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terça-feira, 2 de março de 2010

Os Enamorados


NOITE DE 14 PARA 15 DE JUNHO DE 1998
Estou junto de um muro, parece o balcão de um bar, só que é na rua. Em cima desse muro há vários baralhos de cartas de tarô. São muito bonitos. E são da loja em frente do muro-balcão, só que a loja está fechada porque é hora do almoço. E eu estou espantada porque qualquer pessoa os pode levar. Sento-me num banco alto e fico a olhá-los, e pego no que está em cima. É uma edição de luxo. É dourada, um dourado de ouro velho. Na capa tem os Enamorados.
Folheio as cartas como se fossem um livro. E são um livro. Vejo algumas definições das lâminas. Têm correspondência com as cartas de jogar.
Antes há um homem. É jornalista, e está a correr por uma estrada de alcatrão. Ao lado dele está uma criança que também corre. Ele ri-se. E tira os sapatos. Só tira um. E desaperta a gravata e a atira-a fora. Diz:
“Fui director de tantas coisas, e agora não quero nada. Não estou nada interessado na minha vida anterior. Agora sou livre.”
E ri, e corre como se brincasse, pelo chão de asfalto, só com um pé calçado. E eu vou atrás dele. Ele quer mostrar uma coisa às pessoas. E quando pára, inesperadamente, estamos diante de um lago de água fresca, onde se pode tomar banho e mergulhar. Este é um segredo que ninguém conhece, porque estamos fora da cidade. É um paraíso por explorar. E ele quer que todos saibam disso.
E ali está ele, a brincar na água, tão próximo de uma estrada normal da cidade normal.
Sai da água, com a criança.É um rapaz de sete anos. E vão para a estrada pedir boleia. Eu sigo-os. E o que acontece é que ninguém pára, e ele fica um pouco espantado. Na verdade, tal como ele imagina as coisas, havia de parar logo um carro para os levar de volta, tanto mais que ele está molhado.

Depois, atravessa a estrada, lá pára então um carro e leva-os, e eu volto para o meu banco, diante do muro, e penso, então, roubar o baralho dos Enamorados.
Depois vejo o homem, o jornalista, de pé contra outro muro. Estão a prendê-lo pelos polegares que atravessam uns orifícios no muro, e pelos pés.
Depois estou no Algarve, a contar-lhe o que tinha visto as pessoas fazerem-lhe. Mas ao mesmo tempo sei que o fizeram a uma projecção, a uma emanação dele, porque ele tem o grande poder de dar às pessoas essas ilusões.
Assim, ele está ali, em liberdade, a seguir a sua estrada.
Eu digo: “estavam a prender aquilo que pensam que tu és”.
E conto-lhe que lhes roubei o baralho de tarô. Ele diz que não foi uma boa ideia:
“É como se trouxesses, de lá, essa energia, dentro da tua carteira.”
E eu pergunto:
“Devo fazer o quê?” E ele diz,
“se atirares com elas pela janela, as cartas têm poderes para se organizar de novo, todas juntas, num baralho. E tu ficas livre."

domingo, 27 de dezembro de 2009

Tenho uma grande surpresa para ti

NOITE DE 28 PARA 29 DE ABRIL DE 1998

Estou com várias pessoas e com o Luis, e o Luis está muito irritado. Saimos dum restaurante. Ele vai à frente. Está a conversar com uma amiga minha e diz que todos os meus amigos são muito preguiçosos. Emenda:
- Todos menos tu, é evidente.
Avançam tão depressa que me custa acompanhá-los. Volto atrás para ir buscar qualquer coisa que me esqueci, e quando saio já não encontro ninguém. Começo à procura do carro, mas também não me lembro onde é que ficou estacionado. Penso: «incrível, foram-se embora e não esperaram por mim».
Depois pergunto à Alexandra:
«Porque é que o Luis estava tão zangado?» E ela responde:
«Ele estava só a refilar por causa de um café».
E eu sei que ela está a esconder alguma coisa das coisas que ele disse. E sei que ele está muito aborrecido com uma amiga dele. Tem 30 anos e é morena.

[...]
E depois estou deitada, num quarto de hotel, com o Zé T. Ele diz:
«Tenho uma grande surpresa para ti.»
Eu tenho muita vontade de ver a surpresa, mas ele diz que só quando for a altura certa é que ma dá. E a certa altura, no momento da maior intimidade, eu pergunto-lhe:
«O que queres que te dê?»
E ele responde:
«Sangue».
E pega numa chávena que está ao lado dele, na mesa-de-cabeceira, e despeja-me sangue, ainda morno, na cara e no colo. Era a surpresa.
Fico horrorizada. Ele continua a abraçar-me, e só ao fim de uns segundos sente o meu horror.
Diz:
«Não sabia que ias ficar assim. Vou arranjar-te outra surpresa.»
Eu estou transida. Choro. Tremo. E corro para a casa de banho e deixo a água, morna, correr abundante sobre mim.
Julgo que aquilo fazia parte de um ritual. Pelo menos penso nisso, numa tentativa de entender aquele gesto.

