiraram a mensagem que leva agarrada, à pata ou ao pescoço. Tiro a mensagem, mas não a leio, e ergo o pombo no ar em direção ao pombal. Ele, ainda frágil, bate as asas e consegue voar. Entra no pombal e mistura-se com os outros.
Depois estou a recordar um amante indiano, mas nem sei o seu nome, nem tenho dele qualquer memória.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

"Fortaleza de Alma" e os budistas ocidentais

10 PARA 11 DE FEVEREIRO DE 1995
Uma estrada. Um grupo de budistas tibetanos. Eles falam, entre si. São ocidentais. No meio da estrada há um corpo amarrado, dentro de uma espécie de saco. É o corpo de uma pessoa condenada à morte. Olho e não percebo como é que um grupo de pessoas religiosas tem, deitado no chão e em sofrimento, um ser que condenaram à morte. Tento pensar nestes termos: “são orientais, e para os orientais as questões do sofrimento e da morte são colocadas noutros termos.” Então percebo que sou eu o corpo amarrado no chão.
Toco nos nós que me prendem e descubro que são surpreendentemente fáceis de desatar. São nós frouxos, de fio de embrulho. A única questão é desatar-me rapidamente para que os budistas não descubram e venham atar-me de novo. Sou extremamente rápida. Num salto chego ao pé do grupo, que me olha estupefacto. E o lama dos budistas, ocidentais, olha-me profundamente comovido. Explica-me que eu sou o Buda de quem estavam à espera. Passei o teste, soltei-me dos nós, livrei-me da morte.
Agora, aquelas criaturas que momentos antes não davam nada por mim, e me tinham votado à morte, adoram-me. Penso: “como vou ser o Buda deles, se nem sei tibetano?” Não sei como orientá-los, nem o que lhes dizer. A sensação que tenho é que acho tudo um pouco infantil, mas ao mesmo tempo não os quero desiludir nem desamparar. Então, o que antes era o líder espiritual do grupo pede-me que lhe dê um nome secreto. Fico atrapalhada. Mais uma vez não sei tibetano... invento uns sons e digo-lhos ao ouvido. Ele parece desiludido. Não percebeu bem. Explico-lhe o nome secreto dele, que quer dizer “Fortaleza de Alma”. Depois olho por cima dele e vejo um livro de signos chineses, aquelas edições de grande consumo, mas com os nomes em tibetano. Rapidamente memorizo um e digo para o meu “discípulo”: vou dar-te outro nome secreto. Digo-lho ao ouvido e ele fica felicíssimo.
Não estou contente com este meu novo papel, porque, basicamente, não acredito no que estou a fazer e, ainda por cima, ele vai implicar muito trabalho, (tenho de aprender tibetano) e muita atenção aos meus discípulos. Mas não tenho coragem para lhes dizer que não posso assumir este cargo, porque apesar de tudo, é como se os desamparasse.
Sinto-me muito lúcida, muito cheia de “fortaleza de alma”. E muito só.

