Noite de 10 para 11 de Outubro 2001
I Trabalho de parto
Vou dar à luz. Sou uma Rainha-mãe de cabelos cinzentos, em trabalho de parto e estou no século XIV. Chamo a minha aia. Tenho dores insuportáveis, mas ela, no processo de me ajudar, parece que ainda as agrava mais. O palácio está completamente silencioso. A minha aia diz:
– Temos de fugir. Vêm aí para te matar. A ti e ao teu filho.
– Uma mulher não pode fugir enquanto está a dar à luz! – digo eu.
– Pode, se quiser salvar a vida dela e do filho – responde a aia.
Como é que tudo começou? Eu estou a escolher livros num alfarrabista. Já tenho uma série deles quando pego em três volumes, antigos, de autores diferentes, bem encadernados, e saio com eles sem os pagar. Tenho consciência do meu roubo, e sinto-me tentada a voltar atrás e colocá-los de novo na mesa de ponde os tirei. Eles estavam expostos na rua. Contudo, decido sentar-me e apreciar bem o que levo, antes de tomar alguma iniciativa. E é isso que faço. Folheio os livros, um por um. Estão muito estragados por dentro. Por muito que pudesse gostar dos livros, e nem sequer é esse o caso, neste estado não me interessam de todo.
E agora estamos junto do solar de uma amiga minha que está a catalogar o recheio da casa para não ter problemas com os irmãos. Ela está ligeiramente irritada. Diz:
– Vocês não imaginam as cenas que eles são capazes de fazer por causa de umas colheres de prata!
Decido devolver os livros. Mas agora o alfarrabista é dentro de um edifício e não ao ar livre. Ele faz questão de me mostrar um livro lindíssimo que acha que eu devo gostar. É uma obra medieval. E tem ilustrações a três dimensões. São figuras recortadas nas páginas do lado esquerdo, e que se evidenciam em janela. Virando um numero de páginas suficientes, ao mesmo tempo, a janela deixa ver cenas quase em animação.
II Em perigo de vida
Vejo assim uma janela ogival, por detrás da qual se entrelaçam lanças e se enfrentam lanceiros. Com o virar das páginas as figurinhas ganham mesmo uma ilusão de movimento filiforme. E agora, a dar à luz, é exactamente nesse cenário que me encontro. Em perigo de vida, segundo a minha dinâmica aia.
Ela guia-nos através de corredores desertos e escadas. As escadas e as paredes são de madeira maciça. Finalmente chegamos ao último andar. Ali ficam os aposentos das criadas. Ela faz-me despir as minhas roupas e veste-me as delas. Agora também eu pareço uma criada, com uma touca branca a esconder-me o cabelo cinzento, e com roupas pesadas e escuras a esconder-me a barriga. A minha saia é preta, franzida na cintura e por cima tenho uma blusa do mesmo tecido:
– Vão descobrir que estou grávida! – digo eu.
A aia tranquiliza-me:
– Vão é achar que Vossa Majestade é gorda e pesada como qualquer criada a partir de certa idade. E agora, desculpe, mas vou ter de a tratar de igual para igual. Temos de parecer íntimas.
Os passos dos homens aproximam-se:
– Estão quase aqui – diz a aia.
E nesse momento eles entram. Estão armados, de lanças e espadas. Se soubessem quem eu era, degolar-me-iam mesmo ali. Eu própria não me reconheço fisicamente, como Rainha-mãe, embora saiba que sou eu própria. Exteriormente nem o tom de pele, nem o corpo, nem o cabelo, nem as feições são as minhas, tal como estou habituada a reconhecer-me. Contudo, sei que sou a mesma, indubitavelmente.
Os homens vasculham o quarto e os anexos onde estamos e onde vive a minha aia. Mal olham para mim. Eu chego à janela e olho para o parque. É muito bonito, e tem uma estrada larga, de saibro, até ao portão. É um parque muito grande, dali só se vê a parte que dá para a entrada. Os homens perguntam-me se não sei de nada:
– Vi duas pessoas a correr para a saída do parque – respondi, sempre a olhar pela janela – uma delas caminhava com dificuldade.
Os homens lançam exclamações em voz surda:
– Claro! É a única forma de escapar. É preciso coragem e atrevimento, porque é muito arriscado, assim em plena luz do dia fugir pela entrada principal, mas ela tem as duas coisas. Temos de correr para a apanhar.
Perguntam-me há quanto tempo é que eu vi isso, e respondo que foi mais ou menos há uma hora e meia.
Então eles saem e nós respiramos de alívio. Contudo, em nenhum momento senti medo, ou qualquer coisa parecida, a não ser talvez nos primeiros momentos em que a aia me avisou, e na altura em que os passos dos homens se tornaram audíveis antes de entrarem nos aposentos. Depois, tudo se passou como se fosse, de certa forma um jogo, cujas etapas se foram cumprindo com mais ou menos emoção.
III a negra idosa muda as fraldas do bebé
Agora, na sala do lado há uma negra, idosa, a mudar a fralda a um bebé que é neto dela. Mas ela não tem fralda nenhuma. Digo:
– Acho que tenho ainda, cá em casa, algumas. Vou procurar e depois dou-lhas.
Não me lembro do resto.
Diário dos meus sonhos. My colourful dream diary. Le journal de ma vie ensommeillée.
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segunda-feira, 13 de setembro de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
O bosque antiquíssimo e o Forno do Pão
Noite de Segunda-feira, 8 para 9 de Outubro 2001
I O Reencontro de outras vidas
Estou a acabar de almoçar. [...] Depois, com a boca cheia e o caderno de apontamentos na mão, venho para junto do Alexandre e começo a escrever as informações, extensas, que ele me dá sobre os locais ideais para ir comer. Ele só me dá indicações dessas. A seguir, começamos a andar. Avançamos por um bosque, onde há muitas árvores de fruta. São nespereiras, com nêsperas pequeninas, que ainda não se podem comer. Eu fico sempre espantada como ainda se consegue encontrar no Porto, ao virar de uma esquina, no fim de uma rua, o campo. Aquele bosque é um terreno de passagem, de ninguém. Assim está, sabe-se lá, também, há que séculos. Numa cidade que já entrou no século XXI.
Depois estamos na rua onde fica o forno do pão. É uma rua pequena e medieval. Há muita gente a entrar e a sair daquele edifício, onde se fabrica e vende o famoso pão. A loja fica no 1º andar. Subimos. Ali sai-me ao caminho a dona do forno do pão. É uma mulher idosa, de traços firmes. É uma mulher do povo com um olhar franco e firme. Ela abraça-se a mim e põe-se a chorar. Eu não a conheço:
– És mesmo tu! Oh, que alegria. E estás tão bonita como sempre! – Exclama ela, apertando-me nos seus braços e afastando-me um pouco para me olhar uma e outra vez.
Eu sinto-me comovida com estas demonstrações. Mas o facto é que continuo a não reconhecer a mulher. Ela diz-me:
– Já vivemos tantas vidas!
