NOITE DE 23 PARA 24 DE SETEMBRO DE 1997
Estou num centro comercial e ando à procura de um acupunctor. Pergunto a uma rapariga, nova, se sabe de algum. E ela responde “que coincidência! acabo de vir da consulta. É um muito bom, óptimo. Até te levo lá.” Há escadas rolantes e muita gente. Ela aponta para cima, e eu vejo, debruçado no corrimão do andar superior, um homem e várias pessoas a rodeá-lo. A rapariga diz: “é aquele”.
Ele está à porta do consultório, vejo cá fora fazer uma pausa. Há muita gente dentro do consultório. Muita gente mesmo. Eu digo «assim nunca mais chega a minha vez». O homem dá-me o braço e diz que tem de apanhar o avião à noite. E acontece que o homem está quase despido, de tanga, acho eu, e é brasileiro e vai apanhar o avião para o Brasil às dez da noite. E eu digo: “assim não vai poder ver esta gente toda! E muito menos a mim.”Ele aperta-me a mão e fecha a minha mão na dele. É muito simpático. A mão dele é muito pequena. E áspera. Penso: «a mão de um médico costuma ser forte e macia».
Diário dos meus sonhos. My colourful dream diary. Le journal de ma vie ensommeillée.
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sábado, 26 de janeiro de 2008
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
O homem enforcado junto ao mar e a Terra dos Ursos
NOITE DE 15 PARA 16 DE SETEMBRO DE 1997Um homem está a ser enforcado junto ao mar. O mar está em segundo plano, é uma linha de água ao fundo, nem se vê todo porque a imagem está enquadrada de forma a privilegiar a assembleia de homens que rodeia a forca onde está a ser enforcado o criminoso. E os homens que assistem a este espectáculo são umas duas dezenas. Têm um aspecto muito normal. A forca é rudimentar, e o processo não está a correr bem. O homem demora muito tempo a morrer, contorce-se, leva as mãos ao pescoço, tem falta de ar e sofre horrivelmente.
Alguém, na assistência, comenta que se deveria utilizar outro método, talvez uma injecção letal, por exemplo, porque aquilo é uma barbaridade. Penso: "Este homem para dizer estas coisas já deve ter vivido nos Estados Unidos". O carrasco está a suar. Já ergueu o corpo umas duas ou três vezes para o deixar cair bruscamente. [...] Alguém comenta que aquele condenado vai demorar seis minutos a morrer. Penso: «é uma eternidade, para quem sofre assim!».
Depois retiram o homem da forca, e estendem-no na areia. É novo, deve ter trinta, trinta e poucos anos. Olho para a mão direita dele, estendida e semi dobrada na areia. É branca, tem dedos longos.
Depois o homem mexe-se, porque afinal não moreu. E ergue-se e começa a correr pela areia. Todos começam a fazer um círculo à volta dele, e ele tenta entrar nos carros que estacionaram perto da praia, mas os carros já estão cheios com famílias. O cerco aperta-se. Ele entra num carro que parece vazio, e é uma carrinha, e a pessoa que está lá dentro diz para ele dar a volta, e ele corre para a outra porta, e então as duas portas da carrinha abrem-se, ao mesmo tempo, são de aço, fazem uma muralha, fecham o cerco de vez, e de dentro da carrinha saem polícias. Penso: "Estes casos costumam ser amnistiados." Não sei se ele é culpado, nem de quê.
Depois estou numa parte da floresta que é a Terra dos Ursos. Essa parte da floresta está perto de uma auto-estrada e de outras vias de comunicação. Não é escura, nem sombria. Os ursos andam quase sempre erguidos em duas patas. O chão está cheio de bolinhas de cocó muito pretas. Uma menina diz-me que o cocó dos ursos é utilizado como fertilizante, e que os ursos estão a ser ensinados a fazer cocó de pé para não sujarem o pêlo.
Aquela parte da floresta tem muitas clareiras, e não é bonita porque está muito próximo da civilização e das estradas. Essas coisas. Acho que as árvores têm pó. Acho que os ursos comem folhas das árvores. Depois a menina está a segurar um urso bebé que está a fazer cocó numa sanita, e é um ursinho gorila. Sei que os ursos são perigosos, mas é como se aquele perigo, aqui, estivesse absolutamente controlado, porque há pessoas que estão a tomar conta daquela situação há muito tempo.