The girl, the boy and the crystal tower

18 para 19 DE JANEIRO DE 1995
I am travelling with my brother, and then we left the car and tried to claim up the green mountains. But then they turn out to be sand like, very white, but not so easy to claim. Then I saw this woman in the top of the mountain, but she vanished right away. Then I saw this Tuareg man passing by, in his majestically look like. When I reached the top, there is the desert. I start walking by myself and came to this huge convent, something between a monastery and a 7 stars hotel. Inside there are lots of people, monks mainly. And this two astonish woman. One of them look at me strait in the eyes, in a way that I felt even intimidated. Somehow, she’s in charge of the place, like she sees and controlles everything and everybody, but in a natural way. She is very beautiful and sophisticated. She’s red dressing. The other woman is the messenger, young and also beautiful, but dressed like a fancy soldier, with boots and stuff but no weapons. She is about to leave to the outside world, and she’s smiling and laughing and moving gracefully. I admire them both.
The monks seem like Buddhists, and they smile like children do. Then I realize I belong here. And I think "I must see everything. Details do matter, and in dreams you kinda forget these things, loosing the messages." And then I enter this small room and start to open this wall cabinet, but as I open the door, I found another one, and another one, and another one. All different, and astonishingly nice, in so many different ways, but... nothing more then doors opening to doors, and then there is this monk smiling at me, and he says "that's not the point, you see? This won't take you anywhere." He is not blaming me or whatsoever. Just pointing things the right way, so I left and walk, and walk inside this palace monastery, and find myself in this staircase outside the crystal tower, claiming up the stairs, and there were these young people, a boy and a girl, they were nine years old, and helped me to go inside. Outside there were the sea and some wind blowing. Inside we could see everything around, cause it was a round crystal tower. They asked me if I knew already the big kitchen, and I told them the monks showed me one but "it's not so, so big". Then they said "you didn't see anything. The big kitchen is huge. It's all this building shape under the basement. But very few of them know about it. We know indeed everyplace, everything, every secret of this place nobody ever heard about."
Then they told me they would show me everything, and they would tell me everything

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

O rapaz, a rapariga e a Torre de Cristal

18 PARA 19 DE JANEIRO DE 1995
Vou com o meu irmão por uma estrada que se curva entre montes, que não parecem muito elevados. Estes montes fazem curvas suaves, parecem seios verdes que entram pelo azul-cobalto do céu. A meio de uma encosta parece-me ver uma figura de mulher. Mas então os montes já não estão verdes de ervas rasteiras, estão brancos de areia muito branca. Saio da estrada, e tento subir por aquelas dunas que se desfazem sob os meus pés e mãos. O meu irmão começa a escalada. Eu afasto-me ligeiramente dele e tento também subir, enquanto penso que se déssemos a volta pela estrada se calhar chegávamos ao topo sem qualquer esforço, porque me custa a acreditar que aquele seja o melhor ou o único caminho. Começo a subir, escorrego, e volto a subir. A meio de uma encosta vejo, bem acima, uma figura solitária. É um tuaregue de turbante, que caminha imperturbável.
Reparo agora, como naquele deserto, mesmo em locais improváveis como aquela encosta, se encontram detritos da civilização: para variar, sacos de plástico. Penso, “que pena, virem de tão longe sujar este santuário.”