E tanta gente à minha volta

NOITE DE 24 PARA 25 DE ABRIL DE 1998
Choro, choro e choro. Sinto um peso muito grande.[...].
Choro muito porque estou tão só. E há muita gente, muita gente, à minha volta

Animais em África, um corvo belo no Porto


NOITE DE 23 PARA 24 DE ABRIL
Muitos animais selvagens. São domesticados. Vivem numa fazenda, em África. Vejo passar um burro, e, ao longe, em linha recta em relacção ao meu olhar, um leopardo e um chacal. São dois felinos. Há mais animais. Esses animais passeiam. E há pessoas. Essas pessoas têm jipes. Mudaram-se para ali, e agora não querem viver em mais lado nenhum. Habituaram-se aos animais e habituaram os animais à sua companhia e á companhia uns dos outros. Alimentam-nos muito bem e a horas, para não entrarem em conflito. Percebo que preciso de ficar ali mais algum tempo. Aviso para casa? Ou para trabalho? Que vou estar alguns dias naquele local.

Mas então recordo-me que não trouxe pensos, e agora estou com o período. E não trouxe roupa interior para mudar. Sinto-me confortada por haver mulheres ali. A dona da casa leva-me ao seu quarto e procura aquilo que eu preciso. E pergunta-me se tenho alguma problema com roupa interior fabricada na União Soviética. Diz:
«Não é muito bonita mas é resistente».

E depois preciso de levar um animal ao Vale de Morte.
Mas não é um animal: no meu colo levo uma criança. E eu estou a amamentar essa criança. O vale é uma espécie de vala, uma lixeira sem lixo. Uma cova desolada e irregular. Ando, por ali sem destino e vejo descer ao meu encontro, a Morte. É uma mulher, tem o rosto coberto, e o vestido cai-lhe em pregas largas até aos pés. A mulher aproxima-se de mim. Não sinto medo. Não sinto nada. A não ser uma recusa cada vez maior em dar-lhe a criança que levo no colo. Dizem-me que é assim que devo fazer. E que não devo olhar para traz, porque é a lei da vida. Agora a Morte está muito próxima de mim, nas minhas costas, e eu sinto que toda a energia que habitava o corpo que trago no colo o abandonou. Percebo que é assim que se morre. No entanto não aceito: estava a amamentar a criança com o peito direito agora mudo-a para o esquerdo. E ela mexe-se. Já não quer mais leite, porque está satisfeita. Respira de satisfação, e está, de novo, viva nos meus braços.
Atrás de mim, a Morte recua.

E depois passo junto à Câmara e, no passeio, está um corvo. É um corvo muito negro. Levanta voo, e eu vejo a sua plumagem azul, porque é um corvo negro azulado. Digo para a pessoa que vai ao meu lado:
- Não sabia que no Porto havia corvos tão bonitos. Afinal é uma ave da heráldica de Lisboa.
Fico contente por ter visto um corvo tão belo.

Créditos imagem:
http://10000birds.com/fish-crow-at-jamaica-bay.htm

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Fora do avião, a cair do céu, vêm duas meninas

NOITE DE 21 PARA 22 DE ABRIL DE 1998
Estou num avião muito grande e muito pesado. Espreito pela janela e vejo um céu escuro, um céu escuro da cor de chumbo. É um céu de tempestade. Sinto uma opressão indizível. A mãe da Alexandra espreita pela janela. Diz:

- Quando o céu está assim, pode ficar semanas.
A sensação de angústia cresce. Penso: «não vou conseguir aguentar esta escuridão». Mas está a acontecer alguma coisa no céu. A mãe da Alexandra continua a falar, mas eu peço que todos se calem para me concentrar. Há um vento, fora do avião, que está a varrer as nuvens. A princípio mal se nota. Depois é visível para toda a gente que o céu fica azul, azul brilhante e sem nuvens.

Fora do avião, a cair do céu, vêm duas meninas. Têm seis anos e são gémeas. A roupa delas vem a seguir. Uma das meninas estende os braços para cima e diz à roupa:
- Se não te despachares entro sem ti.
As saias, iguais, caiem sobre as meninas como corolas de flor. Os chapéus poisam-lhes na cabeça. São chapéus de palha. A porta do avião está aberta para elas entrarem, e as pessoas seguram a porta com força por causa do vento. As meninas riem.

Então, quando o avião vai aterrar há um vagabundo que me diz:
- Como viajo sem bilhete, tenho que ficar no chão quando o avião poisa. Podias fazer-me companhia.
Eu fico com ele porque tenho pena. Agora estamos os dois na pista negra de alcatrão enquanto a sombra enorme do avião paira sobre nós. O vagabundo diz:
- Não há perigo. O único perigo são os gases da combustão. Mas só por uma vez não faz mal. Eu já estou acostumado.

Há mais pessoas na pista. São as pessoas que viajam desta forma. Nem todas são pobres ou vagabundos. Nem todas. Perto vejo o Z.M., mas não vem para o nosso lado. Agora o avião já poisou, e as pessoas dirigem-se todas para a alfândega. Eu já tenho o passaporte e o bilhete na mão. Levo-os bem estendidos. Enquanto não chega a minha vez, e debaixo das asas do avião, vejo duas raparigas dançar ao som de uma música muito moderna. Sorrio, porque gosto de as ver dançar.

Aquelas escadas são só de subir

NOITE DE 4 PARA 5 DE ABRIL DE 1998
Ando sózinha mas encontro pessoas. Vou a uma discoteca, danço com negros. É numa cave. Quando saio, uma das vezes em que saio, vejo uma mesa grande, à minha direita, numa plataforma, e nessa mesa estão amigos meus. A Xana, o irmão dela, a Maria P. e o marido. Digo-lhes «olá e adeus», e sigo. Eles ficam espantados com a minha presença, e com a forma rápida como passo por ees.
Depois estou novamente na cave, já não me lembro quem põe a música. Um dos negros quer ficar comigo, eu não quero, mas não tenho medo dele. Beija-me e eu retribuo. Depois afasto-o, porque ele quer fazer amor mesmo ali, e eu não. Depois há uma mulher que vem ter comigo e me dá uma chave. É a chave do meu guichet. E é o numero dois. Mas eu não tenho nada para lá guardar. Depois descubro que trouxe a chave comigo. Penso: «amanhã ainda será a mesma?»

