Night 3rd to 4th March 2008
They are chasing after me. I see one of them. It's a policeman. He has some papers in his left hand. He's in front of me and calls my name. I assume I am who I am right away. I did nothing wrong or whatsoever. So he puts those papers in my hand and I cannot avoid trembling a little. Anyway, I face him showing no fear. The place is a little crowded but nobody seams to pay attention to us. Then I have to climb on a kind of a ladder and as I need both hands to do that I have to put those papers in my mouth. Now I think those papers are kind of a passport.
Then I'm flying away in a small helicopter. My legs are hanging outside and my arms and hands strongly crapped to the floor. We are crossing the seaside. I know there is no door because we have to jump right away when it stops. But it's quite scarring flying that way feeling the wind and the all the movements. I fear to loose my strength and being thrown over board. "Gosh, I must be so strong all the time", I think.
Diário dos meus sonhos. My colourful dream diary. Le journal de ma vie ensommeillée.
quarta-feira, 5 de março de 2008
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Um barco a remos no asfalto da cidade
NOITE DE 30 DE SETEMBRO PARA 1 DE OUTUBRO DE 1997
Chegamos ao rio e vamos atravessá-lo e estou eu e a Xana. E o rio está escuro, o céu carregado de nuvens e um barqueiro que não vejo directamente diz que, nestas condições, não nos leva para o outro lado, porque não é seguro. E nós vamos para o Montijo. E o barqueiro é uma mulher e, estranhamente, vamos num barco a remos. E agora estamos no meio do rio, só que ela rema com uma velocidade incrível e a travessia faz-se com muita rapidez. Já não há céu escuro nem carregado e nós até já nem vamos para o Montijo. Parece perigoso mas é seguro. Há um passageiro a remar ao mesmo tempo e lado a lado com a barqueira. Ele está a remar porque quer. Ela não lhe pediu nada. Depois o barco está a andar tão depressa e já não é no rio. E a barqueira continua a remar, o mesmo passageiro continua a ajudá-la e remam os dois muito bem. O passageiro é um homem novo, um rapaz suponho. Até pode ser que seja o Drew. Só que agora andam de barco no asfalto da cidade, a grande velocidade. Eu grito-lhes que parem. O barco a remos desvia-se de carros, nos cruzamentos, e os carros desviam-se do barco a remos que não tem travões. E as ruas são largas, rodeadas de casas com jardins e cruzamentos com muita visibilidade. É uma zona periférica mas muito boa. A aquela forma não é a melhor, mas era a que estava à mão, porque nós já lá estávamos dentro. O barco agora está num cruzamento, parou entre automóveis que se desviam, e outros que também pararam. Não há engarrafamentos.
Chegamos ao rio e vamos atravessá-lo e estou eu e a Xana. E o rio está escuro, o céu carregado de nuvens e um barqueiro que não vejo directamente diz que, nestas condições, não nos leva para o outro lado, porque não é seguro. E nós vamos para o Montijo. E o barqueiro é uma mulher e, estranhamente, vamos num barco a remos. E agora estamos no meio do rio, só que ela rema com uma velocidade incrível e a travessia faz-se com muita rapidez. Já não há céu escuro nem carregado e nós até já nem vamos para o Montijo. Parece perigoso mas é seguro. Há um passageiro a remar ao mesmo tempo e lado a lado com a barqueira. Ele está a remar porque quer. Ela não lhe pediu nada. Depois o barco está a andar tão depressa e já não é no rio. E a barqueira continua a remar, o mesmo passageiro continua a ajudá-la e remam os dois muito bem. O passageiro é um homem novo, um rapaz suponho. Até pode ser que seja o Drew. Só que agora andam de barco no asfalto da cidade, a grande velocidade. Eu grito-lhes que parem. O barco a remos desvia-se de carros, nos cruzamentos, e os carros desviam-se do barco a remos que não tem travões. E as ruas são largas, rodeadas de casas com jardins e cruzamentos com muita visibilidade. É uma zona periférica mas muito boa. A aquela forma não é a melhor, mas era a que estava à mão, porque nós já lá estávamos dentro. O barco agora está num cruzamento, parou entre automóveis que se desviam, e outros que também pararam. Não há engarrafamentos.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
O urso passeia por uma trela
NOITE DE 5 PARA 6 DE OUTUBRO DE 1997
Um urso bebé. Passeia por uma trela, é para ser entregue a um amigo meu, homossexual. Andamos pelas vielas, ruas estreitas de uma cidade. A luz é amarelada, uma luz de candeeiros de petróleo, à noite. O urso, que está bem seguro, solta-se. E agora anda por cima dos automóveis. Tento deitar-lhe a mão. Tem o pêlo áspero. O meu amigo que é o dono do urso, vai limpá-lo, penteá-lo, lavá-lo com champô para ficar cheirosinho. Esse amigo tem outro amigo.
Depois estou a mudar a minha cama, no quarto. Quero que ela apanhe a luz do dia, para eu poder estar na cama a ler. É um quarto de passagem, porque esta casa não é minha, ou não é a casa definitiva. A cama vai ficar num local onde normalmente as camas não ficam. Com a cabeceira encostada a uma janela. A janela é grande, tem portadas de madeira, lá fora está muita luz do dia. Há vento. As cortinas esvoaçam. Arrasto a cama sozinha. Talvez não seja a melhor solução estética, mas é a mais favorável para ler.
Um urso bebé. Passeia por uma trela, é para ser entregue a um amigo meu, homossexual. Andamos pelas vielas, ruas estreitas de uma cidade. A luz é amarelada, uma luz de candeeiros de petróleo, à noite. O urso, que está bem seguro, solta-se. E agora anda por cima dos automóveis. Tento deitar-lhe a mão. Tem o pêlo áspero. O meu amigo que é o dono do urso, vai limpá-lo, penteá-lo, lavá-lo com champô para ficar cheirosinho. Esse amigo tem outro amigo.
Depois estou a mudar a minha cama, no quarto. Quero que ela apanhe a luz do dia, para eu poder estar na cama a ler. É um quarto de passagem, porque esta casa não é minha, ou não é a casa definitiva. A cama vai ficar num local onde normalmente as camas não ficam. Com a cabeceira encostada a uma janela. A janela é grande, tem portadas de madeira, lá fora está muita luz do dia. Há vento. As cortinas esvoaçam. Arrasto a cama sozinha. Talvez não seja a melhor solução estética, mas é a mais favorável para ler.