Escorrego e sinto medo e prazer. Medo, porque já subi muito, e imagino que posso cair com força e magoar-me. Também sinto alguma frustração, porque escorrego precisamente quando estou perto de uma plataforma onde me posso içar e encontrar chão mais firme. Mas cair dá-me prazer. Escorrego por um declive de areia fofa e morna, que se solta sob o peso do meu corpo. Volto a insistir. Quando dou por mim tenho as mãos enclavinhadas no bordo da plataforma e os pés à procura de um ponto de apoio, onde me firmo. Agora subo para um chão mais duro, o terreno por onde vi passar em silêncio e mistério, o meu tuaregue.
Começo a andar e chego a um mosteiro. Entro num átrio do que me parece, ao mesmo tempo, um hotel de luxo e um convento. Há frades que caminham, apressados e sorridentes, atravessando um átrio imenso, e outras pessoas, algumas aparentemente com funções específicas. O espaço é levemente sombrio e fresco, em contraste com a luz incandescente do deserto lá de fora.
Espanta-me um pouco ver mulheres naquele local. São mulheres sensuais, muito bonitas. Estas mulheres têm personalidades fortíssimas. Uma está sentada numa cadeira alta, ocupando um espaço central. Olha-me de frente e o seu olhar quase me intimida. Está vestida de vermelho, a roupa é um pouco provocante, mas extremamente sofisticada. Outra vem a chegar e vai já partir. É mensageira e está mais ao nosso nível. Está vestida de caqui, uma espécie de fato camuflado, e move-se com agilidade e com alegria. Ela fala com os frades. Ela fala com toda a gente. Os frades riem. Não sei porquê, lembram-me budistas. Parecem espelhar naqueles sorrisos uma felicidade quase infantil.
Percebo que pertenço ali. Eu estou em casa, de uma forma que não sei explicar. Então vem-me uma febre de conhecer tudo, e avanço quase correndo, para um quarto, e resolvo espreitar os armários, porque me lembro que muitas vezes não ligamos, nos sonhos, a esses pormenores, e perdemos oportunidades fantásticas. Abro as portas de um guarda-fatos, e elas revelam-me outras portas. São todas lindíssimas e todas diferentes umas das outras. Vou abrindo, sucessivamente, portas que dão para portas, numa urgência onde já entra alguma raiva e frustração. Penso que se abrir as gavetas do fundo do armário, posso meter as mãos por baixo e tentar abrir a última porta de todas as portas, e perceber o que guarda aquele armário, que agora sinto e sei que está vazio. Então vejo um dos frades ao meu lado, e ele está a sorrir com um ar muito pacífico e diz: “não é por aí que vais descobrir nada de interessante.” Não há qualquer espécie de censura na sua observação. Então volto as costas àquele quarto, avanço pelo átrio fora, meto-me por um corredor e depois estou a subir umas escadas em caracol e então vejo uma espécie de torre envidraçada onde estão duas crianças, um rapaz e uma rapariga. Têm nove anos. Em frente da torre há o mar azul e imenso. E sol, e vento.
As crianças chamam-me. Vou ter com elas. Há uma varanda em redor da torre, e eu não sei como se entra, embora tudo pareça tão simples. É a rapariga que sai e me pega pela mão para me ensinar a maneira de entrar na torre. Lá dentro está-se melhor, porque apesar de ser muito bonita a vista cá de fora, o vento é ligeiramente agreste. Além disso, cá de dentro, vê-se singularmente bem toda a paisagem em volta.
As crianças perguntam-me se já conheço a grande cozinha. Digo que conheço a cozinha, sim, um dos frades mostrou-me onde se fazem os alimentos, para eu depois ir buscar, quando tivesse fome. Aliás lembro-me que o frade me falou em várias cozinhas. Mas nenhuma delas era enorme. As crianças trocam um olhar:
– Então não viste nada ainda. A grande cozinha é imensa e dali vai dar a todas as outras pequenas cozinhas. Ocupa todo um alicerce deste mosteiro. Não viste senão uma amostrazinha de nada. A entrada nem sequer é por aí, por onde te disse o frade – respondem elas.
Pergunto-lhe se sabem lá ir. Respondem-me que vão lá todas as vezes que querem. Conhecem o mosteiro, todo. E sabem todos os seus segredos. Prometem levar-me com eles. E contar-me tudo. Tudo.
Thanks Anton Sherwood, http://www.ogre.nu/ for your "conspicuous staircase" you let me put in my blog.
Gente, his site is full of treasures.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