Ela recorda-se de mim de outras vidas. E recorda-se particularmente de mim, diz, de uma última reincarnação em que teríamos estado mais próximas. Tenho vontade de chorar, mas continuo a dizer-lhe, com toda a franqueza, que não me recordo de nada. Ela diz que eu também tinha nascido mulher, nessa última vida a que se está a referir.
II O Homem africano que cometeu um crime
Depois há um homem, africano, que é preciso esconder. Ele cometeu um crime. Por uma razão qualquer as pessoas do Forno do Pão, entre as quais eu já me incluo, estão prontas a escondê-lo. Havia dois criminosos inicialmente. Um deles, contudo, julgou poder escapar melhor roubando a identidade do outro. Esse respondeu-lhe:
– Para todos os efeitos, mesmo que troques de identidade comigo e que me mates, ah!ah! ah!, eu também estou fichado. Ficas, à mesma, com a identidade de um criminoso procurado.
O outro, no entanto, não quis saber destes argumentos lógicos e matou-o, apoderando-se da sua identidade referenciada em termos criminais. E depois, para despistar a polícia, tinha ficado escondido na cave do Forno do Pão. Como o Forno do Pão era próximo da fronteira, resolvemos levá-lo para lá. Ali íamos dar-lhe dinheiro e ajudá-lo a ganhar o mundo.
II O Criminoso e o Homem do Forno do Pão
Há polícia sempre perto, a vigiar a casa. Metemo-lo dentro de uma saca de batatas e levamo-lo para o jipe, onde colocamos mais sacas de batatas. Um dos polícias espreita para dentro do jipe, mas não desconfia de nada. Pergunta ser está tudo bem e pede-nos para termos cuidado. Ninguém desconfia de nós.
Perto da fronteira soltamos o criminoso e damos-lhe dinheiro. Ele está bem vestido, mas tem os olhos cheios de ódio. Passamos por um café com uma esplanada perto do bosque onde ele tem de se embrenhar para passar a linha da fronteira. Ele passa junto de uma mesa onde estão um homem e uma mulher, jovens, e mete-se com a mulher em termos inqualificáveis. O homem olha para ele estupefacto. Nós agarramos no criminoso por um braço e arrastamo-lo dali para fora. Estamos furiosos, o homem idoso e eu:
– Queres atrair as atenções? Queres ser apanhado antes de conseguir fugir? E queres que nós sejamos incriminados por te termos ajudado?
Começamos a andar pelo bosque. O homem do Forno do Pão está realmente zangado. Eu pergunto ao criminoso se não aprendeu nada com esses três meses fechados na cave:
– Aprendi muito. Coisas ainda piores e muito mais nojentas.
Eu digo ao homem do Forno do Pão:
– Não podemos fazer nada. Ele é genuinamente mau. Não adiantou nada tudo isto.
O homem do Forno do Pão, que é mais velho e muito astuto, diz:
– Já calculava. Vim preparado para isso.
Então, chama o criminoso que vem a bambolear-se, com a sua roupa nova, e pede-lhe que se aproxime de nós. Eu sei que o criminoso, mal tenha uma oportunidade, vai tentar matar-nos. O homem do Forno do Pão, contudo, mal ele chega suficientemente perto, puxa de uma arma e dispara sobre ele, vários tiros.
Depois diz:
– É a única coisa que se pode fazer. Agora, deitamo-lo ao Rio e o Rio que o leve.
I O Reencontro de outras vidas
Estou a acabar de almoçar. [...] Depois, com a boca cheia e o caderno de apontamentos na mão, venho para junto do Alexandre e começo a escrever as informações, extensas, que ele me dá sobre os locais ideais para ir comer. Ele só me dá indicações dessas. A seguir, começamos a andar. Avançamos por um bosque, onde há muitas árvores de fruta. São nespereiras, com nêsperas pequeninas, que ainda não se podem comer. Eu fico sempre espantada como ainda se consegue encontrar no Porto, ao virar de uma esquina, no fim de uma rua, o campo. Aquele bosque é um terreno de passagem, de ninguém. Assim está, sabe-se lá, também, há que séculos. Numa cidade que já entrou no século XXI.
Depois estamos na rua onde fica o forno do pão. É uma rua pequena e medieval. Há muita gente a entrar e a sair daquele edifício, onde se fabrica e vende o famoso pão. A loja fica no 1º andar. Subimos. Ali sai-me ao caminho a dona do forno do pão. É uma mulher idosa, de traços firmes. É uma mulher do povo com um olhar franco e firme. Ela abraça-se a mim e põe-se a chorar. Eu não a conheço:
– És mesmo tu! Oh, que alegria. E estás tão bonita como sempre! – Exclama ela, apertando-me nos seus braços e afastando-me um pouco para me olhar uma e outra vez.
Eu sinto-me comovida com estas demonstrações. Mas o facto é que continuo a não reconhecer a mulher. Ela diz-me:
– Já vivemos tantas vidas!
Ela recorda-se de mim de outras vidas. E recorda-se particularmente de mim, diz, de uma última reincarnação em que teríamos estado mais próximas. Tenho vontade de chorar, mas continuo a dizer-lhe, com toda a franqueza, que não me recordo de nada. Ela diz que eu também tinha nascido mulher, nessa última vida a que se está a referir.
II O Homem africano que cometeu um crime
Depois há um homem, africano, que é preciso esconder. Ele cometeu um crime. Por uma razão qualquer as pessoas do Forno do Pão, entre as quais eu já me incluo, estão prontas a escondê-lo. Havia dois criminosos inicialmente. Um deles, contudo, julgou poder escapar melhor roubando a identidade do outro. Esse respondeu-lhe:
– Para todos os efeitos, mesmo que troques de identidade comigo e que me mates, ah!ah! ah!, eu também estou fichado. Ficas, à mesma, com a identidade de um criminoso procurado.
O outro, no entanto, não quis saber destes argumentos lógicos e matou-o, apoderando-se da sua identidade referenciada em termos criminais. E depois, para despistar a polícia, tinha ficado escondido na cave do Forno do Pão. Como o Forno do Pão era próximo da fronteira, resolvemos levá-lo para lá. Ali íamos dar-lhe dinheiro e ajudá-lo a ganhar o mundo.
II O Criminoso e o Homem do Forno do Pão
Há polícia sempre perto, a vigiar a casa. Metemo-lo dentro de uma saca de batatas e levamo-lo para o jipe, onde colocamos mais sacas de batatas. Um dos polícias espreita para dentro do jipe, mas não desconfia de nada. Pergunta ser está tudo bem e pede-nos para termos cuidado. Ninguém desconfia de nós.
Perto da fronteira soltamos o criminoso e damos-lhe dinheiro. Ele está bem vestido, mas tem os olhos cheios de ódio. Passamos por um café com uma esplanada perto do bosque onde ele tem de se embrenhar para passar a linha da fronteira. Ele passa junto de uma mesa onde estão um homem e uma mulher, jovens, e mete-se com a mulher em termos inqualificáveis. O homem olha para ele estupefacto. Nós agarramos no criminoso por um braço e arrastamo-lo dali para fora. Estamos furiosos, o homem idoso e eu:
– Queres atrair as atenções? Queres ser apanhado antes de conseguir fugir? E queres que nós sejamos incriminados por te termos ajudado?