Na casa da minha avó
NOITE DE 29 PARA 30 DE SETEMBRO DE 1997[...] Da minha carteira saem fotografias antigas. São fotografias minhas quando tinha seis, sete anos. É que, quando estava à espera de ser atendida junto do balcão ao ar livre, que era uma espécie de balcão de mercearia, e naquela sonolência que me invade, ouço o som de uma chave a cair pelas escadas abaixo. Faço uma espécie de corneta de papel para ouvir com maior nitidez o ruído metálico, ligeiramente musical, da chave a bater de degrau em degrau, e fico a ouvir porque acho que, pelo som, posso descobrir em que andar ela acaba por parar. A chave, finalmente, pára. Então as fotografias animam-se. Vejo-me a correr, num quintal. Às vezes danço. Tenho ternura por aquela eu de sete anos, que tem tanta, tanta intensidade. E tanta alegria. Penso: «oh, eu era linda». […] Finalmente vou a casa da minha avó. Entro, não está ninguém no rés-do-chão. Ouço barulho no andar de cima. São as criadas a tratar dela. Continua a ter duas criadas. Uma é da maior confiança. É a Maria. A minha avó está doente. Está na fase terminal da sua vida. Penso que não fala. Espero, ao fundo das escadas. Ela passa, com as criadas, olha para baixo e vê-me. Faz um gesto imperioso para me mandar subir. Tem cabelo curto. Penso: «sempre foi uma mulher muito voluntariosa, uma mulher com muita força». É mais alta do que eu me lembrava. De modo que subo, corro, pelas escadas acima, e lanço-me nos seus braços e penso: «afinal ela gostava mesmo de mim. E ainda gosta.» A certeza desse amor de sangue, dá-me tranquilidade e segurança. [...] Ela dança. Dança, dança, dança. Rodopia comigo e eu vou atrás, porque me agarra com muita força, e tento, ao mesmo tempo, segurá-la, para ela não cair, porque está velha e doente, e pode magoar-se. Só que já não tenho força para a segurar por muito mais tempo, e ninguém me está a ajudar. Depois estamos no quarto dela, e é muito pequeno, só lá cabem três pessoas, e eu fico mais ou menos à porta. Falta entrar a minha cadeira. […]
sábado, 26 de janeiro de 2008
Uma mesa posta para jantar
NOITE DE 25 PARA 26 DE SETEMBRO DE 1997
[…] O dia cai. Estou sozinha e tenho que atravessar a rua. Estou numa cidade conhecida. Estou em Lisboa. Numa zona próxima da Avenida de Londres e da Avenida de Roma[…]. O passeio está mais ou menos deserto, há alguns carros na rua, e sinto um pouco de medo. E alguma estranheza, porque não sei bem como vou fazer. Depois acho normal, e penso: «se é assim, é assim.». Porque aquela é uma situação que não vale a pena questionar. […]
A verdade é que ele me leva para casa dele. E é uma casa rica, e é uma espécie de contraponto da casa da outra mulher. As mobílias são antigas e de muito bom gosto. Não o género de mobílias que eu poria numa casa minha, mas o efeito é muito agradável. Aquela casa é uma casa sólida, solidamente construída. Acho que há muitas coisas em prata. […] Há uma mesa posta. É uma mesa posta para jantar. Está muito bonita, o jantar é para várias pessoas, a sopa já está servida, e é cor-de-laranja. E há vários pratos, e pelo menos um, – penso que o aperitivo, – também já está na mesa, e eu penso: «estamos a deixar isto esfriar». Há vários criados para nos servirem. E eu até nem me importo da sopa mais fria, porque podem aquecê-la outra vez. A casa, e a cozinha, têm muitos recursos. […] E estão várias pessoas à mesa, acho que os meus filhos e uma outra mulher.
[…] O dia cai. Estou sozinha e tenho que atravessar a rua. Estou numa cidade conhecida. Estou em Lisboa. Numa zona próxima da Avenida de Londres e da Avenida de Roma[…]. O passeio está mais ou menos deserto, há alguns carros na rua, e sinto um pouco de medo. E alguma estranheza, porque não sei bem como vou fazer. Depois acho normal, e penso: «se é assim, é assim.». Porque aquela é uma situação que não vale a pena questionar. […]
A verdade é que ele me leva para casa dele. E é uma casa rica, e é uma espécie de contraponto da casa da outra mulher. As mobílias são antigas e de muito bom gosto. Não o género de mobílias que eu poria numa casa minha, mas o efeito é muito agradável. Aquela casa é uma casa sólida, solidamente construída. Acho que há muitas coisas em prata. […] Há uma mesa posta. É uma mesa posta para jantar. Está muito bonita, o jantar é para várias pessoas, a sopa já está servida, e é cor-de-laranja. E há vários pratos, e pelo menos um, – penso que o aperitivo, – também já está na mesa, e eu penso: «estamos a deixar isto esfriar». Há vários criados para nos servirem. E eu até nem me importo da sopa mais fria, porque podem aquecê-la outra vez. A casa, e a cozinha, têm muitos recursos. […] E estão várias pessoas à mesa, acho que os meus filhos e uma outra mulher.
À procura de um acupunctor
NOITE DE 23 PARA 24 DE SETEMBRO DE 1997
Estou num centro comercial e ando à procura de um acupunctor. Pergunto a uma rapariga, nova, se sabe de algum. E ela responde “que coincidência! acabo de vir da consulta. É um muito bom, óptimo. Até te levo lá.” Há escadas rolantes e muita gente. Ela aponta para cima, e eu vejo, debruçado no corrimão do andar superior, um homem e várias pessoas a rodeá-lo. A rapariga diz: “é aquele”.
Ele está à porta do consultório, vejo cá fora fazer uma pausa. Há muita gente dentro do consultório. Muita gente mesmo. Eu digo «assim nunca mais chega a minha vez». O homem dá-me o braço e diz que tem de apanhar o avião à noite. E acontece que o homem está quase despido, de tanga, acho eu, e é brasileiro e vai apanhar o avião para o Brasil às dez da noite. E eu digo: “assim não vai poder ver esta gente toda! E muito menos a mim.”Ele aperta-me a mão e fecha a minha mão na dele. É muito simpático. A mão dele é muito pequena. E áspera. Penso: «a mão de um médico costuma ser forte e macia».
Estou num centro comercial e ando à procura de um acupunctor. Pergunto a uma rapariga, nova, se sabe de algum. E ela responde “que coincidência! acabo de vir da consulta. É um muito bom, óptimo. Até te levo lá.” Há escadas rolantes e muita gente. Ela aponta para cima, e eu vejo, debruçado no corrimão do andar superior, um homem e várias pessoas a rodeá-lo. A rapariga diz: “é aquele”.
Ele está à porta do consultório, vejo cá fora fazer uma pausa. Há muita gente dentro do consultório. Muita gente mesmo. Eu digo «assim nunca mais chega a minha vez». O homem dá-me o braço e diz que tem de apanhar o avião à noite. E acontece que o homem está quase despido, de tanga, acho eu, e é brasileiro e vai apanhar o avião para o Brasil às dez da noite. E eu digo: “assim não vai poder ver esta gente toda! E muito menos a mim.”Ele aperta-me a mão e fecha a minha mão na dele. É muito simpático. A mão dele é muito pequena. E áspera. Penso: «a mão de um médico costuma ser forte e macia».