E agora está a clarear. É dia. Dançamos até de manhã. [...]. E depois desço umas escadas, porque tenho de estar presente, por motivos profissionais, numa inauguração. As escadas são do metropolitano. Vejo uma mesa cá em baixo, e de novo os meus amigos. Eles estão a comer pasteis folhados que não me parecem muito frescos. Desço as escadas para lhes falar, mas não vou ficar com eles. Nem comer o que eles estão a comer. Há um cordão encarnado a vedar o acesso. Não é grave, nem impeditivo, passo por baixo. Mas parece que o sentido não é aquele. Aquelas escadas só são de subir, não de descer. Eu não devo estar ali. Eu não devo descer mas subir aquelas escadas.  Penso: «realmente não estou aqui a fazer nada».

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Há um novo engenho de guerra e um homem sozinho pode manobrá-lo

NOITE DE 1 PARA 2 DE ABRIL 1998
Há um novo engenho de guerra. Um homem sózinho pode manobrá-lo. Vejo o pesado camião subir pelas encostas de uma falésia, com o homem estrangeiro ao volante, manobrando uma espécie de radar. É um condutor e um soldado de serviços especiais. Ele aponta o radar para um veículo e dispara. O projéctil atravessa a carlinga do alvo, destruindo-o quase sem ruído. Por implosão.
Estamos perto de uma antiga fortaleza. É de dia. À minha direita vejo o mar, do alto destas falésias. Nessa fortaleza há uma festa. Eu ando por aqui, estupefacta com esta nova arma desconhecida. O radar gira em todas as direcções, e aponta um novo alvo. É uma espécie de treino: o alvo, de novo uma viatura, é destruído.

Há um outro homem que vê tudo isto. É soldado, também é estrangeiro, e agora quer dar o alarme. O condutor da máquina de guerra pressente-o. Fareja-o com o radar, mas ele consegue fugir. E agora estamos os dois, eu do lado de dentro da fortaleza, ele do lado de fora, a tentar encontrar um interlocutor a quem passar aquela informação. Eu estou à entrada da fortaleza, enquanto passam por mim homens e mulheres vestidos de festa, e empregados com bandejas com bebidas ou canapés e tapas, faço-lhe sinal para que entre:
«Aquela máquina vai atingir o meu País. Todas as pessoas que são importantes no meu País estão nesta festa. Quando ele disparar para uma destas salas destrói séculos de História, e mata tudo.»

Como estamos avisados, nós ainda podemos fugir. Mas não queremos. O homem junta-se a mim, e a máquina de guerra aproxima-se de uma das entradas da fortaleza, procurando o melhor ângulo para atingir o âmago da festa. Agora estamos junto de um torreão, e vamos subir por umas escadas estreitas para o local onde está hospedado um «Mau».
É um sítio que se vai revelando desarrumado e sujo, e quando vamos entrar no quarto pequeno do torreão um cão ladra. É um pastor alemão que o «Mau» deixou a guardar as coisas. Descemos as escadas estreitas a correr. Chego cá abaixo e o cão passa por nós. É uma cadela e leva dois sacos de pano na boca. Corre. Agora há muita gente connosco. Depois a cadela volta atrás, e já sem sacos sobe de novo para o teorreão. E agora nós percebemos o que aconteceu. Ela teve cachorrinhos. Três enormes cachorrinhos pastores alemães.
Brinco com eles. Têm patas fortes.

Vou para a tropa

NOITE DE 30 DE MARÇO PARA 1 DE ABRIL de 1998
Vou para a tropa e tenho de escolher a farda que vou usar. Levam-me a um armazém e há uma quantidade de roupa à escolha. Escolho umas calças, mas têm um gancho muito grande. Digo para a pessoa que está comigo: «levo estas mas têm de ser arranjadas».

Depois escolho muito mais roupa. É uma tropa muito especial, porque a farda não existe. Mas a roupa tem de ser escolhida ali. Há coisas que eu gosto.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Noite de festa

NOITE DE 29 PARA 30 DE MARÇO DE 1998
É de noite e há uma festa. E essa festa é num terraço. E nesse terraço o Luis está comigo.

Ele é a nave. Nós somos a nave.

NOITE DE 17 PARA 18 DE MARÇO DE 1998
Um barco. Um amigo dos meus pais que não vejo há muito tempo. Ele  é quase cego por causa de um acidente de guerra, em África, há muitos anos.
Eu tenho de deixar aquele barco. Tenho de fazer a mala, mas o armário onde estão guardadas as minhas coisas está às escuras, e não consigo ver se estou a guardar tudo.
Alguém, finalmente, ilumina aquele cenário.