Depois a ML vai ser operada de urgência. Agora há enfermeiras a pô-la em cima de uma marquesa, e médicos que a vão operar à barriga, e a luz é azul. Ela não parece importar-se porque gosta de hospitais, e médicos e operações. Até parece que está um bocado orgulhosa. [...]
Depois estou num comboio, e venho para Lisboa e tenho três mensagens no telemóvel, só que não consigo atender, porque o Lula mexeu naquilo, acho que me desacertou o sistema de receber mensagens. Fico muito zangada. E frustrada. E as mensagens são todas de trabalho. E grito.
http://ante-et-post.weblog.com.pt/2006/12/contra
Estes homens-peixe são doidos
NOITE DE 5 PARA 6 DE SETEMBRO DE 1997
Estou num hospital. Na cama ao lado da minha está aquela velhinha amorosa. Ela afinal ainda está viva, só que perdeu a memória. Portanto é ela, e já não é ela. Eu estou no hospital, mas é como se já não estivesse completamente internada. Eu estou quase curada. [...]
Depois sonho que ouço gritos do lado de fora da minha casa. E há uma família francesa com muitas crianças. [...] Depois há um homem que vem ter comigo para me levar não sei onde. E quando o homem se aproxima eu abraço-o e beijo-o. Intensamente. Demoradamente. Ele corresponde. É um abraço sem fim, de uma intensidade enorme. E vamos, abraçados, para dentro de uma casa.
Depois sonho com o Paulo que diz que se tornou mais sensível às amizades e aos afectos. Estou sentada numa cama a vê-lo aproximar-se de mim. Lembro-me de pensar «como ele tem um ar tão duro». Como se fosse uma pedra.
Depois sonho com o A. que fez uma birra muito grande à Helena. Ele tenta dormir na rua, mas tem tanto frio que não consegue. E primeiro tenta tapar-se com folhas, mas o cacimbo da noite é excessivo. Depois mete-se dentro de água, porque há ali um lagozinho, ou um rio, e a água, apesar de tudo, é menos fria do que a noite. Mas não consegue descansar. E tem cada vez mais frio. E eu penso «estes homens-peixes são mesmo doidos. E teimosos. Outro qualquer morria de pneumonia, este nem vai nem ficar constipado." E penso que o Drew é parecido com o pai. Depois ele mete-se no carro e lá está a Helena, que traz uma grande manta e embrulha-o. E eu fico tão aliviada.
Depois olho para o céu e o céu está cheio de desenhos nas estrelas, e eu quero percebê-los. E são desenhos como nos livros, mas não são desenhos mágicos como já vi noutras alturas.
Estou num hospital. Na cama ao lado da minha está aquela velhinha amorosa. Ela afinal ainda está viva, só que perdeu a memória. Portanto é ela, e já não é ela. Eu estou no hospital, mas é como se já não estivesse completamente internada. Eu estou quase curada. [...]
Depois sonho que ouço gritos do lado de fora da minha casa. E há uma família francesa com muitas crianças. [...] Depois há um homem que vem ter comigo para me levar não sei onde. E quando o homem se aproxima eu abraço-o e beijo-o. Intensamente. Demoradamente. Ele corresponde. É um abraço sem fim, de uma intensidade enorme. E vamos, abraçados, para dentro de uma casa.
Depois sonho com o Paulo que diz que se tornou mais sensível às amizades e aos afectos. Estou sentada numa cama a vê-lo aproximar-se de mim. Lembro-me de pensar «como ele tem um ar tão duro». Como se fosse uma pedra.
Depois sonho com o A. que fez uma birra muito grande à Helena. Ele tenta dormir na rua, mas tem tanto frio que não consegue. E primeiro tenta tapar-se com folhas, mas o cacimbo da noite é excessivo. Depois mete-se dentro de água, porque há ali um lagozinho, ou um rio, e a água, apesar de tudo, é menos fria do que a noite. Mas não consegue descansar. E tem cada vez mais frio. E eu penso «estes homens-peixes são mesmo doidos. E teimosos. Outro qualquer morria de pneumonia, este nem vai nem ficar constipado." E penso que o Drew é parecido com o pai. Depois ele mete-se no carro e lá está a Helena, que traz uma grande manta e embrulha-o. E eu fico tão aliviada.