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
O homem enforcado junto ao mar e a Terra dos Ursos
NOITE DE 15 PARA 16 DE SETEMBRO DE 1997Um homem está a ser enforcado junto ao mar. O mar está em segundo plano, é uma linha de água ao fundo, nem se vê todo porque a imagem está enquadrada de forma a privilegiar a assembleia de homens que rodeia a forca onde está a ser enforcado o criminoso. E os homens que assistem a este espectáculo são umas duas dezenas. Têm um aspecto muito normal. A forca é rudimentar, e o processo não está a correr bem. O homem demora muito tempo a morrer, contorce-se, leva as mãos ao pescoço, tem falta de ar e sofre horrivelmente.
Alguém, na assistência, comenta que se deveria utilizar outro método, talvez uma injecção letal, por exemplo, porque aquilo é uma barbaridade. Penso: "Este homem para dizer estas coisas já deve ter vivido nos Estados Unidos". O carrasco está a suar. Já ergueu o corpo umas duas ou três vezes para o deixar cair bruscamente. [...] Alguém comenta que aquele condenado vai demorar seis minutos a morrer. Penso: «é uma eternidade, para quem sofre assim!».
Depois retiram o homem da forca, e estendem-no na areia. É novo, deve ter trinta, trinta e poucos anos. Olho para a mão direita dele, estendida e semi dobrada na areia. É branca, tem dedos longos.
Depois o homem mexe-se, porque afinal não moreu. E ergue-se e começa a correr pela areia. Todos começam a fazer um círculo à volta dele, e ele tenta entrar nos carros que estacionaram perto da praia, mas os carros já estão cheios com famílias. O cerco aperta-se. Ele entra num carro que parece vazio, e é uma carrinha, e a pessoa que está lá dentro diz para ele dar a volta, e ele corre para a outra porta, e então as duas portas da carrinha abrem-se, ao mesmo tempo, são de aço, fazem uma muralha, fecham o cerco de vez, e de dentro da carrinha saem polícias. Penso: "Estes casos costumam ser amnistiados." Não sei se ele é culpado, nem de quê.
Depois estou numa parte da floresta que é a Terra dos Ursos. Essa parte da floresta está perto de uma auto-estrada e de outras vias de comunicação. Não é escura, nem sombria. Os ursos andam quase sempre erguidos em duas patas. O chão está cheio de bolinhas de cocó muito pretas. Uma menina diz-me que o cocó dos ursos é utilizado como fertilizante, e que os ursos estão a ser ensinados a fazer cocó de pé para não sujarem o pêlo.
Aquela parte da floresta tem muitas clareiras, e não é bonita porque está muito próximo da civilização e das estradas. Essas coisas. Acho que as árvores têm pó. Acho que os ursos comem folhas das árvores. Depois a menina está a segurar um urso bebé que está a fazer cocó numa sanita, e é um ursinho gorila. Sei que os ursos são perigosos, mas é como se aquele perigo, aqui, estivesse absolutamente controlado, porque há pessoas que estão a tomar conta daquela situação há muito tempo.
Depois a ML vai ser operada de urgência. Agora há enfermeiras a pô-la em cima de uma marquesa, e médicos que a vão operar à barriga, e a luz é azul. Ela não parece importar-se porque gosta de hospitais, e médicos e operações. Até parece que está um bocado orgulhosa. [...]
Depois estou num comboio, e venho para Lisboa e tenho três mensagens no telemóvel, só que não consigo atender, porque o Lula mexeu naquilo, acho que me desacertou o sistema de receber mensagens. Fico muito zangada. E frustrada. E as mensagens são todas de trabalho. E grito.
http://ante-et-post.weblog.com.pt/2006/12/contra
Estes homens-peixe são doidos
NOITE DE 5 PARA 6 DE SETEMBRO DE 1997
Estou num hospital. Na cama ao lado da minha está aquela velhinha amorosa. Ela afinal ainda está viva, só que perdeu a memória. Portanto é ela, e já não é ela. Eu estou no hospital, mas é como se já não estivesse completamente internada. Eu estou quase curada. [...]
Depois sonho que ouço gritos do lado de fora da minha casa. E há uma família francesa com muitas crianças. [...] Depois há um homem que vem ter comigo para me levar não sei onde. E quando o homem se aproxima eu abraço-o e beijo-o. Intensamente. Demoradamente. Ele corresponde. É um abraço sem fim, de uma intensidade enorme. E vamos, abraçados, para dentro de uma casa.
Depois sonho com o Paulo que diz que se tornou mais sensível às amizades e aos afectos. Estou sentada numa cama a vê-lo aproximar-se de mim. Lembro-me de pensar «como ele tem um ar tão duro». Como se fosse uma pedra.
Depois sonho com o A. que fez uma birra muito grande à Helena. Ele tenta dormir na rua, mas tem tanto frio que não consegue. E primeiro tenta tapar-se com folhas, mas o cacimbo da noite é excessivo. Depois mete-se dentro de água, porque há ali um lagozinho, ou um rio, e a água, apesar de tudo, é menos fria do que a noite. Mas não consegue descansar. E tem cada vez mais frio. E eu penso «estes homens-peixes são mesmo doidos. E teimosos. Outro qualquer morria de pneumonia, este nem vai nem ficar constipado." E penso que o Drew é parecido com o pai. Depois ele mete-se no carro e lá está a Helena, que traz uma grande manta e embrulha-o. E eu fico tão aliviada.
Depois olho para o céu e o céu está cheio de desenhos nas estrelas, e eu quero percebê-los. E são desenhos como nos livros, mas não são desenhos mágicos como já vi noutras alturas.
Estou num hospital. Na cama ao lado da minha está aquela velhinha amorosa. Ela afinal ainda está viva, só que perdeu a memória. Portanto é ela, e já não é ela. Eu estou no hospital, mas é como se já não estivesse completamente internada. Eu estou quase curada. [...]
Depois sonho que ouço gritos do lado de fora da minha casa. E há uma família francesa com muitas crianças. [...] Depois há um homem que vem ter comigo para me levar não sei onde. E quando o homem se aproxima eu abraço-o e beijo-o. Intensamente. Demoradamente. Ele corresponde. É um abraço sem fim, de uma intensidade enorme. E vamos, abraçados, para dentro de uma casa.
Depois sonho com o Paulo que diz que se tornou mais sensível às amizades e aos afectos. Estou sentada numa cama a vê-lo aproximar-se de mim. Lembro-me de pensar «como ele tem um ar tão duro». Como se fosse uma pedra.
Depois sonho com o A. que fez uma birra muito grande à Helena. Ele tenta dormir na rua, mas tem tanto frio que não consegue. E primeiro tenta tapar-se com folhas, mas o cacimbo da noite é excessivo. Depois mete-se dentro de água, porque há ali um lagozinho, ou um rio, e a água, apesar de tudo, é menos fria do que a noite. Mas não consegue descansar. E tem cada vez mais frio. E eu penso «estes homens-peixes são mesmo doidos. E teimosos. Outro qualquer morria de pneumonia, este nem vai nem ficar constipado." E penso que o Drew é parecido com o pai. Depois ele mete-se no carro e lá está a Helena, que traz uma grande manta e embrulha-o. E eu fico tão aliviada.