Começamos a andar pelo bosque. O homem do Forno do Pão está realmente zangado. Eu pergunto ao criminoso se não aprendeu nada com esses três meses fechados na cave:
– Aprendi muito. Coisas ainda piores e muito mais nojentas.
Eu digo ao homem do Forno do Pão:
– Não podemos fazer nada. Ele é genuinamente mau. Não adiantou nada tudo isto.
O homem do Forno do Pão, que é mais velho e muito astuto, diz:
– Já calculava. Vim preparado para isso.
Então, chama o criminoso que vem a bambolear-se, com a sua roupa nova, e pede-lhe que se aproxime de nós. Eu sei que o criminoso, mal tenha uma oportunidade, vai tentar matar-nos. O homem do Forno do Pão, contudo, mal ele chega suficientemente perto, puxa de uma arma e dispara sobre ele, vários tiros.
Depois diz:
– É a única coisa que se pode fazer. Agora, deitamo-lo ao Rio e o Rio que o leve.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Um jogo oceânico e um crime no colégio
Noite 6 para 7 de Outubro 2001
O meu computador não funciona bem. Quero abrir o Outlook mas uma sucessão de programas sobrepõem-se-lhes. O Drew fica muito irritado, acha que eu não estou a proceder correctamente. Acabo por lhe mostrar que a culpa não é minha, e ele, então, começa a irritar-se com os irmãos. Eles instalaram um jogo de estratégia no meu computador. À minha frente, por detrás do ecrã, está uma folha de cartão onde, escrito à mão, estão as explicaçoes do jogo de estratégia que foi instalado. É um jogo marítimo. É um jogo oceânico. Continua a processar-se mesmo depois deles deixarem de jogar. E, de uma maneira misteriosa mesmo para o próprio jogo, o mar vai crescendo e tomando consciência de si, de tal modo que este programa acaba por se sobrepor a todos os demais.
Eu não consigo aceder ao Outlook e percebo que tenho mensagens. Isso deixa-me muito enervada. Começo a andar de trás para a frente, a chamar nomes ao Bernie e ao Lu. Evitando algumas palavras que me poderiam implicar directamente, como “filho de...”. O Drew, entretanto, está a resolver o problema, quando um homem desconhecido passa por nós. Fico um tpouco embaraçada por ele me ter visto tão irritada. Tomo consciência que tenho uma saia cuja ponta é mais comprida à frente. A saia é muito, muito vanguardista. Só agora entendo como devo amarrar a ponta que arrasta no chão com a outra ponta que cai atrás. É uma saia estranha.
Depois, estou no colégio. Somos três ou quatro, temos entre dez e quatorze anos. E precisamos de enfrentar um gang de traficantes de droga. Em grupo, descemos pelo jardim onde eles costumam encontrar-se. É suposto dar-lhes a entender que estamos dispostas a negociar com eles. Eles querem atacar-nos para nos roubar o dinheiro que julgam que temos. Passamos por eles, fazendo-nos distraídas, mas aparentando um ar de segurança. O passeio faz um U. Na base do U, no fim da descida, chegamos à conclusão de que ninguém vem ter connosco e que nos estão a preparar uma armadilha. Subimos e chegamos ao guichet da entrada do Jardim. Uma de nós puxa de uma arma. Penso que sou eu, e mato os dois agressores principais. Um é negro outro é branco. O grupo é muito maior, mas destruídos estes cabecilhas, desfaz-se num instante. Agarro na arma e coloco-a nas mãos da mais nova:
– Não tens ainda 14 anos, és inimputável. Vais dizer que foste tu. Nem é aberto o processo. E acabamos com estes malfeitores.
Ela fica com a arma na mão.
Depois, outra vez no colégio. Estamos a despedir-nos e é muito triste. Alguém se está a ir embora. Não sei se sou eu, se todas nós. Por alguma razão que não recordo, há muita saudade nestas despedidas.
O meu computador não funciona bem. Quero abrir o Outlook mas uma sucessão de programas sobrepõem-se-lhes. O Drew fica muito irritado, acha que eu não estou a proceder correctamente. Acabo por lhe mostrar que a culpa não é minha, e ele, então, começa a irritar-se com os irmãos. Eles instalaram um jogo de estratégia no meu computador. À minha frente, por detrás do ecrã, está uma folha de cartão onde, escrito à mão, estão as explicaçoes do jogo de estratégia que foi instalado. É um jogo marítimo. É um jogo oceânico. Continua a processar-se mesmo depois deles deixarem de jogar. E, de uma maneira misteriosa mesmo para o próprio jogo, o mar vai crescendo e tomando consciência de si, de tal modo que este programa acaba por se sobrepor a todos os demais.
Eu não consigo aceder ao Outlook e percebo que tenho mensagens. Isso deixa-me muito enervada. Começo a andar de trás para a frente, a chamar nomes ao Bernie e ao Lu. Evitando algumas palavras que me poderiam implicar directamente, como “filho de...”. O Drew, entretanto, está a resolver o problema, quando um homem desconhecido passa por nós. Fico um tpouco embaraçada por ele me ter visto tão irritada. Tomo consciência que tenho uma saia cuja ponta é mais comprida à frente. A saia é muito, muito vanguardista. Só agora entendo como devo amarrar a ponta que arrasta no chão com a outra ponta que cai atrás. É uma saia estranha.– Não tens ainda 14 anos, és inimputável. Vais dizer que foste tu. Nem é aberto o processo. E acabamos com estes malfeitores.
Ela fica com a arma na mão.
Depois, outra vez no colégio. Estamos a despedir-nos e é muito triste. Alguém se está a ir embora. Não sei se sou eu, se todas nós. Por alguma razão que não recordo, há muita saudade nestas despedidas.
domingo, 4 de julho de 2010
O centro comercial, o barco de recreio e a cidade antiga
Noite de 16 para 17 de Setembro 2001
Estou a descer uma rua e entro num Centro Comercial. É domingo, é noite e está tudo muito deserto. Dentro do edifício, há ruas interiores e o espaço abre-se para um vasto e esmagador conjunto de edifícios muito modernos, em vidro em tons azulados. Ali não há vida. Imagino que em horário de funcionamento, pode haver muita gente, mas são só escritórios. Nem se vêm as montras das lojas. Pior: o tecto não abre para o céu, mas sim para um simulacro, em fibra de vidro, o que dá uma atmosfera asfixiante àquele lugar. Procuro a saída, e encontro-a guardada por portas de vidro circulares e porteiros. É muito mais fácil sair do que entrar. Há muita gente cá fora, mas só entra uma de cada vez. Pergunto a mim própria que tipo de mentalidade preside a uma estrutura daquelas que limita as suas naturais fontes de crescimento. Ou seja, quando se impedem os consumidores de aceder ao consumo, o que se pode esperar daquele negócio? Mas também me espanta que haja pessoas que se sujeitem a entrar assim, de mais a mais em lugares tão pouco atraentes.