E depois eu e o homem que está comigo voamos muito alto, numa nave que parece uma bolha de ar. Voamos muito depressa. Porém, quando aparecem crianças, ficamos ao nível do chão. São crianças sózinhas, naquele mundo, porque os pais delas não têm tempo nem foram educados para dar carinho aos filhos. Abraço vários meninos. Sei que é só um abraço, mas digo ao homem que está comigo:
«Assim, eles vão lembrar-se, quando crescerem, o que é ser-se abraçado».
Depois, passamos ao lado de um combóio que anda com muita velocidade.
O engraçado na forma como a nossa nave voa é a ausência de painel de comandos. Mas, em vez de aparecerem campos lindíssimos, como nos filmes, à medida que avançamos chegamos aos subúrbios daquela civilização. Aí as construções modernas, e as avenidas largas, dão lugar a edifícios degradados. Há muita gente debaixo da arcada de um deles. São pessoas com fome. São homens e mulheres de rostos duros. São pessoas capazes de lutar. Nós misturamo-nos na pequena multidão, e eu penso que é uma sorte ter uma nave à minha espera para poder sair dali quando quiser.
O homem que está comigo quer tirar-me dali rapidamente. Andamos ao contrário da multidão, e eu abro caminho, sem medo, através daqueles corpos quase perigosos, afastando gente zangada. São pessoas cheias de desencanto.
Contudo, há ali um hotel onde reservámos um quarto. É um edifício decadente, mas bonito. Sobem-se umas escadas largas de três degraus em pedra até uma porta em vidro fosco, onde está gravado o nome do hotel.

Mas agora, eu e o homem vamos voar de novo. Não vejo a nave. Depois percebo tudo: ele é a nave. Ele diz que me há-de ensinar aquela tecnologia, que é muito mais simples do que parece. Subimos e começo a rir, porque percebo que nós é que somos a nave. Ele confirma. Só que ele domina a técnica melhor do que eu. No entanto nunca nos afastamos daqueles sítios.
E depois estamos no hotel, e dormimos juntos.

domingo, 22 de novembro de 2009

Eu, o motorista de táxi, o Conciliador e o seu mapa

NOITE DE 13 PARA 14 DE MARÇO DE 1998

O motorista do táxi enganou-se no percurso, ou então é essa a desculpa que dá para dizer que não me pode deixar à porta do meu destino. Explica que não pode fazer inversão de marcha, porque é uma volta muito grande, e tenta convencer-me a ficar ali, num lugar que é um descampado. Diz que estou muito perto do hotel para onde quero ir, e que é mais rápido assim. Estamos numa espécie de porto, mas tão grande que não se vê o mar. É um lugar em construção, como a Expo. Mas não se vêm pessoas, nem máquinas a trabalhar. Zango-me e digo que não admito ficar ali.
À medida que o carro vai avançado mais me convenço de que tinha razão. As ruas, largas e muito compridas, são ladeadas de armazéns e de obras. Se eu tivesse ficado onde ele queria deixar-me teria perdido muito tempo. E se calhar acabava por me perder também.
Então ele diz que não tem a certeza do lugar para onde vamos. Pergunto-lhe porque esteve a falar para a central e não aproveitou para tirar dúvidas sobre o percurso. Digo:
«Não vou pagar esta corrida, não tenho culpa da sua incompetência. Vou fazer queixa de si se não me deixar à porta.»
Há outra pessoa no táxi. É o Conciliador. Então aparece um mapa. Nesse mapa vê-se tudo com muita clareza. Mas é preciso adequar o mapa ao lugar onde estamos, para descodificar o percurso sem se perder mais tempo.

Depois estou com a mãe da Alexandra, em casa da Alexandra. E é também a minha casa. Há um programa de televisão, que é uma demonstração de fenómenos paranormais. Agora, à nossa frente, numa espécie de estúdio, estão duas meninas. Têm seis anos. Uma é má, a outra é boa. A boa não pode dar a mão à má. A má convence-a, porque sabe o que quer, e a boa deixa-se levar. As pessoas que estão a assistir percebem, tarde de mais, o que se vai passar. As meninas estão uma ao lado da outra, e a má estende os dedos para a boa, e diz-lhe: vá, estende-me a ponta dos teus dedos. Tem um ar muito acordado e sorri. A boa parece meia adormecida, um pouco apatetada. As meninas entrelaçam as mãos. Alguém diz:
«Separem-nas!»
Mas é tarde de mais. Há um clarão, e uma espécie de choque eléctrico que se repercute no ar, e elas desaparecem ao mesmo tempo. Alguém diz:
«Agora vou ter tanto trabalho outra vez a procurá-las no mundo astral.»

E eu estou no hospital. E só lá vou ficar por mais três dias. Alguém vem dizer-me o que posso comer, e são coisas deliciosas.  Penso: «se quiser comer isto tudo não me chegam os dias que ainda cá vou ficar».

O Filho dos meus últimos dias

NOITE DE 9 PARA 10 DE MARÇO DE 1998
É o não esperado. O último Filho. Com ele nos braços devo sair do hospital ou da clínica sem que nos detectem. Não devem saber dele.
Meto-me no carro. Para que não o vejam acomodo-o na mala, mas tenho o cuidado de ver se fica confortável e seguro.
Sei que não vai chorar.
Dentro do carro dou indicações ao motorista. As ruas estão um pouco congestionadas e as minhas indicações são todas no sentido de evitarmos o trânsito, mas não estão muito certas. Mas o motorista – que é alguém que me é muito próximo – não se zanga comigo. Isso deixa-me um pouco espantada. Além disso, como guia muito bem consegue alterar o percurso sempre na altura em que se vai meter em engarrafamentos.