Depois olho para o céu e o céu está cheio de desenhos nas estrelas, e eu quero percebê-los. E são desenhos como nos livros, mas não são desenhos mágicos como já vi noutras alturas.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Eu, a Alexandra, o azeite e os ovos
VÁRIOS, EM AGOSTO 1997Sonho com a Alexandra o sonho do azeite e o sonho das galinhas. Acontece assim: dão-me azeite de qualidade excepcional. Trazem-mo numa garrafa de cinco litros. É daquelas garrafas de água. A Alexandra explica-me: para ser guardado e consumido nas melhores condições é preciso fervê-lo em banho-maria e isso demora sete horas. Além disso temos de o vigiar a operação, para que o azeite não ferva e não se derrame. Pode-se metê-lo no forno, num tabuleiro. Ou em cima, no fogão. Eu coloco o meu num tabuleiro, e vou vigiando a operação, mas a ideia de estar ali sete horas a olhar para aquilo deixa-me muito nervosa. Acho mesmo que é um processo um bocado tonto. A Alexandra diz que já tratou do azeite dela e eu resolvo aldrabar as horas. Penso: «sete é um número mágico, mas três também. Portanto só vou ferver o meu azeite durante três horas.»
Depois noutro sonho oferecem-nos galinhas, a mim e a Alexandra. São mesmo galinhas que cheiram a galinhas. Estão numas gaiolas baixas e apertadas, horríveis, como as que se usam para as levar ao mercado. Ora eu não quero as galinhas para nada, e a Alexandra também não, ainda por cima não sei onde as vou colocar, e não tenciono matá-las. O problema é que já não é possível recusar, porque é uma oferta com muito boa vontade, e é uma oferta que já está consumada.
As galinhas são galinhas poedeiras. Põem ovos muito bons. Penso: vou guardá-las no terraço da minha casa nova, e arranjo-lhes umas gaiolas mais confortáveis e maiores. Assim vamos ter ovos todos os dias.
Depois vejo os ovos: têm uma gema muito amarelinha.
O casamento da Tita
VÁRIOS EM JULHO 1997
Não me lembro quase de nada, mas sei que sonho várias vezes com o casamento da Tita. Uns são sonhos do casamento mas nada está pronto a tempo, e eu ando por ali toda preocupada. Outros são sonhos de casamento como devem ser os sonhos de casamento, cheios de alegria e muito felizes.
Não me lembro quase de nada, mas sei que sonho várias vezes com o casamento da Tita. Uns são sonhos do casamento mas nada está pronto a tempo, e eu ando por ali toda preocupada. Outros são sonhos de casamento como devem ser os sonhos de casamento, cheios de alegria e muito felizes.
Uma encomenda de África
NOITE DE 21 PARA 22 DE JULHO DE 1997Escrevi uma carta a alguém que me responde. Já não estava à espera porque foi uma carta enviada para África, Gabão, talvez, e não conheço a pessoa a quem escrevi. Sei que é um negro e escrevi-lhe porque descobri umas folhas de papel escritas por ele, na parte de fora de um envelope. Essa foi a razão que me levou a contactá-lo.
Recebo uma encomenda. A encomenda traz uma vez a carta e a carta está do lado de fora, e nem tem envelope. Está escrita em folhas de papel reciclado, entaladas nas cordas que prendem o embrulho da encomenda. É uma carta muito agradável. Suponho que quem me escreve está a agradecer-me por qualquer coisa, mas não sei o que é.
Recebo uma encomenda. A encomenda traz uma vez a carta e a carta está do lado de fora, e nem tem envelope. Está escrita em folhas de papel reciclado, entaladas nas cordas que prendem o embrulho da encomenda. É uma carta muito agradável. Suponho que quem me escreve está a agradecer-me por qualquer coisa, mas não sei o que é.
Abrimos a encomenda com algum custo. É um saco de viagem azul. Monta-se e desmonta-se. Não tem nada lá dentro. Depois estamos a separar brinquedos de peluche das crianças. A Tita quer deitar todos fora. Os bonecos estão velhos, a pelúcia está gasta. Mas tenho pena de jogá-los fora.
Depois quero muito ir a Moçambique, mas a viagem é tão cara que decido arranjar bilhetes por razões profissionais e deslocar-me ali em trabalho.
Depois encontro a Alex e ela diz-me que já conseguiu arranjar dinheiro com um anel que penhorou numa Casa da Misericórdia, e eu só não a acompanho porque descubro, já dentro da sala, que a assistente social é a mesma que já me atendeu a mim, e a quem eu mandei várias pessoas amigas.
Depois sonho que estou a fazer um peru assado, e é um peru-borrego. Enorme, tostado, com umas grandes asas. Só que umas vezes já está assado, outras está a marinar e eu estou a pedir que me liguem o forno, e noutras está dentro de água e estou a lavá-lo.
Também sonhei com o Rafael. Inesperadamente estamos ao telefone os dois.
Depois quero muito ir a Moçambique, mas a viagem é tão cara que decido arranjar bilhetes por razões profissionais e deslocar-me ali em trabalho.
Depois encontro a Alex e ela diz-me que já conseguiu arranjar dinheiro com um anel que penhorou numa Casa da Misericórdia, e eu só não a acompanho porque descubro, já dentro da sala, que a assistente social é a mesma que já me atendeu a mim, e a quem eu mandei várias pessoas amigas.
Depois sonho que estou a fazer um peru assado, e é um peru-borrego. Enorme, tostado, com umas grandes asas. Só que umas vezes já está assado, outras está a marinar e eu estou a pedir que me liguem o forno, e noutras está dentro de água e estou a lavá-lo.
Também sonhei com o Rafael. Inesperadamente estamos ao telefone os dois.
Dois ovos no ninho das cegonhas
NOITE DE 12 PARA 13 DE JULHO DE 1997O Joshua perde um dente, curva-se para o chão empoeirado à procura dele. Agora reparo que lhe faltam alguns dentes—penso que são da frente—e acho estranho que ele ande de gatas no chão para encontrar o dente que lhe caiu quando me estava a beijar. Estávamos a combinar um encontro para o futuro.
E agora estou a guiar, vou para uma terra de província onde vou começar o meu novo projecto profissional. E depois estou a dançar ballet, nem sabia que dominava a técnica!É maravilhoso, o meu corpo estremece do esforço e da vibração, porque estou em pontas, a rodopiar, e levanto uma perna, e o meu vestido é vermelho, comprido. Mas não é nenhum espectáculo, sou eu que me estou a divertir. Depois tento dar cambalhotas. A pessoa que está comigo pergunta se faz parte do ballet, e eu digo que não. A seguir quero quero fazer o pino, mas isso já é excessivo, ainda por cima estamos no corredor da Rádio.
E ontem ou há três dias, sonhei com um ninho de cegonhas, e lá dentro tinha dois ovos, e o ninho estava muito alto mas eu baixava o longuíssimo tronco, e esse longuíssimo tronco curvava-se até mim, e eu espreitava, e o ninho era feito como os ninhos são feitos, com palhas e tronquinhos e restos de coisas, e no chão, para o tornar mais confortável, ou quente, havia folhas de jornal, amachucadas para o forrar muito bem, misturadas com os outros materiais, assim à maneira dos ninhos. E eu larguei o ninho e ele subiu, mas em vez de subir disparado ou catapultado no tronco liberto da tensão de eu o segurar—como eu, por um momento cheguei a temer, uma vez que o larguei bruscamente—subiu como se flutuasse, lentamente, de forma a não abanar a estrutura do ninho e não prejudicar os ovos, os dois ovos.