Depois estou num barco de recreio. Num grande paquete. Alguém nos mostra, a mim e ao Otto os folhetos da viagem. Penso: afinal sempre escolhemos fazer um cruzeiro. Mas os folhetos que eu tenho em meu poder não dão qualquer informação sobre o barco, os espectáculos, as paragens. Só têm informações sobre os equipamentos de ginástica e os seus custos, por hora, por dia ou por passe. Depois estamos a ver filmes. Podemos seleccionar uma quantidade deles, em DVD.
Depois estamos numa cidade antiga, onde eu às vezes ia, e o Otto leva-me a um restaurante que é numa casa particular. Podemos escolher a sala onde comer e tudo. Ele diz que conhece vários assim. Cada um com várias salas. As salas são decoradas como nas casas humildes. Não sei porquê, mas aquilo está associado a comida caseira e boa, porque sai fora dos circuitos comerciais da massificação. Além disso, parece-me que o Otto, ou a pessoa com quem estou agora, é amigo do dono, que é um senhor bem disposto e de meia-idade. Acho que há mais amigos que se vêm reunir a nós.
Depois estou a escrever ao meu tio Roger, numa camisola de algodão. É difícil escrever assim, mas o efeito é engraçado. Algumas palavras são substituídas por símbolos. Ele tinha feito uma comparação entre mim e ele, que me era favorável, admito, em termos da opinião que as pessoas, nesta cidade antiga, podem ter a meu respeito, mas sinto-me na obrigação de o corrigir. Não porque eu não tenha boa opinião a meu respeito, mas porque os dados das nossas vidas são muito diferentes. Para quem vê de fora, a opinião pode ser muito diferente, e eu nem sequer acho estranho que o seja. Tanto mais que estamos numa cidade antiga, onde valores antigos, ligados às aparências, ainda vigoram.
Mas sim, concordo com ele: somos parecidos no motor da nossa coerência íntima. Escrevo-lhe mais ou menos isto, na camisola encarnada que lhe vou mandar. E digo as mesmas coisas ao telefone, porque, afinal de contas, nós os dois estamos a conversar.
Estou a descer uma rua e entro num Centro Comercial. É domingo, é noite e está tudo muito deserto. Dentro do edifício, há ruas interiores e o espaço abre-se para um vasto e esmagador conjunto de edifícios muito modernos, em vidro em tons azulados. Ali não há vida. Imagino que em horário de funcionamento, pode haver muita gente, mas são só escritórios. Nem se vêm as montras das lojas. Pior: o tecto não abre para o céu, mas sim para um simulacro, em fibra de vidro, o que dá uma atmosfera asfixiante àquele lugar. Procuro a saída, e encontro-a guardada por portas de vidro circulares e porteiros. É muito mais fácil sair do que entrar. Há muita gente cá fora, mas só entra uma de cada vez. Pergunto a mim própria que tipo de mentalidade preside a uma estrutura daquelas que limita as suas naturais fontes de crescimento. Ou seja, quando se impedem os consumidores de aceder ao consumo, o que se pode esperar daquele negócio? Mas também me espanta que haja pessoas que se sujeitem a entrar assim, de mais a mais em lugares tão pouco atraentes.
Depois estou num barco de recreio. Num grande paquete. Alguém nos mostra, a mim e ao Otto os folhetos da viagem. Penso: afinal sempre escolhemos fazer um cruzeiro. Mas os folhetos que eu tenho em meu poder não dão qualquer informação sobre o barco, os espectáculos, as paragens. Só têm informações sobre os equipamentos de ginástica e os seus custos, por hora, por dia ou por passe. Depois estamos a ver filmes. Podemos seleccionar uma quantidade deles, em DVD.
Depois estamos numa cidade antiga, onde eu às vezes ia, e o Otto leva-me a um restaurante que é numa casa particular. Podemos escolher a sala onde comer e tudo. Ele diz que conhece vários assim. Cada um com várias salas. As salas são decoradas como nas casas humildes. Não sei porquê, mas aquilo está associado a comida caseira e boa, porque sai fora dos circuitos comerciais da massificação. Além disso, parece-me que o Otto, ou a pessoa com quem estou agora, é amigo do dono, que é um senhor bem disposto e de meia-idade. Acho que há mais amigos que se vêm reunir a nós.
Depois estou a escrever ao meu tio Roger, numa camisola de algodão. É difícil escrever assim, mas o efeito é engraçado. Algumas palavras são substituídas por símbolos. Ele tinha feito uma comparação entre mim e ele, que me era favorável, admito, em termos da opinião que as pessoas, nesta cidade antiga, podem ter a meu respeito, mas sinto-me na obrigação de o corrigir. Não porque eu não tenha boa opinião a meu respeito, mas porque os dados das nossas vidas são muito diferentes. Para quem vê de fora, a opinião pode ser muito diferente, e eu nem sequer acho estranho que o seja. Tanto mais que estamos numa cidade antiga, onde valores antigos, ligados às aparências, ainda vigoram.
Mas sim, concordo com ele: somos parecidos no motor da nossa coerência íntima. Escrevo-lhe mais ou menos isto, na camisola encarnada que lhe vou mandar. E digo as mesmas coisas ao telefone, porque, afinal de contas, nós os dois estamos a conversar.
terça-feira, 29 de junho de 2010
Eu, o assassino da rapariga loura e o homem de Angola
Noite de 12 para 15 de Setembro 2001 (publiquei antes a versão em inglês)
Estou dentro do carro com o assassino da rapariga loura. Ele estrangulou-a, com um fio de nylon. Evidentemente, vai também matar-me. Mas agora está a falar delicadamente comigo. É gentil e simpático. É um homem magro, de rosto comprido, normal. Eu estou do lado do volante e penso velozmente em todas as oportunidades. Será que consigo sair, abrindo a porta num movimento rápido? Vejo um canivete no tablier. Imagino a cena: espeto-lhe o canivete nos testículos quando ele me estiver a estrangular, e ele, com a dor, vai ter de me largar e eu fujo. Na verdade, a cena que imagino concretiza-se porque agora estou na rua, que é uma estrada – penso que tenho o mar à minha direita – e meto-me num táxi pedindo ao motorista que me leve ao Hospital. Tenho a garganta cortada e vou precisar de assistência rapidamente.
Mas mesmo no hospital não estou em segurança. O assassino e os seus amigos vão procurar-me para me matar. No quarto onde estou, meto-me debaixo da cama. Eles entram mas não se lembram de espreitar. São três. Depois, arranjo maneira de me porem numa maca, coberta com um lençol como se fosse um cadáver e levam-me pelos corredores sem chamar a atenção até me transferirem daquele hospital. Assim, os criminosos perdem-me o rasto.
Depois estou numa armazém e vejo uma lista com uma faca em cima, pregada uma pasta de papel. É para mim. Eu tiro a faca e desdobro o papel e vejo uma série de informações que não pedi. Ou melhor, não me recordo de ter pedido. São títulos de cartas que eu terei recebido ao longo de meses. Todas do mesmo homem. O homem é de Angola e a fortuna dele vem ali explicada: é multi-milionário.