Depois estou numa farmácia. Há várias pessoas à minha frente. Não posso deixar que saibam do meu bebé. Penso:
«Porque tive este filho? [...] Eu não devia ter este filho, porque não fiz nada para isso.»
E estou muito perplexa.
O meu bebé está num carrinho, tapado com uma fralda. E começa a chorar. Tento que se cale, enquanto o embalo. Ele chora com mais força. Então, destapo-o e pego-lhe ao colo, ali, à frente de toda a gente. E cubro-o de beijos. É extraordinário porque ele corresponde-me. Penso:
«Os bebés, os recém-nascidos, não sabem dar beijos. E contudo, este bebé olha para mim como se tivesse consciência de si próprio, de mim, e do laço fortíssimo que nos liga.»
Agora já não me importo que me vejam com ele. Parece que passou o perigo. Abraço-o com um amor imenso. Penso:
«Este filho é o único realmente meu, e é o filho dos meus últimos dias. O não esperado, o que me conhecia antes de nascer.»
Depois fico um pouco triste porque penso que este filho já não me vai conhecer na minha juventude nem na minha beleza, como os outros. De modo que tenho de guardar os albuns de fotografias, para, quando ele crescer, me ver como eu era, ou como os outros me viram.
E agora estou a escolher coisas, e devia estar a escolher biberons, e leite, mas em vez disso estou a escolher perfumes. Os frascos são lindíssimos. A mulher da farmácia diz-me que cheire um e outro e depois diz:
- Não pensava vender este frasco, por isso até deixei que levassem a estatueta de cristal que fazia de tampa.
Mas mesmo assim o frasco continua a ser lindíssimo, e também tem tampa. Depois peço á mulher um anti-depressivo. Estou quase a dizer-lhe que é porque estou com uma depressão pós-parto, quando me lembro que não devo dizer a ninguém, por enquanto, que tive um filho. Então digo que é uma depressão menstrual. E começo a ver os frascos de anti-depressivos e são embalagens transparentes, com a sua fórmulo química organizada no interior como se fossem jóias, a cintilar com um fulgor extraordinário. As embalagens, não sei porquê, são hexagonais. E no seu interior transparente, organizam-se as cadeias de moléculas, que parecem feitas de pequenos rubis e esmeraldas e topázios, a brilhar, a brilhar.

Penso: «A medicina avançou extraordinariamente».
E a mulher da farmácia diz:
«Esta é uma conquista do século XXI.»
Então falo-lhe do meu filho. E digo que não estava mesmo à espera, e que achava tão improvável ter um filho.
E aquele filho não era filho de homem nenhum.

Como se estivesse em Paris

NOITE DE 7 PARA 8 DE MARÇO
Percorro salas e corredores de uma casa muito grande. Depois subo escadas com a sensação de que me quero esconder de uma pessoa muito aborrecida que me rodeia de atenções, mas com quem eu não quero perder tempo. E essa pessoa é uma das minhas aias e vive no palácio.
Estou a subir um lance de escadas, de madeira, e ouço a voz a perguntar:
«Quem está aí?»
Estou muito alegre. Continuo a subir as escadas, agora a correr. Respondo:
«Sou eu» -- e digo o meu nome próprio. E estou contente por correr tanto, porque agora estou no último andar. E entro numa sala ampla que dá para um terraço, e salto da janela para o terraço. É um terraço grande, irregular, bonito, com vasos de plantar e canteiros, e pequenos muros a marcar separações. São muros do próprio chão, como se o terraço tivesse sido o aproveitamento de um telhado plano.
Há muita luz. Dali vêm-se outros terraços, alguns ainda mais bonitos. De certa forma sinto-me como se estivessemos em Paris, de onde vim há poucos dias.

Um grupo de pessoas junta-se a mim. Fico aborrecida. É um grupo de mulheres idosas, solícitas e barulhentas. Instalam-se à minha volta em pequenas mesas, e prepararam-se para o chá. Delicadamente tento convencê-las a não ficarem ali. Depois lembro-me que tenho poder. Uso o meu poder para lhes dizer que quero estar só.
«Estou a fazer meditação» -- digo. E empurro-os para dentro da sala, pela janela de onde saímos. Vão-se embora, parecem um bando de crianças velhas. Uma delas diz, azeda:
«Está bem, mas vais pagar o bolo».
Fico ligeiramente incomodada com a forma como ela me tratou, mas sinto um enorme alívio por me ver livre delas. No terraço há um homem. É um rapaz. É conhecido delas. Reparo nele, olho-o disfarçadamente. Fico desapontada por perceber que ele nem olha para mim.
[...]

sábado, 21 de novembro de 2009

Uma viagem com o meu amigo

NOITE DE 28 PARA 1 DE MARÇO DE 1998

Fiz, e ainda estou a fazer, uma viagem com o meu amigo. Chegamos a uma pensão. Ainda não é o destino final da nossa viagem. Ele fica num quarto mesmo á entrada, eu sigo pelo corredor, e fico num quarto, ao fundo, à esquerda. Nessa pensão há duas crianças execráveis. Fazem muito barulho próximo do quarto onde ele está. Então eu volto atrás e vou falar com a mãe deles, que é uma mulher que fala muito de ópera. Ela é muito aborrecida. Eu estou a conversar com ela com a desculpa de tentar convencê-la a mandar calar os filhos, e a falar, ela própria, mais baixo também, mas no fundo sei que estou a alimentar uma conversa para ter a certeza que o meu amigo acorda. E ele acorda.
Eu digo:«Vê, estava a pedir-lhe para falar mais baixo e para fazerem menos barulho».
E a minha filha pergunta-me:«Porque não foram a Peniche? Era mais bonito.»
E eu, que queria tanto fazer antes essa viagem digo-lhe que detesto aquela terra, e só irei lá se for preciso, e em trabalho. E o meu amigo leva-me junto de uma torneira e juntos bebemos água que sai do bocal.