Depois fica lá em cima, muito lá em cima, agitado, suavemente, quase subliminarmente, pela brisa da tarde.
E agora estou a guiar, vou para uma terra de província onde vou começar o meu novo projecto profissional. E depois estou a dançar ballet, nem sabia que dominava a técnica!É maravilhoso, o meu corpo estremece do esforço e da vibração, porque estou em pontas, a rodopiar, e levanto uma perna, e o meu vestido é vermelho, comprido. Mas não é nenhum espectáculo, sou eu que me estou a divertir. Depois tento dar cambalhotas. A pessoa que está comigo pergunta se faz parte do ballet, e eu digo que não. A seguir quero quero fazer o pino, mas isso já é excessivo, ainda por cima estamos no corredor da Rádio.
E ontem ou há três dias, sonhei com um ninho de cegonhas, e lá dentro tinha dois ovos, e o ninho estava muito alto mas eu baixava o longuíssimo tronco, e esse longuíssimo tronco curvava-se até mim, e eu espreitava, e o ninho era feito como os ninhos são feitos, com palhas e tronquinhos e restos de coisas, e no chão, para o tornar mais confortável, ou quente, havia folhas de jornal, amachucadas para o forrar muito bem, misturadas com os outros materiais, assim à maneira dos ninhos. E eu larguei o ninho e ele subiu, mas em vez de subir disparado ou catapultado no tronco liberto da tensão de eu o segurar—como eu, por um momento cheguei a temer, uma vez que o larguei bruscamente—subiu como se flutuasse, lentamente, de forma a não abanar a estrutura do ninho e não prejudicar os ovos, os dois ovos.
Depois fica lá em cima, muito lá em cima, agitado, suavemente, quase subliminarmente, pela brisa da tarde.
M. (análise radiostésica) diz: "novas formas de expressão, catalizar novas estruturas".
Sonho duas vezes com o Paulo
NOITE DE 10 PARA 11 DE JULHO DE 1997
Sonho duas vezes com o Paulo— em noites seguidas. Ele aparece-me, mas jnão me lembro de mais nada a não ser que ele tem muito mais cabelo.
Sonho duas vezes com o Paulo— em noites seguidas. Ele aparece-me, mas jnão me lembro de mais nada a não ser que ele tem muito mais cabelo.
domingo, 6 de janeiro de 2008
É um boneco de madeira

NOITE DE 19 PARA 20 DE JUNHO DE 1997
Estamos, várias mulheres, num centro comercial, à espera de vez para ir à casa-de-banho. O espaço onde estamos à espera é muito apertado. A primeira senhora à minha frente acaba por desistir, a segunda também, e eu fico á frente. Então, de dentro da casa-de-banho, sai finalmente uma mulher. Mas em vez de sair completamente fica à entrada da porta a falar com quem ainda lá está dentro. Depois sai outra mulher. As duas entopem o corredor estreito e curto. E continuam a falar para mais alguém que ainda está dentro da casa-de-banho. Finalmente saem mais duas mulheres, e eu penso, é extraordinário como se meteram tantas dentro de um cubículo tão pequeno. De modo que me venho embora.
Mas antes, acho que foi antes, houve uma passagem de modelos. Estou numa sala grande, e a roupa que desfila não me interessa. Avanço, e vejo, no vão de uma janela o Paulo A., do Porto, e faço-lhe uma grande festa e ele retribui-me. É bom estarmos juntos. Tenho de dar um recado, ou buscar uma coisa, e levo um colar de morangos que era do Paulo, uma vez que eu tinha declinado o que me queriam servir. Até ver, diante dele, aqueles morangos, que comecei a comer, sem resistir. E eram muito bons.
Estamos, várias mulheres, num centro comercial, à espera de vez para ir à casa-de-banho. O espaço onde estamos à espera é muito apertado. A primeira senhora à minha frente acaba por desistir, a segunda também, e eu fico á frente. Então, de dentro da casa-de-banho, sai finalmente uma mulher. Mas em vez de sair completamente fica à entrada da porta a falar com quem ainda lá está dentro. Depois sai outra mulher. As duas entopem o corredor estreito e curto. E continuam a falar para mais alguém que ainda está dentro da casa-de-banho. Finalmente saem mais duas mulheres, e eu penso, é extraordinário como se meteram tantas dentro de um cubículo tão pequeno. De modo que me venho embora.
Mas antes, acho que foi antes, houve uma passagem de modelos. Estou numa sala grande, e a roupa que desfila não me interessa. Avanço, e vejo, no vão de uma janela o Paulo A., do Porto, e faço-lhe uma grande festa e ele retribui-me. É bom estarmos juntos. Tenho de dar um recado, ou buscar uma coisa, e levo um colar de morangos que era do Paulo, uma vez que eu tinha declinado o que me queriam servir. Até ver, diante dele, aqueles morangos, que comecei a comer, sem resistir. E eram muito bons.
Entretanto, nessa casa, há manifestações estranhas, supostamente na cama onde o V .terá morrido. É tudo muito diferente da vida real, mas é mesmo assim. E a Sue, ao entrar no quarto, e diante da cama vazia onde se agitam formas inconsistentes, desfere dois murros e um pontapé, e agarra de repente uma coisa que percebemos ser um boneco. E ela diz: «só podia ser isto, bem desconfiava eu!». E destapa a «coisa». É um boneco, de madeira, quase uma réplica do V., que, ainda durante a vida, se lhe tinha afeiçoado, insuflando-lhe energia ao longo dos tempos da sua longa doença.
A princípio o boneco era de pano, com pernas de trapo muito compridas. A Sue conta que lhe tinha custado 200 escudos, e que «se compravam em todo o lado» e ela comprou-o para fazer companhia ao V. que se começou a afeiçoar-se a ele. A sua cama tinha gavetões secretos, e era aí que ele o guardava. Só que agora, depois do V. ter partido, o boneco continuava lá escondido e saía do esconderijo quando queria. É pois ele o culpado das manifestações estranhas. Eu pergunto-lhe se gosta da Sue e ele responde que não. E a Sue vai buscar um pau com ar de mata-mosquitos e bate-lhe muito. Ele não se queixa, nem grita, nem se mexe, fica só assim imóvel, com um ar muito manhoso, e ela cada vez lhe bate mais, até que para.
E depois estou numa casa grande, no Porto, e vejo uma mesa, grande, na sala, inclinar-se num ângulo esquisito. Tudo estremece. Penso: é um tremor de terra. Digo: não fico dentro de uma casa quando há um tremor de terra. Depois penso: em Lisboa deve ser muito pior. Olho pela janela, está tudo muito calmo, mas vem aí outra réplica pior. A mesa volta a inclinar-se até ao chão e eu saio, procuro uma clareira, porque atrás de mim uma árvore caiu. Vejo as copas das árvores a agitarem-se, os campos a ondularem.