Eu não me recordo de nada, e não percebo porque razão aquela lista está ali à minha espera. Releio as informações até que chego a uma cifra. É a conta: 103.311$50.
Eu não tenho dinheiro nenhum. Como me foi acontecer aquilo? Eu recordo-me vagamente de ter contratado um detective para me analisar umas cartas que andava a receber. Na verdade, só lhe perguntei quanto cobraria por essa tarefa. Ele disse-me que depois fazia um cálculo e me avisava.
Mas pelos vistos o detective não esperou pela minha aprovação.
Começo a recordar-me do homem de Angola. As suas cartas são extremamente carinhosas. E agora, no armazém, estou com a irmã do homem de Angola que anda por ali a trabalhar. Ela sabe o que se passa.
É uma mulher minúscula, metade do meu tamanho, mas cheia de força. Diz-me:
- Não estás a pensar meter outras pessoas a solucionar-te um problema que só tu arranjaste, pois não?
Respondo-lhe que não, mas que acho normal pedir ajuda.
Ela é muito dura. Ela resolve todas as suas coisas. Mas ela tem muito dinheiro e não tem problemas destes. Aliás, eu estava a pensar pedir ajuda a ela. Ou então, ao irmão. Afinal, se ele gosta de mim, why not?
Mas agora estou longe do armazém. A meio de um monte. Penso que continuo com o mar à minha direita. Há vários grupos de políticos que chegam e passam por ali. Vão todos para o alto do monte, onde há um encontro qualquer importante. Eu estou com o homem de Angola, e ele dá-me a mão. Junta os seus dedos fortes, o indicador e o médio, aos meus e é muito agradável.
Estou dentro do carro com o assassino da rapariga loura. Ele estrangulou-a, com um fio de nylon. Evidentemente, vai também matar-me. Mas agora está a falar delicadamente comigo. É gentil e simpático. É um homem magro, de rosto comprido, normal. Eu estou do lado do volante e penso velozmente em todas as oportunidades. Será que consigo sair, abrindo a porta num movimento rápido? Vejo um canivete no tablier. Imagino a cena: espeto-lhe o canivete nos testículos quando ele me estiver a estrangular, e ele, com a dor, vai ter de me largar e eu fujo. Na verdade, a cena que imagino concretiza-se porque agora estou na rua, que é uma estrada – penso que tenho o mar à minha direita – e meto-me num táxi pedindo ao motorista que me leve ao Hospital. Tenho a garganta cortada e vou precisar de assistência rapidamente.
Mas mesmo no hospital não estou em segurança. O assassino e os seus amigos vão procurar-me para me matar. No quarto onde estou, meto-me debaixo da cama. Eles entram mas não se lembram de espreitar. São três. Depois, arranjo maneira de me porem numa maca, coberta com um lençol como se fosse um cadáver e levam-me pelos corredores sem chamar a atenção até me transferirem daquele hospital. Assim, os criminosos perdem-me o rasto.
Depois estou numa armazém e vejo uma lista com uma faca em cima, pregada uma pasta de papel. É para mim. Eu tiro a faca e desdobro o papel e vejo uma série de informações que não pedi. Ou melhor, não me recordo de ter pedido. São títulos de cartas que eu terei recebido ao longo de meses. Todas do mesmo homem. O homem é de Angola e a fortuna dele vem ali explicada: é multi-milionário.
Eu não me recordo de nada, e não percebo porque razão aquela lista está ali à minha espera. Releio as informações até que chego a uma cifra. É a conta: 103.311$50.
Eu não tenho dinheiro nenhum. Como me foi acontecer aquilo? Eu recordo-me vagamente de ter contratado um detective para me analisar umas cartas que andava a receber. Na verdade, só lhe perguntei quanto cobraria por essa tarefa. Ele disse-me que depois fazia um cálculo e me avisava.
Mas pelos vistos o detective não esperou pela minha aprovação.
Começo a recordar-me do homem de Angola. As suas cartas são extremamente carinhosas. E agora, no armazém, estou com a irmã do homem de Angola que anda por ali a trabalhar. Ela sabe o que se passa.
É uma mulher minúscula, metade do meu tamanho, mas cheia de força. Diz-me:
- Não estás a pensar meter outras pessoas a solucionar-te um problema que só tu arranjaste, pois não?
Respondo-lhe que não, mas que acho normal pedir ajuda.
Ela é muito dura. Ela resolve todas as suas coisas. Mas ela tem muito dinheiro e não tem problemas destes. Aliás, eu estava a pensar pedir ajuda a ela. Ou então, ao irmão. Afinal, se ele gosta de mim, why not?
Mas agora estou longe do armazém. A meio de um monte. Penso que continuo com o mar à minha direita. Há vários grupos de políticos que chegam e passam por ali. Vão todos para o alto do monte, onde há um encontro qualquer importante. Eu estou com o homem de Angola, e ele dá-me a mão. Junta os seus dedos fortes, o indicador e o médio, aos meus e é muito agradável.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Eu e o meu casamento com o Homem Moreno
Noite de Domingo, 16 de Setembro 2001
Vou-me casar e estou a preparar-se para a cerimónia. No meu quarto, procuro o estojo de maquilhagem, o necessaire e coisas separadas que andam por ali. Batons, lápis, rimel, etc. O quarto não é bem o meu quarto. É, parece-me, um lugar de passagem. É um quarto de raparigas. Depois, o quarto está cheio. Amigas, sobretudo. Vejo a Cristina, que é a única que me apetece ter junto de mim, naquela altura. A M. L. também se junta ao grupo. Não consigo arranjar-me, no meio daquela confusão. Digo:– Quero tudo fora daqui, já.
Elas parecem ficar surpreendidas, mas saem na hora. Eu digo à Cristina:
– Tu não, preciso de ti.
Ela fica. E a verdade é que me vou casar com o Homem Moreno. À minha volta há aquela alegria natural das festas. As pessoas parecem muito contentes. Eu sinto que aquele é o desfecho lógico, e que contribui muito para que isso acontecesse. Só que eu não conheço bem o Homem Moreno. Também não é isso que me preocupa. Preocupa-me não me recordar quem era a pessoa que fazia parte da minha vida antes dele.
E preocupa-me, também, saber se gosto dele, e se ele será o Companheiro ideal.
Peço ajuda, não sei a quem. Quero, desesperadamente, saber com quem andava antes de me ligar ao Homem Moreno. Sinto que, se casar com o Homem Moreno, que já está à minha espera e que parece profundamente encantado comigo, posso estar a trair alguém. Penso:
«Quem é que deixei para trás? A quem vou magoar? Será que me estou a envolver, e de uma maneira muito séria, quando há outra pessoa na minha vida de que não me recordo?»
Ninguém me consegue ajudar. O Homem Moreno tem um grande amigo. Esse grande amigo gosta muito de mim, e é solidário connosco porque é o grande confidente do meu noivo. Eu sei que ele me vai apoiar. Estou com algum receio que a minha vida mude muito, mas, acima de tudo, o que me angustia é a falta de memória.