Depois vamos apanhar uma camioneta, e eu descubro que vamos para o mesmo lado. E ficamos na mesma fila. E só ficamos separados por um homem, que se senta entre nós. Eu vou no banco da frente (ou no de trás, não me lembro), o homem vai a seguir, o meu amigo depois (ou antes, não me lembro).

A Hora do Corvo

NOITE DE 26 PARA 27 DE FEVEREIRO DE 1998

Uma linha inaugural de metropolitano. Vai atravessar o rio e servir a margem sul. É quase sempre de superfície. As carruagens são muito boas e espaçosas, e a viagem dura mais ou menos três quartos de hora. Penso: «as pessoas que vão viajar aqui todos os dias, à mesma hora, vão acabar por se conhecer, e até toprnar-se amigas umas das outras.» E acho essa prespectiva muito interessante, aplicada aos utentes daquela linha. [...] Penso: «é muito engraçado para mim, porque se trata apenas de uma viagem inaugural.» Saímos numa paragem porque a Marta quer fazer compras, e ver as lojas daquela estação. [...] Mas à medida que nos afastamos a luz torna-se mais fraca, e não há lojas nenhumas. Digo:
«Vamos despachar-nos porque se não ainda perdemos o metro.» Se isso acontecer é muito desagradável. Vamos ter de esperar a ligação a seguir, e ficamos sem fazer nada durante quase uma hora. Mas quando chegamos à linha, e já vamos a correr, o combóio está a arrancar. Não conseguimos entrar, embora, dentro das carruagens, e junto das portas abertas, as pessoas nos incitem a saltar para dentro das carruagens. Mas é perigoso. Ficamos na plataforma, a ver o comboio afastar-se cada vez com maior velocidade, até que surge um homem carregado de sacos. E é um homem da estação. Tem o poder de fazer parar as carruagens. E à frente dele pára uma das composições, e ele começa a colocar os sacos lá dentro. Estamos próximo dessa carruagem, mas, quase em frente de nós há outra, também parada, e é uma espécie de vagão de mercadorias. O homem da estação aconselha-nos a saltar para essa, e entrar logo ali. Se formos ter com ele podemos já não ter tempo. E parece que o importante é entrar, depois logo mudamos.
A carruagem está fechada. Agarramo-nos aos varões de aço inoxidável e apoiamo-nos em pequenas plataformas de madeira. É um apoio seguro, mas desconfortável. E faz algum medo, sobretudo quando o combóio começar a desenvolver velocidade. Batemos à porta da carruagem, mas não nos abrem. Só podemos contar com a nossa força. As pessoas que estão dentro da carruagem não querem deixar-nos entrar, porque não gostam de estranhos, e estão muito habituadas umas às outras.Continuo a bater, até porque vejo que a Marta está numa posição mais instável do que a minha, embora ela diga que está bem. Mas eu estou preocupada com ela.
Então uma porta abre-se e saiem dois homens. Têm braços muito fortes. Agarram-se aos varões e dizem-nos para entrarmos. Trocam connosco de lugar. Seguram-nos e colocam-nos dentro da carruagem. Digo-lhes que não é preciso trocar porque cabemos todos lá dentro, mas eles não me ligam.Lá dentro é muito confortável, e muito divertido. Não há bancos. O chão está coberto de mantas, e por cima tem um pano branco, como se fosse um lençol. Viajamos deitados, e mesmo em frente de nós há duas janelas panorâmicas por onde podemos disfrutar da paisagen, porque estamos mesmo atrás dos bancos do condutor. Parece que aquela carruagem é autónoma, tem um condutor só para ela. Ou dois.
Dentro da carruagem toda a gente está muito divertida, muito bem disposta, embora não perceba bem porquê. Fico muito contente por ter mudado, porque esta viagem é muito melhor.

E quando acordo há uma coisa que me lembro muitas vezes, e durante o sonho também. É que eu estou na Hora do Corvo.

domingo, 1 de novembro de 2009

Dançar como quem respira e mais e mais

NOITE DE 26 PARA 27 DE FEVEREIRO DE 1998

É uma terra estrangeira e familiar, um local de trabalho onde me sinto como se estivesse de férias, porque tem uma luz lindíssima, como se fosse de Verão. Faz-me lembrar a luz do Alentejo. E é muito quente. Estão a construir uma rampa que eu costumava subir e que era muito íngreme. Agora, há  máquinas a nivelar o piso. Só que nivelam o piso esmagando todos os carros que estão ali estacionados, e espalhando depois terra e brita por cima deles. Vejo as máquinas a calcarem os carros, e a tapá-los com terra, e a aplanar o caminho, e eu ando à procura de casa, só que já tenho casa. E é uma casa que partilho com um amigo meu, que é estrangeiro, e temos dois filhos que são dele. [...]
O meu amigo entra. É estrangeiro. Digo-lhe: «Devíamos casar». [...]
Entretanto começamos a dançar. Fico espantada, não sabia que ele sabia dançar. E ele fica espantado: não sabia também, que eu dançava. E à medida que vamos dançando é como se eu adivinhasse os passos dele, que são lentos e muito elaborados, e não é nenhuma dança que eu tivesse conhecido antes, ou que alguma vez tivesse aprendido. E é como se fosse uma respiração, e é deslumbrantemente bom. Sinto uma segurança muito grande nos braços do meu amigo.