Depois está tudo calmo, e chega um carro que vem pelo caminho que leva à casa. Não me lembro de quem é nem quem vem lá.
A princípio o boneco era de pano, com pernas de trapo muito compridas. A Sue conta que lhe tinha custado 200 escudos, e que «se compravam em todo o lado» e ela comprou-o para fazer companhia ao V. que se começou a afeiçoar-se a ele. A sua cama tinha gavetões secretos, e era aí que ele o guardava. Só que agora, depois do V. ter partido, o boneco continuava lá escondido e saía do esconderijo quando queria. É pois ele o culpado das manifestações estranhas. Eu pergunto-lhe se gosta da Sue e ele responde que não. E a Sue vai buscar um pau com ar de mata-mosquitos e bate-lhe muito. Ele não se queixa, nem grita, nem se mexe, fica só assim imóvel, com um ar muito manhoso, e ela cada vez lhe bate mais, até que para.
E depois estou numa casa grande, no Porto, e vejo uma mesa, grande, na sala, inclinar-se num ângulo esquisito. Tudo estremece. Penso: é um tremor de terra. Digo: não fico dentro de uma casa quando há um tremor de terra. Depois penso: em Lisboa deve ser muito pior. Olho pela janela, está tudo muito calmo, mas vem aí outra réplica pior. A mesa volta a inclinar-se até ao chão e eu saio, procuro uma clareira, porque atrás de mim uma árvore caiu. Vejo as copas das árvores a agitarem-se, os campos a ondularem.
Depois está tudo calmo, e chega um carro que vem pelo caminho que leva à casa. Não me lembro de quem é nem quem vem lá.
Pessoas discutem na noite
NOITE DE 16 PARA 17 DE JUNHO DE 1997
Estou à janela, as persianas estão meio corridas, e lá fora há duas pessoas armadas a disparar. É a M. Leonor e o seu grande amigo António B. Há uma parede perpendicular à janela, e é uma parede estreita, uma espécie de muro que as balas não a conseguem atravessar.
Na mesma noite o sonho repete-se com outras variantes. Ouço barulho e chego à janela. Há um grupo de jovens, barulhentos e agressivos a discutir mesmo em frente de casa. Discutem e riem-se. Uma das raparigas olha para cima e vê-me.
Depois há um sonho em que me rio muito e é divertido, mas já não me lembro.
Estou à janela, as persianas estão meio corridas, e lá fora há duas pessoas armadas a disparar. É a M. Leonor e o seu grande amigo António B. Há uma parede perpendicular à janela, e é uma parede estreita, uma espécie de muro que as balas não a conseguem atravessar.
Na mesma noite o sonho repete-se com outras variantes. Ouço barulho e chego à janela. Há um grupo de jovens, barulhentos e agressivos a discutir mesmo em frente de casa. Discutem e riem-se. Uma das raparigas olha para cima e vê-me.
Depois há um sonho em que me rio muito e é divertido, mas já não me lembro.
Página 52
NOITE DE 12 PARA 13 DE JUNHO DE 1997
Entro numa despensa porque preciso de ovos para fazer um prato com feijão verde cozido às tiras. Quero fazer uma espécie de empadão no forno. A dispensa não é grande, tem uma mesa ao centro e em cima dessa mesa há caixas de ovos. Os ovos são muito grandes, alguns são ovos de duas gemas. Não consigo escolher ovos pequenos.
Depois encontro a P. F. que quer falar comigo. Ela tem o livro na mão. Está do outro lado da rua, e grita: «página 52». E depois eu vejo que a página 52 tem assinaladas várias palavras que se repetem muitas vezes. Não me recordo que palavras são. Depois estou num quarto de hotel, e entra o Richard vem buscar a cópia de um livro para ler, e a cópia está enrolada junto de um candeeiro que está no chão.
Depois estou em viagem pela Alemanha, em Hamburgo. Estou com o Rainer. A Tita e os miúdos também estão connosco.
Entro numa despensa porque preciso de ovos para fazer um prato com feijão verde cozido às tiras. Quero fazer uma espécie de empadão no forno. A dispensa não é grande, tem uma mesa ao centro e em cima dessa mesa há caixas de ovos. Os ovos são muito grandes, alguns são ovos de duas gemas. Não consigo escolher ovos pequenos.
Depois encontro a P. F. que quer falar comigo. Ela tem o livro na mão. Está do outro lado da rua, e grita: «página 52». E depois eu vejo que a página 52 tem assinaladas várias palavras que se repetem muitas vezes. Não me recordo que palavras são. Depois estou num quarto de hotel, e entra o Richard vem buscar a cópia de um livro para ler, e a cópia está enrolada junto de um candeeiro que está no chão.
Depois estou em viagem pela Alemanha, em Hamburgo. Estou com o Rainer. A Tita e os miúdos também estão connosco.
Cães ferozes na noite escura
NOITE DE 9 PARA 10 DE JUNHO DE 1997Vou entrar por um portão gradeado que dá para uma casa num terreno cercado de arame. À minha frente vai um homem. O portão apenas se entreabre. O homem passa e há cães lá dentro, e são cães ferozes, mas não lhe fazem mal. Um deles esgueira-se pela abertura, enquanto eu grito pelo homem. Mas agora o cão está a rosnar nas minhas costas, e o portão fechou-se e o homem desapareceu, e eu tenho medo. Depois percebo que o cão não me vai morder. Contudo põe as patas nos meus ombros e rosna baixinho na minha orelha. É noite e o cão é negro. Depois alguém se aproxima de mim, e estou a falar com as pessoas, e já estou livre do cão.
Nota: O V. morreu hoje.
sábado, 5 de janeiro de 2008
Uma floresta. Uma floresta muito grande.
NOITE DE 9 PARA 10 DE JUNHO 1997Uma floresta. Uma floresta muito grande. Alguém fala sobre o perigo dos fogos, e essa palestra é acompanhada de filmes que mostram o fogo a devorar florestas inteiras. Nós estamos dentro do filme. Depois alguém mostra como é possível evitar essa catástrofe, e essa catástrofe só é possível evitar se as florestas estiverem irrigadas por canais de água muito abundante. É como se se abrissem estradas de água dentro da floresta, e cheira a húmus, e há folhas a boiar naqueles canais, mas a água é viva, escorre, vai para qualquer lado. Assim, dizem, o fogo perde o seu poder destruidor.
Andamos e vamos ter a um local, dentro daquela floresta, onde há um lago. É um lago pequeno. Alguém diz que naquele sítio há a maior rede freática daquela floresta, e que se fosse drenada dali a água bastava para proteger todas as árvores, toda a vida. Os donos daquele sítio, contudo, não cedem autorização para o governo perfurar e extrair água do terreno deles.
Vejo uma casa de madeira, e há uma grande pilha de toros arrumada ao lado da casa. Ali vive uma mulher. Mal conseguimos falar com ela. Tentamos falar com o homem. Parece de ascendência estrangeira, uma personagem de filme de colonos norte-americanos. O homem está a fumar um cachimbo, sentado numa cadeira de baloiço. Tem cabelo branco, às farripas, e um ar ausente.