Depois olho para o céu e o céu está cheio de desenhos nas estrelas, e eu quero percebê-los. E são desenhos como nos livros, mas não são desenhos mágicos como já vi noutras alturas.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Eu, a Alexandra, o azeite e os ovos
VÁRIOS, EM AGOSTO 1997Sonho com a Alexandra o sonho do azeite e o sonho das galinhas. Acontece assim: dão-me azeite de qualidade excepcional. Trazem-mo numa garrafa de cinco litros. É daquelas garrafas de água. A Alexandra explica-me: para ser guardado e consumido nas melhores condições é preciso fervê-lo em banho-maria e isso demora sete horas. Além disso temos de o vigiar a operação, para que o azeite não ferva e não se derrame. Pode-se metê-lo no forno, num tabuleiro. Ou em cima, no fogão. Eu coloco o meu num tabuleiro, e vou vigiando a operação, mas a ideia de estar ali sete horas a olhar para aquilo deixa-me muito nervosa. Acho mesmo que é um processo um bocado tonto. A Alexandra diz que já tratou do azeite dela e eu resolvo aldrabar as horas. Penso: «sete é um número mágico, mas três também. Portanto só vou ferver o meu azeite durante três horas.»
Depois noutro sonho oferecem-nos galinhas, a mim e a Alexandra. São mesmo galinhas que cheiram a galinhas. Estão numas gaiolas baixas e apertadas, horríveis, como as que se usam para as levar ao mercado. Ora eu não quero as galinhas para nada, e a Alexandra também não, ainda por cima não sei onde as vou colocar, e não tenciono matá-las. O problema é que já não é possível recusar, porque é uma oferta com muito boa vontade, e é uma oferta que já está consumada.
As galinhas são galinhas poedeiras. Põem ovos muito bons. Penso: vou guardá-las no terraço da minha casa nova, e arranjo-lhes umas gaiolas mais confortáveis e maiores. Assim vamos ter ovos todos os dias.
Depois vejo os ovos: têm uma gema muito amarelinha.
quarta-feira, 4 de abril de 2007
Ele não é o outro
NOITE DE 8 PARA 9 DE FEVEREIRO DE 1997
Este homem é novo, tem antepassados árabes e a mãe dele tem o curso de conservatório como a m.l., e tem uma irmã, mas anda sempre tão próximo de mim que começo a pensar se não será o outro, mas não tem cabelos brancos, e é mais novo. Depois estamos numa espécie de engarrafamento e ele sai do carro e pede-me que guie, e vai à frente ver o que se passa e dar-me indicações, e eu tenho que saltar para dentro do carro, porque o carro não tem portas, e é descapotável, e é verde. E é um percurso muito pequeno e é sempre em frente. Ando um bocadinho de nada, e tenho algum medo.
E depois estamos num bar, eu tenho um vestido comprido preto, decotado, com uma t-shirt branca de mangas curtas por baixo. Estamos a beber ao balcão e ele quer-me levar a casa da mãe dele a almoçar e já lá está a irmã, e tem tudo muito organizado em função da minha existência. E eu estou a pensar que ele não é a pessoa que eu estou à espera.
Este homem é novo, tem antepassados árabes e a mãe dele tem o curso de conservatório como a m.l., e tem uma irmã, mas anda sempre tão próximo de mim que começo a pensar se não será o outro, mas não tem cabelos brancos, e é mais novo. Depois estamos numa espécie de engarrafamento e ele sai do carro e pede-me que guie, e vai à frente ver o que se passa e dar-me indicações, e eu tenho que saltar para dentro do carro, porque o carro não tem portas, e é descapotável, e é verde. E é um percurso muito pequeno e é sempre em frente. Ando um bocadinho de nada, e tenho algum medo.
E depois estamos num bar, eu tenho um vestido comprido preto, decotado, com uma t-shirt branca de mangas curtas por baixo. Estamos a beber ao balcão e ele quer-me levar a casa da mãe dele a almoçar e já lá está a irmã, e tem tudo muito organizado em função da minha existência. E eu estou a pensar que ele não é a pessoa que eu estou à espera.
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