E depois há uma festa de trabalho. Há muita gente que vem a essa festa, e eu preciso de lá estar. A essa festa vêm japoneses, porque há associações que vão ser levadas acabo, e o meu trabalho tem a ver com isso. Parece que vou ser apresentada a umas pessoas, e é por isso que me pediram para lá estar. E entretanto vamos conversando uns com os outros, e apresentam-nos a umas pessoas, entre as quais se encontram crianças prodígios. São crianças horrorosas, como as que vi (ontem) num programa de televisão.
Essas crianças desaparecem de seguida.

Subo umas escadas e estou no último andar do prédio onde vou viver, e há muita luz que se derrama pela clarabóia do tecto. Do patamar onde me encontro e as escadas têm azulejos arte-nova, muito bonitos, mas alguns estão estragados. Vou começar a viver naquele sítio e a senhoria, que está comigo, diz:
«E preciso mandar arranjar estes azulejos».Pergunto:
«Onde posso encontrar quem conheça ainda esta técnica?»
Ela diz que é muito fácil. Acontece que no mesmo prédio onde estamos, exactamente no andar debaixo do meu, há um homem que ainda trabalha nisso. «É um artista, um mestre», diz ela. E chama por ele. O homem sai de casa. A casa dele fica mesmo por baixo, à direita. É um homem horroroso, tem um cabelo muito comprido atrás, todo emaranhado, muito oleoso. É um homem que me faz lembrar aqueles personagens que viviam no Pártio dos Milagres. Vêm outros homens com ele e eu tenho nojo.
O homem sobe as escadas na minha direcção, e à medida que sobe as escadas percebo que tem um rosto claro e bom, emoldurado pelas farripas brancas do seu cabelo de artista. Agora sei que é uma sorte conhecê-lo, porque é raríssimo encontrarmos artistas que, para além de perceberem estas técnicas, ainda por cima são os autores dos trabalhos.
Ele é do Porto. E diz-me que eu estou muito maravilhada a olhar para aqueles azulejos de flores e ramos, que são muito fáceis de fazer, e que não têm nada de especial, e ainda não vi o mais importante. Mostra. à minha direita, no patamar que leva ao último andar, azulejos que são paisagens do Vinho do Porto, coisas mais ou menos abstractas. O homem diz:
«Isto é que é um bom trabalho.».
Mais acima, há um nicho na parede, e nesse nicho está uma instalação em xisto. As pedras, negras, estão colocadas de tal forma que parecem sugerir o corpo de Cristo. O nicho está parcialmente coberto, na superfície da parede, com uma rede de galinheiro, esburacada. O homem diz:
«Estas pedras são raras.»Fico espantada, porque aquela obra é de uma grande contemporaneidade. E penso, de repente, nos trabalhos que queria fazer e que têm a ver com aquelas formas que o homem me está a mostrar. E são trabalhos que têm a ver com o Porto. [...]

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Um pássaro pequeno que ainda não aprendeu a voar


NOITE DE 25 PARA 26 DE FEVEREIRO DE 1998
Um homem está a varrer uma rua, e essa rua é quase particular, e é uma rua que é só um passeio. O homem tem uma vassoura de cerdas de palha, e, ao varrer debaixo de uma mesa varre um pássaro que rola na minha direcção. É um pássaro pequeno que ainda não aprendeu a voar. É uma bola de penas curtas e bico fortíssimo. Travo-o com o pé, para não o deixar fugir, porque se pode magoar e morrer. Entre nós, e somos três, constrói-se uma espécie de triângulo para impedir que ele fuja dessa área, até que algum de nós o apanhe.
E as penas do pássaro não se distinguem como penas. E são uma mistura de duas cores, parece-me, pouco definidas ainda. Creio que uma das cores é amarelo.
O meu filho apanha-o e segura-o. Ele não tenta fugir. Reparo que tem uma goela muito grande, cor-de-laranja, cor-de-carne, muito real, muito viva.
Não sei como alimentar aquela espécie de pássaros. Agora sou eu que o segura. Penso. devo fazer uma pasta com este bolo, mastigá-lo na minha boca e depois dar-lhe?
Ao meu lado, sobre a mesa há uma tigela de água. Faço bolinhas de bolo, humedecendo os dedos, e meto-lhas na boca.
créditos imagem: http://www.flickr.com/photos/birdbit/1577872665/

Uma espécie de agência de viagens do Além

NOITE DE 24 PARA 25 DE FEVEREIRO DE 1998


Agora, no cais, vejo uma coisa incrível. Uma onda gigantesca. O mar encapela-se subitamente numa única onda monstruosa. O mais engraçado é que não estamos no mar alto. Nem sequer em mar aberto. Estamos numa espécie de marina, ou tanque gigantesco. Como os tanques das filmagens. Os dois barcos são erguidos e enrolados na onda monstruosa. Depois caiem de novo à água. É extraordinário porque não se partem, nem submergem, nem se voltam. Vejo o homem do leme, agarrado ao leme, durante aquela incrível operação. Tem um ar muito concentrado e é muitíssimo forte.