Depois há duas raparigas novas, muito novas, a tomar banho no lago, e é um lago-tanque. Elas têm cabelos muito compridos. Uma cabelos loiros, outra cabelos negros. Mergulham ao mesmo tempo, uma voltada para a outra, de frente, atirando os cabelos para trás e depois para a frente, de modo a não se enrolarem neles como se fossem algas. Os cabelos, por terem sido molhados primeiro quando elas atiram a cabeça para trás, não se enrolam em volta dos seus pescoços.
Os traficantes de Segredos
NOITE DE 30 DE MAIO PARA 1 DE JUNHO DE 1997
Tenho de ir roubar uma ampola de um medicamento secreto e infalível para a cura de uma doença ainda sem cura conhecida. Ninguém pode saber dos meus planos. Vou num transporte público, aberto, parece um eléctrico. O eléctrico parece um eléctrico antigo, dos tempos da implantação da Republica. Chego ao local onde se encontra guardada a ampola. Era um palácio, agora é uma repartição pública, um organismo do Estado. Encontro lá dentro a M. Velha. Também encontro negros, são antigos escravos. Lá dentro estão três políticos, um deles é o M. R. O papel deles é impedir que o segredo seja divulgado. São traficantes de segredos. Percebo que tenho de os atacar e neutralizar.
Agora tenho a ampola comigo, mas eles vão tentar impedir-me de a utilizar.
Agrido-os. Tenho um ferro na mão. Não quero matá-los, quero desmaiá-los. A primeira pancada que dou na cabeça de um deles não faz o efeito que estamos habituados a ver nos filmes, porque ele continua de pé, a avançar para mim. Curiosamente não me quer agredir. Só quer impedir-me de ter a ampola. Peço ajuda a um dos antigos escravos. O facto é que, a partir de certa altura, os três políticos estão no chão de uma espécie de salão nobre, meio desmantelado.
Injecto-me o conteúdo da ampola, em pequenas picadas subcutâneas, a mim e a dez negros que estão atacados pelo mal.
Depois digo que vou investir o dinheiro que puder no tratamento dos negros, e sei que vou gastar dez contos nisso, e a Maria Leonor diz «que disparate gastar dinheiro com umas pessoas que estão doentes e nem sequer é garantido que se salvem. Nem devias ter gasto a ampola com eles.»Não lhe presto atenção.
Depois desço as escadas porque preciso de me pôr a andar rapidamente sem ser descoberta. Quando chego cá abaixo peço ao negro que anda por ali que limpe todos os vestígios da minha passagem, sobretudo as impressões digitais. Ele promete que o vai fazer.
Tenho de ir roubar uma ampola de um medicamento secreto e infalível para a cura de uma doença ainda sem cura conhecida. Ninguém pode saber dos meus planos. Vou num transporte público, aberto, parece um eléctrico. O eléctrico parece um eléctrico antigo, dos tempos da implantação da Republica. Chego ao local onde se encontra guardada a ampola. Era um palácio, agora é uma repartição pública, um organismo do Estado. Encontro lá dentro a M. Velha. Também encontro negros, são antigos escravos. Lá dentro estão três políticos, um deles é o M. R. O papel deles é impedir que o segredo seja divulgado. São traficantes de segredos. Percebo que tenho de os atacar e neutralizar.
Agora tenho a ampola comigo, mas eles vão tentar impedir-me de a utilizar.
Agrido-os. Tenho um ferro na mão. Não quero matá-los, quero desmaiá-los. A primeira pancada que dou na cabeça de um deles não faz o efeito que estamos habituados a ver nos filmes, porque ele continua de pé, a avançar para mim. Curiosamente não me quer agredir. Só quer impedir-me de ter a ampola. Peço ajuda a um dos antigos escravos. O facto é que, a partir de certa altura, os três políticos estão no chão de uma espécie de salão nobre, meio desmantelado.
Injecto-me o conteúdo da ampola, em pequenas picadas subcutâneas, a mim e a dez negros que estão atacados pelo mal.
Depois digo que vou investir o dinheiro que puder no tratamento dos negros, e sei que vou gastar dez contos nisso, e a Maria Leonor diz «que disparate gastar dinheiro com umas pessoas que estão doentes e nem sequer é garantido que se salvem. Nem devias ter gasto a ampola com eles.»Não lhe presto atenção.
Depois desço as escadas porque preciso de me pôr a andar rapidamente sem ser descoberta. Quando chego cá abaixo peço ao negro que anda por ali que limpe todos os vestígios da minha passagem, sobretudo as impressões digitais. Ele promete que o vai fazer.
Onde começou a revolução
NOITE DE 27 PARA 28 DE MAIO DE 1997
Só me lembro da entrada da casa. O pai não está, mas eu lembro-me de ele me ter dito que guardava a chave do lado de dentro do portão. Procuro um tapete, mas o tapete está em cima da terra, e tenho que remexer o pó para descobrir que, de facto, a chave continua ali. Também descubro coisas a que já não dou importância. Um alfinete que trouxe de Cuba. Tem a ver com Santiago de Cuba, onde começou a revolução.
Só me lembro da entrada da casa. O pai não está, mas eu lembro-me de ele me ter dito que guardava a chave do lado de dentro do portão. Procuro um tapete, mas o tapete está em cima da terra, e tenho que remexer o pó para descobrir que, de facto, a chave continua ali. Também descubro coisas a que já não dou importância. Um alfinete que trouxe de Cuba. Tem a ver com Santiago de Cuba, onde começou a revolução.
domingo, 23 de dezembro de 2007
o tubarão pequeno
NOITE DE 26 PARA 27 DE MAIO DE 1997
Praia, águas, coisas que não recordo. A certa altura estou num cais, ou num paredão. Há muita gente ali. Homens-rãs com projectores, polícia marítima. Parece a filmagem de um episódio para o cinema ou para a televisão. Penso que procuram um cadáver. Alguém morreu ou desapareceu. Ouve-se dizer:«Deve estar próximo, porque cheira.»As águas não são límpidas. Acho que é por ser de noite. Tento atravessá-las com os meus olhos, mas só vejo sombras. Comigo está uma menina. Tem dez anos.
Alguém, agarra um peixe e parece um tubarão. É um tubarão pequeno. Sacode-se e agita-se nas mãos que o trazem da água para a terra, e é então que a menina o colhe daquelas mãos que o tiraram da água para as suas, como se fosse um fruto que se apanha. O tubarão aquieta-se.
Praia, águas, coisas que não recordo. A certa altura estou num cais, ou num paredão. Há muita gente ali. Homens-rãs com projectores, polícia marítima. Parece a filmagem de um episódio para o cinema ou para a televisão. Penso que procuram um cadáver. Alguém morreu ou desapareceu. Ouve-se dizer:«Deve estar próximo, porque cheira.»As águas não são límpidas. Acho que é por ser de noite. Tento atravessá-las com os meus olhos, mas só vejo sombras. Comigo está uma menina. Tem dez anos.