The evil old man

15 PARA 16 de JANEIRO DE 1995
Estou numa casa de dois andares e preciso de ir ao primeiro andar. É uma casa alegre, banhada de luz amarelada. Subo as escadas, mas a cada passo sinto uma dificuldade crescente. Há no ar uma vibração de medo que cresce de intensidade, e se enrola nos meus braços, nas minhas pernas, vestindo-me com um peso de chumbo que me aperta o coração.
O ar está carregado de electricidade. Tento ignorar o medo, mas quando estou perto da porta do quarto que quero abrir, a violência da sensação paralisa-me. Olho para baixo e grito pela minha mãe, mas o som que me sai do peito é baixo, rouco, tão pouco parecido com o grito que quero soltar dentro de mim. A minha mãe, contudo, ouve-me. E responde-me, cá de baixo, que naquele local sente precisamente o que eu sinto, e que ali deve haver alguma assombração, pelo que não devo estranhar o que estou a sentir.
Assumo o meu terror, e volto para trás, rapidamente, ganhando forças à medida que fujo. Começo a descer as escadas, o coração a sossegar no peito.
De repente olho para trás, para cima, e vejo-o. É ser velho pequeno, imundo, quase inofensivo, repulsivo, e no entanto, aterrador. Está vestido com uma túnica amarela, comprida, até aos pés. Tem um arremedo de barba e bigode. É ele que tenta subtrair-se ao meu olhar, escondendo-se nas dobras dos degraus, sempre atrás de mim. Reage com uma expressão de raiva à nossa troca de olhares que o põe a descoberto. Arreganha os dentes.
Mas eu já não o deixo fugir. Ao meu lado, a minha mãe dá-me amuletos para me proteger dele. Subo as escadas armada da minha raiva e destes amuletos quase infantis. Vou subindo enquanto ele se encolhe e recua, arreganhando os dentes e rosnando, e eu olho-o, e odeio-o e persigo-o, e penso, num canto assustado de mim, e se ele não fugir mais à minha frente?
Mas a raiva é maior, e eu vou subindo as escadas até que percebo que para além deste velho que rosna e recua, há muitas outras figuras que o rodeiam, escondidas nas sombras, e que começam a criar forma, e corpo e rosto, e então... reconheço-as. Vejo os seus rostos. Querem abraçar-me, eu liberto-me. Já não têm força.
Sou eu quem tem força, agora.

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Vamos todos embora

NOITE DE 27 PARA 28 DE NOVEMBRO DE 1994
Vamos todos embora para África por causa da guerra, só que algumas não querem, por causa dos namorados. Parece que uma delas é a Tita. E eu tenho de arranjar as coisas para partirmos. Eu estou contente e triste.
Depois vejo um prédio antigo. Engano-me no andar. Volto a descer. Não é ali a minha casa.

Carros estranhos no jardim

NOITE DE 26 PARA 27 DE NOVEMBRO DE 1994
Alguém estacionou carros no meu jardim. É o jardim da casa do Porto. Dirijo-me a um dos condutores que está precisamente a abrir o portão para sair e preparo-me para o descompor, quando a minha vizinha, encostada ao muro que separa as nossas casas, me diz que foi ela quem deu autorização porque acha que não há mal nenhum nisso.
Digo: “fez mal e não devia. Não pode dispor do meu jardim.” Ela desculpa-se, mas eu não aceito as desculpas. Insisto. “Não volta a dispor do meu jardim. Quem dispõe do meu jardim sou eu. E isto não vai voltar a acontecer, espero que entenda.”

domingo, 12 de novembro de 2006

Dois jardins. Um está em chamas.

NOITE DE 23 PARA 24 DE NOVEMBRO DE 1994
Dois jardins. Um coberto. Outro ao ar livre. Dentro de casa olho pela janela. Vejo o jardim ao ar livre e não gosto. É um jardim à francesa, muito devassado, muito geométrico, sem mistério. Estão pessoas comigo, mas elas estão de costas para a janela.
O círculo central que constituiu o núcleo da composição geométrica do jardim explode em chamas. Penso: "amanhã vem uma comissão avaliar este jardim, e é suposto recebermos um prémio. Mas o jardim está a arder." Digo em voz alta:
-- O jardim está em chamas.
As pessoas não se voltam. As chamas extinguem-se. Penso: "se calhar não são grandes os danos. "Depois, de novo, um círculo de chamas irrompe do núcleo vegetal. Penso: "devia ir ajudar a extinguir aquele fogo. Mas porquê? Não sou do serviço de bombeiros. " Aliás há dois carros de bombeiros parados junto da sebe de buxo. Aviso de novo as pessoas que estão comigo, mas penso que o faço sem grande convicção. Assim, e quando se voltam, mal percebem a chuva de fagulhas, uma nuvenzinha de cinza que se dilui na contra luz do princípio da noite. Portanto não me acreditam.
E depois estou no jardim coberto. Foi feito, também, muito recentemente. A relva ainda não está bem presa ao chão. E as flores têm sede. Tanta que descubro uma mangueira e começo a tentar perceber como vou regar aquele jardim, que precisa de muita água. Está muito no princípio, mas gosto dele.
Agora todos sabem do fogo. Mas não tenho pena, apesar do prémio. Penso: "este jardim, coberto, também estará incluído?" Mas este está ainda tão no princípio que ainda está tapado. Digo em voz alta:
-- Se trabalharmos muito podemos arranjar o outro para amanhã.
Mas ninguém parece interessado, e eu fico aliviada. Dizem-me que o fogo não foi culpa de ninguém, porque às vezes, as flores mais insignificantes e rasteiras entram em combustão espontânea, e pegam fogo a tudo, no seu incêndio brusco e inesperado. É raro, mas acontece.
Não houve bomba, nem fogo posto.
Foi obra natural.