E de repente, ou mudo de sonho, ou é mesmo nesse, ou acordo, e lembro-me, como uma revelação: como posso ir-me casar com o Homem Moreno se já vivo com o Otto?
Uma ilha, duas praias, barcos e jovens muçulmanos
Noite de Sábado 15 de Setembro
Avançamos por uma praia recortada por mar. Estamos longe da terra, próximo de um pontão muito, muito comprido, e próximo ainda de uma outra praia. No pontão podem ancorar barcos, de recreio, ou de longo curso. Eu gosto de ir pelo pontão, mas para já estou mais próximo desta praia, rodeada de mar por todo o lado. Não é bem uma ilha, mas é quase.
E depois estou no hotel, e há jovens muçulmanos lá. Não sei se o hotel lhes pertence, por uma questão geográfica, ou se, pelo contrário, eles são apenas empregados. Estou a arrumar as minhas coisas quando vejo uma caneta no chão. É uma caneta belíssima. Não tem tinta. Apanho-a mas tenho receio que os jovens muçulmanos me vejam e me acusem de ter ficado com uma caneta que não me pertence. Assim, entrego-a ao estudante que está sentado a uma mesa.
– É tua?
– Não – diz ele.
– Guarda-a e se aparecer alguém a provar que lhe pertence, entrega-a, se não podes acabar por ficar com ela – respondo.
Ele sorri, satisfeito. Depois, viro-me para o frigorífico e começo a tirar a carne para dentro de uns sacos térmicos. Na verdade, estivemos tanto tempo de férias e nunca gastamos tudo o que levávamos. Não quero deixar aquela comida toda a estragar-se. Os sacos ficam cheios rapidamente. É desconfortável imaginar que vou ter de carregar aquilo tudo de volta.
Depois estou de novo na praia, agora na outra, e quero tomar banho. Mas é muito perigoso. Volto para a outra praia onde está a Tita, e penso que me vou embora, no fim das férias e não cheguei a tomar um banho de mar como devia ser. Os barcos continuam ao largo, há barcos grandes, de cruzeiro, e eu sei que se andássemos pelo pontão, durante muito tempo, acabávamos por chegar até eles.
Avançamos por uma praia recortada por mar. Estamos longe da terra, próximo de um pontão muito, muito comprido, e próximo ainda de uma outra praia. No pontão podem ancorar barcos, de recreio, ou de longo curso. Eu gosto de ir pelo pontão, mas para já estou mais próximo desta praia, rodeada de mar por todo o lado. Não é bem uma ilha, mas é quase.
E depois estou no hotel, e há jovens muçulmanos lá. Não sei se o hotel lhes pertence, por uma questão geográfica, ou se, pelo contrário, eles são apenas empregados. Estou a arrumar as minhas coisas quando vejo uma caneta no chão. É uma caneta belíssima. Não tem tinta. Apanho-a mas tenho receio que os jovens muçulmanos me vejam e me acusem de ter ficado com uma caneta que não me pertence. Assim, entrego-a ao estudante que está sentado a uma mesa.
– É tua?
– Não – diz ele.
– Guarda-a e se aparecer alguém a provar que lhe pertence, entrega-a, se não podes acabar por ficar com ela – respondo.
Ele sorri, satisfeito. Depois, viro-me para o frigorífico e começo a tirar a carne para dentro de uns sacos térmicos. Na verdade, estivemos tanto tempo de férias e nunca gastamos tudo o que levávamos. Não quero deixar aquela comida toda a estragar-se. Os sacos ficam cheios rapidamente. É desconfortável imaginar que vou ter de carregar aquilo tudo de volta.
Depois estou de novo na praia, agora na outra, e quero tomar banho. Mas é muito perigoso. Volto para a outra praia onde está a Tita, e penso que me vou embora, no fim das férias e não cheguei a tomar um banho de mar como devia ser. Os barcos continuam ao largo, há barcos grandes, de cruzeiro, e eu sei que se andássemos pelo pontão, durante muito tempo, acabávamos por chegar até eles.
A mercearia, o jardim, o bebé
Noite de Segunda 10 de Setembro 2001
Sonho com uma mercearia. Sonho com uma rua íngreme, na parte antiga da cidade, onde me desloco, a descer com cuidado e algum à vontade. Sonho que o meu cabelo está lavado e bonito.
A mercearia fica na parte velha da cidade, num local que me é muito familiar, porque já lá vivi. E é um lugar aonde vou de vez em quando. Agora estou a descer a rua, íngreme e estreita, flectindo as pernas, como no Tai-Chi para não perder o equilíbrio e conseguir deslizar, confortavelmente e sem risco de cair.
Depois, a Tita está a pôr uma fralda num bebé. Não sei de qual das duas é esse bebé, embora a princípio ele seja mais dela do que meu. E a maneira dela pôr a fralda é deixando uma folga, para depois meter um gancho, para o bebé ser içado para um helicóptero que o vem buscar. E ela explica-me, várias vezes, como fazer isso. É uma fralda de pano, colocada em triângulo como antigamente se fazia, com um alfinete de segurança à frente.
E eu tenho o cabelo molhado, muito forte e muito macio, e estamos num jardim cheio de gente. É um jardim com esplanadas, com uma vereda em degraus. E eu pergunto a quem está junto de mim:
“Não é verdade que o meu cabelo está bonito?”
Depois, estou descer a vereda de mão dada com o bebé que agora é um rapazinho, muito pequeno, mas que já fala. E nós estamos a ter um diálogo incrível, só que às vezes não consigo ouvir bem o que ele me diz porque as pessoas à nossa volta falam mais alto. Então, curvo-me e ele repete tudo, e continuamos a conversar. Eu acho estranho termos uma conversa tão rica e tão coerente, sendo ele tão pequeno. E sobretudo pelo elo de empatia que há entre nós. E acho que as pessoas não podem deixar de reparar nisso, e forçosamente ficar espantadas.
Sonho com uma mercearia. Sonho com uma rua íngreme, na parte antiga da cidade, onde me desloco, a descer com cuidado e algum à vontade. Sonho que o meu cabelo está lavado e bonito.
A mercearia fica na parte velha da cidade, num local que me é muito familiar, porque já lá vivi. E é um lugar aonde vou de vez em quando. Agora estou a descer a rua, íngreme e estreita, flectindo as pernas, como no Tai-Chi para não perder o equilíbrio e conseguir deslizar, confortavelmente e sem risco de cair.
Depois, a Tita está a pôr uma fralda num bebé. Não sei de qual das duas é esse bebé, embora a princípio ele seja mais dela do que meu. E a maneira dela pôr a fralda é deixando uma folga, para depois meter um gancho, para o bebé ser içado para um helicóptero que o vem buscar. E ela explica-me, várias vezes, como fazer isso. É uma fralda de pano, colocada em triângulo como antigamente se fazia, com um alfinete de segurança à frente.
E eu tenho o cabelo molhado, muito forte e muito macio, e estamos num jardim cheio de gente. É um jardim com esplanadas, com uma vereda em degraus. E eu pergunto a quem está junto de mim:
“Não é verdade que o meu cabelo está bonito?”