Depois estou numa casa grande, numa sala com muitas cadeiras. Vejo uma mulher avançar na minha direcção. Essa mulher é espírita. Está lá também um senhor espírita. Fico muito contente porque julgo que eles me vão responder a coisas que preciso muito de saber. Mas eles só falam com os mortos. Conversam comigo, mas as preocupações deles são os mortos. Têm de encomendar almas. Então penso: será que lhes posso pedir que tomem conta de mim quando morrer?Afinal eles conhecem o caminho. São uma espécie de agência de viagens do Além.
Depois falo com a mulher dos mortos, mas só pelo telefone. Conto-lhe a história da casa, ela quer saber quanto é que eu vim ganhar, mas não lhe digo a verdade. Depois há um silêncio. Um silêncio tão grande que até me apetece desligar. Os meus filhos, no entanto, fazem muito barulho. Digo-lhes para se calarem, mas não me ligam.
Depois oiço, do outro lado da linha uma voz que começa a responder-me. Diz:
«Não há problema nenhum com a mudança.» Pergunto se vou mesmo ficar a viver ali. Responde:
«Só se quiser.»
Não sou capaz de perguntar mais coisas. Coisas mais importantes ou tão importantes como essa, porque não confio na mulher. E os meus filhos continuam a fazer barulho e eu perco a paciência e bato num deles, que entrou na sala aos gritos. Tinha pedido à voz do outro lado da linha que aguardasse, e tapo o bocal.
Depois peço desculpa ao meu filho, mas ele respondeu:
«Agora quando quiser falar comigo, fale com os desenhos animados da televisão.»

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

As crianças louras são filhas das mulheres estrangeiras

NOITE DE 23 PARA 24 DE FEVEREIRO DE 1998 Este cacto parece uma flor de plástico, mas afinal é uma planta de verdade. Está enterrado em areia, num vaso que parece aqueles onde se vendem as árvores de Natal de mentira. Percebo que é uma planta de verdade porque a cabeça do cacto está mole. Então arranco-o pelas raízes. E as raízes são brancas, e muito compridas, parecem rebentos de soja. Levo o cacto, com as raízes na minha mão, para junto de uma torneira, e encho a concha da minha mão com água, e vejo as raízes, embrulhadas como um novelo, na concha da minha mão, para beberem. A certa altura penso que elas podem ter uma overdose de água.
Tiro a mão debaixo de água. Seguro na planta a direito, algumas das raízes caiem. São raízes de comer, provo uma. Mas o cacto continua com algumas penduradas. Não sei onde plantá-lo. As raízes que caíram estão em cima do tampo de vidro de uma mesa, e mexem-se porque estão vivas. Mexem-se como as paramécias, ou como as cobrinhas de água, arqueando-se e projectando-se num movimento semi-circular.

Depois vou para casa da Alexandra. Os pais dela vão atrás de mim. Descemos umas escadas de granito, sob um caramanchão que dá para o jardim, onde já estão muitas crianças. A mesa está posta para o pequeno-almoço. As crianças são todas louras. Alguém diz:
«As bisavós são todas morenas. As crianças louras são filhas das mulheres estrangeiras dos homens da nova geração».

Uma mulher capaz de levar o carro nestas condições

NOITE DE 22 PARA 23 DE FEVEIRO DE 1998
Mudanças, muitas mudanças. Voos para Paris, via Genéve. Não sei se chego ou não a apanhar o avião, mas isso não é o que importa. O que importa são as conexões entre as coisas. E os telefonemas. O sonho é banhado pela luz do crepúsculo. Não é uma luz muito clara. As estradas são secundárias. E eu estou no Porto.

Outro sonho. Estou na praia e estão a elogiar os meus filhos. Digo:
«É porque sempre viveram perto do mar, foi isso que os tornou tão abertos e tão inteligentes. Chegamos a viver numa casa em que o jardim entrava pela praia».
Olho à minha volta à procura de alguma construção que possa servir de exemplo, ou de medida de comparação.

E volto a sonhar com mudanças. Estou no Porto. Ando de carro, e é de carro que subo a prédios e a sítios assim, e acho incrível a maneira como a senhora que está comigo consegue levar a carro até pelas escadas. Estamos a mostrar a casa às pessoas que a vão habitar a casa depois de mim. Depois estamos no terraço. Digo-lhes que a casa é muito boa, e que fui muito feliz ali. As pessoas estão indecisas. Então, a mulher que está comigo começa a descer, com o carro, por rampas e escadas, e eu olho sem fazer nada. Ela desce assim, do terraço para o rés-do-chão, onde estão muitos homens a conversar. E são todos políticos.
A mulher está mesmo a chegar cá abaixo. Tem um dos braços fora da janela, os músculos contraídos, porque está a levar o carro à força de pulso, agarrando-se à parede, enquanto, com a outra mão agarra no volante. Vê-se que está a fazer um grande esforço, mas não abre a boca. E é estranhíssimo. Nunca tinha visto nada assim. Então ajudo-a. E toda a gente toma consciência do que se está a passar e vêm ajudar também. Só que, na verdade, já nem é preciso, embora tenha aliviado o esforço dela. E um dos homens, que é politico, diz:
«Uma mulher capaz de levar um carro nestas condições é capaz de fazer tudo o que quiser. É maravilhoso.»
E nem me liga, e eu sinto-me posta de parte.
E depois há um cão que está comigo, e ladra muito. E aparecem muitos lobos e rodeiam-no em círculo. Não tenho pena do cão. Ladra muito, é muito irritante. [Acordo e ouço o estúpido do cão da vizinha que ladra o dia inteiro.]