sábado, 11 de novembro de 2006

Os dois bebés, eu, o homem e a porta entaipada

26 para 27 de Outubro de 1994
Sob uma ponte, uma estrada, um carro, algum lixo, eu e a Alexandra. O carro é um Wolkswagen. Saímos e junto de um dos pilares está um melão, ou melhor, o que se convenciona chamar um melão. Depois estão vários e não têm bom aspecto. A Alexandra diz-me para os apanhar, que estão óptimos. Não estou muito convencida, e tento rolá-lo com os pés. Ela insiste, diz que são óptimos. Eu agarro num melão pelos cabelos (?) e levo-o para o carro, mas não parece muito saboroso.
Depois estou a sair de um edifício histórico, tipo embaixada de França em Lisboa, só que muito maior, lá dentro é quase uma cidadezinha. Saio por uma porta lateral, uma porta reservada aos da casa, aos íntimos, de confiança. Mas quando estou fora lembro-me que me esqueci da carteira, e volto a entrar. É estranho porque para entrar eu não deveria usar aquela porta. Mas no entanto ela nem está fechada à chave. O porteiro vê-me passar, reconhece-me e eu sigo. Lá dentro há uma casa de cave, com umas escadas estreitas que começam ao nível da rua. Encontro uma mulher que me reconhece e que me diz que vai ligar ao senhor Augustin, porque eu sou a mulher-a-dias dele, e ela também, só que eu sou um posto acima dela. Digo-lhe que não é preciso. Mas a ligação foi feita. Do outro lado da linha há uma voz a desfalecer de cansaço. Explico que houve um mal entendido, não me ia embora e não tinha pedido que lhe ligassem. A mulher pede-me imensas desculpas. É a mulher do meu patrão.
Depois estou noutra casa e há lá dois bebés. Um é meu, outro é de um homem que é marido de uma mulher da minha família. Estamos os dois a cuidar deles, numa sala. Essa sala comunica com a cozinha, através de uns degraus, e a cozinha é a entrada da casa. No entanto, a porta de comunicação é estreita, e o homem ainda por cima, está a entaipá-la. Discuto com ele. Digo que mal passamos os dois por aquela frincha que ele deixou. Ele goza, diz que nós passamos muito bem por ali. Eu respondo: “mas se for a tua mãe ou a minha não passam mesmo. E se precisarmos de chamar um médico ele também não entra”. Faz-me aflição aquela entrada, que é só uma frincha. Ele afasta umas tábuas de madeira e deixa ver uns pilares de tijolo recente que ombreiam a entrada, mas que deixam mais espaço. Mesmo assim continuo sem entender a necessidade de tapar e estreitar a entrada.
Lá dentro o meu bebé tem fome. É um bebé de imenso alimento. E é delicioso. Preparo-lhe meio biberão, porque o resto queria dar-lhe de leite de lata. A primeira parte é de leite de vaca, completo e fresco. O bebé grita e chora, e agarra-se ao biberão com ambas as mãos e bebe-o de um golo. Isso deixa-me pouco tempo para arranjar a segunda parte da refeição. Mas agora ele já não chora tanto. Agarro-o e brinco com ele. E digo às pessoas que estão comigo: “agora tenho de começar a fazer sopinhas para ele se habituar aos legumes.” Isto dá-me um enorme prazer, embora esteja a visualizar o trabalho que representa.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Aviões, helicópteros, perseguições e fugas