Depois, estou descer a vereda de mão dada com o bebé que agora é um rapazinho, muito pequeno, mas que já fala. E nós estamos a ter um diálogo incrível, só que às vezes não consigo ouvir bem o que ele me diz porque as pessoas à nossa volta falam mais alto. Então, curvo-me e ele repete tudo, e continuamos a conversar. Eu acho estranho termos uma conversa tão rica e tão coerente, sendo ele tão pequeno. E sobretudo pelo elo de empatia que há entre nós. E acho que as pessoas não podem deixar de reparar nisso, e forçosamente ficar espantadas.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Me, The Murder Man and The Man From Angola
Noite de 11 para 12 de Setembro 2001
I am in the car with the Murder Man, who killed the Blonde Girl. He’s a pale guy, pretty polite and he’s talking about stuff, nothing important really. He shows me some documents, concerning his talking, and goes on speaking in a civilized way. He’s not talking about murdering or whatsoever nor is he tracking me. Although I do know he will try to murder me. That’s his intention. And I also know that he doesn’t feel sorry about the poor Blonde Girl. He just has no feelings toward people. I’m not in panic. I’m in stress thinking over how to escape. I’m sitting behind the steering wheel. I know the Murder Man is going to killed me with a nylon row around my neck, the same way he killed the Blonde Girl. I figure out may be I’ll have time to run away if only I would have something to defend myself. Then I realize there is a little Switzerland army knife in the dash board. In my mind I picture the scene: I’ll drill his guts because a little knife like that can’t be useful for attacking hearts or whatsoever. Plus, the man is strong. His guts are his weak point. Anyway, imagining it is, suddenly, having it done. Now I’m running away the car, but I’m hurt. I have blood in my injured neck. Anyhow he managed to attack me, I don’t know how and when. This part of the action – me attacking him, him attacking me –, was not recorded or even took place in the dream. Anyway, I am now running to a cab and asking the driver to drive me to the Hospital. Then, I’m already in the Hospital, but the Murder Man has friends who are there searching for me. I realize I need to hide myself under my bed. They enter the room, but they don’t look under the bed. Ten I realize also I must take off to another hospital. I don’t know how many of them are still around the place. So I put myself in a litter, covering my body with a blanket, like if I was a corpse going to the morgue and I made myself being drive to those huge corridors, safe and hidden, and they managed to take me off to another safe place.
And then, in the very same night, but in a completely different scenario, with no memories of the other dream, I’m entering a warehouse, where somehow I work or somehow belong to me. And in the wooden wall there is a long list, written in several sheets of paper, fixed on the wall by a tiny knife. I take the list realizing that it has lots of information about some letters, whose subjects, in tittles, are included in the list. All letters were written to me by the same man: the man from Angola, and there is an explanation about the man’s huge fortune. He’s multimillionaire because he has all his business in Angola.
I don’t understand why I’m receiving all those information. I don’t even remember I’ve been receiving so many letters from that Angola Man. I keep on reading and I get horrified as I discovered I have to pay to the detective I even don’t remember to engage. And the bill is bigger than I can afford.
And now I begin to remember about the Angola Man, not him really, but his extremely affectionate letters. But I’m deeply concerned about my debt. The Angola Man’s sister is working around in the same warehouse. She’s very small about half of my size, but she’s incredibly strong. She tells me:
– You are not thinking of asking someone else to fix the problems you got to yourself, are you?
I say:
– No, course not, but I think it is pretty normal to ask for help.
She’s very tough. She can handle her own business. But she’s very rich, she doesn’t have to deal with this kind of shit. Anyway I was thinking of asking for her help all right. Or for Angola Man’s help. Why not if he’s so found of me? It is so little money for them!
Now I’m far from the warehouse. On my right hand there is the seaside. I’m climbing a little mountain. Several politics are around, claiming the mountain also. Everybody goes to the top of the hill. Over there, there is an important meeting. And now that man of Angola is with me holding my hand affectionately. His fingers are strong.
I am in the car with the Murder Man, who killed the Blonde Girl. He’s a pale guy, pretty polite and he’s talking about stuff, nothing important really. He shows me some documents, concerning his talking, and goes on speaking in a civilized way. He’s not talking about murdering or whatsoever nor is he tracking me. Although I do know he will try to murder me. That’s his intention. And I also know that he doesn’t feel sorry about the poor Blonde Girl. He just has no feelings toward people. I’m not in panic. I’m in stress thinking over how to escape. I’m sitting behind the steering wheel. I know the Murder Man is going to killed me with a nylon row around my neck, the same way he killed the Blonde Girl. I figure out may be I’ll have time to run away if only I would have something to defend myself. Then I realize there is a little Switzerland army knife in the dash board. In my mind I picture the scene: I’ll drill his guts because a little knife like that can’t be useful for attacking hearts or whatsoever. Plus, the man is strong. His guts are his weak point. Anyway, imagining it is, suddenly, having it done. Now I’m running away the car, but I’m hurt. I have blood in my injured neck. Anyhow he managed to attack me, I don’t know how and when. This part of the action – me attacking him, him attacking me –, was not recorded or even took place in the dream. Anyway, I am now running to a cab and asking the driver to drive me to the Hospital. Then, I’m already in the Hospital, but the Murder Man has friends who are there searching for me. I realize I need to hide myself under my bed. They enter the room, but they don’t look under the bed. Ten I realize also I must take off to another hospital. I don’t know how many of them are still around the place. So I put myself in a litter, covering my body with a blanket, like if I was a corpse going to the morgue and I made myself being drive to those huge corridors, safe and hidden, and they managed to take me off to another safe place.
And then, in the very same night, but in a completely different scenario, with no memories of the other dream, I’m entering a warehouse, where somehow I work or somehow belong to me. And in the wooden wall there is a long list, written in several sheets of paper, fixed on the wall by a tiny knife. I take the list realizing that it has lots of information about some letters, whose subjects, in tittles, are included in the list. All letters were written to me by the same man: the man from Angola, and there is an explanation about the man’s huge fortune. He’s multimillionaire because he has all his business in Angola.
I don’t understand why I’m receiving all those information. I don’t even remember I’ve been receiving so many letters from that Angola Man. I keep on reading and I get horrified as I discovered I have to pay to the detective I even don’t remember to engage. And the bill is bigger than I can afford.
And now I begin to remember about the Angola Man, not him really, but his extremely affectionate letters. But I’m deeply concerned about my debt. The Angola Man’s sister is working around in the same warehouse. She’s very small about half of my size, but she’s incredibly strong. She tells me:
– You are not thinking of asking someone else to fix the problems you got to yourself, are you?
I say:
– No, course not, but I think it is pretty normal to ask for help.
She’s very tough. She can handle her own business. But she’s very rich, she doesn’t have to deal with this kind of shit. Anyway I was thinking of asking for her help all right. Or for Angola Man’s help. Why not if he’s so found of me? It is so little money for them!