25 PARA 26 DE OUTUBRO DE 1994
Chegamos a uma casa. É uma casa de passagem. Num dos quartos há muita comida, e eu fui convidada para jantar. Vou com uma pessoa, um homem, que me chama da porta do quarto, mas eu digo-lhe que tenho que acabar de me arranjar. O homem insiste, e diz que estou atrasada, mas eu não me consigo despachar. Está naquela sala a Manuela Teresa, e ela tem óptimo aspecto. Até está bonita. Nem me lembro que ela morreu há uns anos. Depois preciso de telefonar a uma mulher-a-dias que não apareceu. E a seguir saio porque tenho de apanhar um avião. É um helicóptero. O meu amigo já está no ar e eu ponho-me ao nível da cara dele, para falarmos, embora não tenha saído do chão, como se fosse um truque de cinema. Penso que se estivesse ao pé dele, a voar noutro helicóptero, as nossas asas cortar-se-iam e as máquinas entravam em colisão.
Cá em baixo pego num triciclo e vou tentar voar. Mas para tomar balanço preciso de descer uma rampa e isso parece-me anormal. A rampa é pequena, mas a ideia de ir por ali abaixo a descer para depois subir não me parece fazer sentido. O ideal seria uma estrada em linha recta. Perto há instalações militares e políticas. Continuamos com o problema da criada, que ainda por cima não telefona. Depois acaba por telefonar.
E depois volto a viver o acidente de automóvel do outro sonho, só que agora não estou com a Alexandra estou com um amigo, e somos perseguidos. Corremos ao longo de uma estrada estreita e sinuosa, e o meu amigo vocifera e diz que os vai despistar. Ele está incomodado porque uma estrada daquelas não dá para despistar ninguém, e não é aconselhável fazer grandes velocidades, porque é perigosíssimo. E é o que acontece. Numa curva, o carro entra a direito e eu penso: “fosse um filme atravessávamos o abismo e apanhávamos a estrada do outro lado”. Só que não é um filme é o meu sonho, mas eu não sei que estou a sonhar. Depois penso: “se fosse um filme, eu saltava antes”, só que não é um filme, é o meu sonho, e não houve paragens antes para eu poder saltar. Penso: “vou-me esconder, e o carro que salte com o condutor e que se lixe”.
E agora estou escondida atrás de uma ponte baixa e os perseguidores vão até ali, e dizem que o carro se espatifou, e os ocupantes morreram, mas há um que tem dúvidas e quer procurar se não terá sobrevivido alguém, e fareja como se me pressentisse, só que os outros acham que é um disparate e eu sei que acabei de escapar à risca.
imagem:http://www.lindau-portal.de/bz_kw10-04/bhf.jpg

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

A prisão de estudantes


NOITE DE 24 PARA 25 DE OUTUBRO DE 1994
Estou a apanhar roupa num varão. Tomo-a nos braços e nos ombros. É muita para levar de uma só vez. Depois vou fazer doce de morango. Comi tantos morangos que já não vou fazer muito doce. Depois estou no alto de um edifício antigo, num quarto mesmo no último andar. Chego à janela e há estudantes a passear na rua, e aqui é a prisão, e é uma prisão de estudantes. Da janela olho para a rua e sinto vertigens. Há uma górgona de pedra por baixo da janela. Parece-me a cabeça de um pássaro. Agarro-a e ela solta-se. Penso se a deixasse cair ela mataria alguém mas isso de nada me serviria. Ao arrancá-la ela esboroa a parede onde se encontra incrustada, e essa parede é a janela do meu quarto, e sinto tonturas ao olhar para o chão, cá tão em baixo. Penso que se a janela se fendesse eu cairia, pois estava encostada a ela. E penso que o edifício é muito antigo, mas dentro do quarto, ao fundo, onde está a minha cama e onde me encontro e encosto agora, isso não se sente, e não acontece, porque ali há solidez.