Now I’m far from the warehouse. On my right hand there is the seaside. I’m climbing a little mountain. Several politics are around, claiming the mountain also. Everybody goes to the top of the hill. Over there, there is an important meeting. And now that man of Angola is with me holding my hand affectionately. His fingers are strong.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
O Tigre e o voo dos pássaros
Noite de Sexta-Feira, 5 de Outubro 2001
Estamos dentro de uma casa de aldeia. Não conheço as pessoas, mas, naquele contexto, tudo se torna familiar. A casa não pertence particularmente a nenhum de nós, mas todos a podemos usar. Está uma tigela de leite no chão. Um dos homens está a fazer queijo. Ele deita flores de nardo dentro da vasilha. Os outros estão a fazer outras coisas. Naquela casa recriam-se actividades antigas, como essa de fazer queijo de forma não industrial. Por qualquer razão, eu sou a única mulher. Ou talvez não haja razão nenhuma especial para isso.
Perguntamos ao homem que está a fazer queijo quanto tempo vai demorar para podermos comê-lo. Avançamos algumas datas e o homem ri das nossas previsões (de dias) e diz:
– Em duas horas o queijo está feito.
Como é tão rápido, resolvemos aproximar-nos da vasilha e ver como tudo se processa. O leite coalha e forma uma bola. Assim, no tempo que demora a dizê-lo. Agora o queijo está feito e é só preciso trabalhar aquela bola, espremer o soro, essas coisas.
Então toda a gente sai. Menos eu, e um rapaz que me pergunta se gosto de gatos. Eu sei que aquela pergunta encerra uma armadilha por isso respondo cuidadosamente que sim, mas não tenho tempo, nem vida, nem disponibilidade, actualmente, para ter animais. Os animais precisam de quem lhes dê atenção.
Ele diz que tem um poblema e que não é bem de um gato que está a falar. Na verdade, e através de um circuito ilegal, adquiriu um animal que não consegue tratar nem tem condições para tê-lo. Ele só quer que eu lho guarde uns tempos, ali, naquela casa, até descobrir como se há-de ver livre dele. O animal está dentro de uma caixa de madeira baixa, com grades e com uma tranca de ferro, poderosa.
Eu não quero, mas entretanto não tenho como recusar o pedido. Entretanto, olho para o tigre (ou será uma chita?) jovem que está dentro da jaula, dentro da casa. É um animal de beleza estarrecedora. O pelo, o corpo, os olhos. Sinto vontade de chorar ao vê-lo ali, naquela caixa grosseira. Além disso, o tigre (chita?) tem fome. Não comeu. O rapaz que me pediu para guardá-lo diz-me isso antes de se ir embora.
Eu não quero que o tigre me olhe. Nem que me veja. Sei que isso pode ligar-nos e eu não me sinto com força para assumir essa responsabilidade. Saio, para ir procurar comida para ele.
A casa de aldeia fica numa vila. As pessoas estão em suas casas ocupadas nos seus trabalhos, muitos deles artesanais. Estou num largo, diante da casa do sapateiro. Dentro da casa do sapateiro há crianças.
Mas enquanto ando à procura de comida para o tigre, não consigo deixar de voltar atrás e ir a casa, várias vezes, para ver como tudo está. É muito estranho. O Tigre não rosna, nem está inquieto nem furioso, como seria de esperar. O Tigre, é um tigre genuinamente feliz, se esta palavra se pode aplicar a este animal, ainda por cima em tais condições. Aqui, no sonho, aplica-se contudo. Além disso, é um animal incrivelmente inteligente. Ele está a tentar abrir o ferrolho da jaula. Paciente e tenazmente.
Um dos homens tinha dito:
– A tranca é muito poderosa. É impossível conseguir abri-la.
Mas cada vez que entro em casa, o Tigre já resolveu mais uma daquelas etapas com as suas patas de veludo. A certa altura a tranca salta. Agora, basta ele dar um empurrão e a jaula abre-se. Encosto-me à porta e tento trancá-la com o meu peso.
Agora a caixa é toda de madeira, sem grades. Ele não me vê, eu não o vejo a ele. Apoio as minhas costas, com toda a força, à porta e tento contrariar o impulso do tigre para a abrir. Ele não se atira violentamente. Pelo contrário, dá impulsos suaves mas firmes. Ele não faz as coisas às cegas. E, reparo eu, não rosna, nem brame. Não parece um animal selvagem.
Com a força das minhas costas, e num esforço enorme, trago a caixa para a rua, e começo a empurrá-la pela rua acima. É um processo muito difícil, porque tenho, simultaneamente, de empurrar a caixa e de empurrar a porta para a manter fechada. Ninguém me ajuda e eu não quero gritar por dois motivos. Por um lado, porque já não tenho forças. Por outro, porque não quero que o tigre perceba o que se está a passar, e que com um pouco mais de energia pode abrir a porta.
Então vejo um polícia a conversar à porta de um café. O polícia vem ajudar-me quando lhe conto o que está a acontecer. Mas eu não quero que o tigre seja levado para uma esquadra, e depois para um jardim zoológico. Estou num dilema terrível. Eu e o Tigre (ou a chita?) já temos uma ligação. Sinto-me profundamente ligada a ele. Quero devolvê-lo ao seu mundo. O polícia tranquiliza-me: o tigre vai ser entregue aos cuidados de um grupo de Defesa da Vida Natural, com quem ele trabalha, e que é um departamento da sua esquadra.
Então o tigre solta-se.
Não sei como foi, mas agora está livre. Nunca vi uma criatura tão bela e tão feliz. Ele corre e salta pelo prazer de correr e saltar e estar vivo. Ele salta de uma maneira inconcebível, à altura do voo dos pássaros. Os seus saltos são de uma beleza geométrica, pura e indizível.
Sei que ele está com fome, mas ao contrário do que seria de esperar, a sua primeira acção não é atacar ninguém à procura de comida. É sentir, literalmente, a alegria da liberdade.
Sinto lágrimas a correr-me pela cara abaixo. Digo ao polícia:
– Vê? Como se pode prender um animal destes? Como se podem meter animais assim em jaulas e jardins zoológicos? É um crime.
Agora, estou com os elementos da Brigada da Conservação da Natureza. Peço-lhes comida para dar ao tigre. Um deles tira de um cilindro de metal, a baixíssimas temperaturas, uma caixa de tampa amarela que tem bisnagas de comida para tigres. Está tudo enevoado por causa do frio, mas, nas bisnagas, a comida, um concentrado fortíssimo de proteínas, está à temperatura ambiente.
O homem diz:
– Meta a bisnagas entre as grades e tente meter a comida na boca do tigre.
Respondo que prefiro pegar-lhe ao colo. Então, estou a agarrar numa criança de três anos que me estende os braços como se estivesse a abrir as asas. Meto-lhe a comida na boca. Sei que vai voltar a ser tigre e que vai ser devolvido à sua natureza. Mas os homens que vão tratar disso prometem fazê-lo de uma forma não traumática. Sei, também, que vou sentir a falta dele para sempre.
A criança chupa gulosamente a pasta que sai da bisnaga. A cara da criança está suja com bocados de comida que lhe escorrem dos cantos da boca. Ela come sofregamente porque tem muita fome, mas está muito bem disposta.
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