Alguém, agarra um peixe e parece um tubarão. É um tubarão pequeno. Sacode-se e agita-se nas mãos que o trazem da água para a terra, e é então que a menina o colhe daquelas mãos que o tiraram da água para as suas, como se fosse um fruto que se apanha. O tubarão aquieta-se.
O ovo da serpente
NOITE DE 18 PARA 19 DE MAIO DE 1997Estou num quarto, e acho que é um quarto de hotel, e acho que estou com o Drew e vamos tomar chá. O chá já está feito, e ele serve-se num copo de vidro grosso e arranja para mim um copo parecido mas é de um vidro mais fino. Eu peço um copo igual. Não há copos exactamente iguais, mas ele arranja-me um parecido com um pires de vidro muito grosso, e eu fico satisfeita. Depois ele estende-me uma folhas, penso que de menta, e diz que são para perfumar o chá. Estendo-as com cuidado e elas cobrem toda a superfície da infusão. Percebo que têm pó. Pergunto se as lavou. O pó, com o calor, torna-se mais evidente. Dou-lhe o resto das folhas para as lavar. E resolvo tirar as minhas, com cuidado, para as sacudir e lavar. Percebo que o calor fez eclodir ou evidenciar uma série de lagartas, muito verdes. Sacudo-as e caiem ao chão. Depois fica preso nas folhas um ovo de serpente, minúsculo. É absolutamente transparente. Dentro do ovo a serpente está completamente formada, e agita a língua bífida e os seus olhos brilham intensamente, ferozmente. É uma serpente minúscula, mas está pronta a atacar. Penso que tem uma cauda com ferrão. Pego na folha com cuidado. Mostro a sua morfologia a alguém, e explico-lhe que é uma serpente fêmea, e que subjacente ao seu corpo filiforme, translúcido, há braços e formas femininas que são envolvidos na uniformidade do seu corpo. Como se, e nas suas remotas origens, antes de ser serpente, tivesse sido mulher. Depois saio, e o ovo fica preso a um biombo. Quando volto, com dois amigos meus, um acho que é o P.M., para lhes mostrar aquele ovo, já não encontro nada.
Se estivesse aquio Peter Pan e a Fada Sininho
NOITE DE 6 PARA 7 DE MAIO DE 1997É preciso entrar dentro de uma casa mas o acesso só é possível pela janela iluminada que se vê do chão, e através de uma escada muito precária encostada ao muro e tendo um banco como base de apoio. Há várias pessoas para entrar. Organizo-as da melhor forma para não se perder tempo. E guardo-me para o fim para ter a certeza de que todos entram. Vejo uma tesoura e uma faca e sei que é preciso levá-las, mas como também tenho um saco está a ser difícil subir naquelas condições. Entrego aqueles instrumentos aos que já estão a meio da escada. Atiram-nos pela janela, descrevendo um arco no ar e cortando o rectângulo iluminado. Depois só faltam subir uma menina e eu. Quando ela está quase a conseguir vai deslizando pela parede e não consegue. Empurro-a com força e ela diz-me: «Se estivesse aqui o Peter Pan e a Fada Sininho ainda era capaz.» Chamo o Drew com toda a força. E a janela já não está iluminada, já é uma claridade difusa que se espalha por todo o sonho, como se estivesse a amanhecer.
E agora já não quero subir a uma janela, porque estou a descer a uma cave. Estou à espera que me chamem. Há duas raparigas muito novas que vêm ter comigo ao quarto da cave onde aguardo. Estão nuas. E há um casal perseguido pela polícia porque tentou matar um bebé. Esse casal já foi apanhado uma vez, mas libertaram-nos com bebé e tudo. Agora estou à porta a ver se os apanho e o Drew está no corredor e há mais gente aguardando, quando passa por nós um casal, mas é tão diferente do que estava à espera que ninguém lhes liga. Fico muito incomodada, porque, apesar de diferentes, eu sinto que são os mesmos. Ela empurra uma cadeira de rodas e tem uma touca de enfermeira, ele está na cadeira de rodas. O casal que estávamos à espera não coincide com esta descrição. Mas eu avanço, incomodada, até porque oiço um bebé a chorar, e então há um homem da polícia que descobre um bebé quase sufocado, porque eles estavam a tapar-lhe a boca com as mãos para ele não respirar. E é um bebé moreno e forte e agora vê-se que está de boa saúde. E eles fugiram e eu fiquei indignada. Depois vou a persegui-los, entro num Centro Comercial, num dos níveis mais elevados, e as escadas rolantes são lindíssimas e brilham. E são uma espécie de montanha russa. E alguém me diz que não faz mal não ter dinheiro porque naquelas escadas ganha-se crédito. Como se, subi-las ou descê-las energizasse a nossa conta bancária.
E agora já não quero subir a uma janela, porque estou a descer a uma cave. Estou à espera que me chamem. Há duas raparigas muito novas que vêm ter comigo ao quarto da cave onde aguardo. Estão nuas. E há um casal perseguido pela polícia porque tentou matar um bebé. Esse casal já foi apanhado uma vez, mas libertaram-nos com bebé e tudo. Agora estou à porta a ver se os apanho e o Drew está no corredor e há mais gente aguardando, quando passa por nós um casal, mas é tão diferente do que estava à espera que ninguém lhes liga. Fico muito incomodada, porque, apesar de diferentes, eu sinto que são os mesmos. Ela empurra uma cadeira de rodas e tem uma touca de enfermeira, ele está na cadeira de rodas. O casal que estávamos à espera não coincide com esta descrição. Mas eu avanço, incomodada, até porque oiço um bebé a chorar, e então há um homem da polícia que descobre um bebé quase sufocado, porque eles estavam a tapar-lhe a boca com as mãos para ele não respirar. E é um bebé moreno e forte e agora vê-se que está de boa saúde. E eles fugiram e eu fiquei indignada. Depois vou a persegui-los, entro num Centro Comercial, num dos níveis mais elevados, e as escadas rolantes são lindíssimas e brilham. E são uma espécie de montanha russa. E alguém me diz que não faz mal não ter dinheiro porque naquelas escadas ganha-se crédito. Como se, subi-las ou descê-las energizasse a nossa conta bancária.
Ofereceram-me um automóvel
NOITE DE 16 PARA 17 DE ABRIL DE 1997
Ofereceram-me um automóvel. Parece um rebuçado. É todo branco, mas tem uns pormenores em verde e noutra cor que não me lembro, mas são cores translúcidas, e esses pormenores são uma espécie de apêndice do carro, que o tornam especial. Também me lembro do E. B. que já morreu e foi um colega e amigo há muitos anos. E a mulher dele também entra. Não é suposto ela aparecer, e aliás ele estava a atirar-se a mim. Parece que ela chega para controlar o marido, mas eu não me importo porque também a conheço. E vejo, na rua, o meu amigo João Carlos, que já não vejo há muito tempo, e digo, olha, é mesmo ele! E o João levanta a cabeça e vê-me, e eu mando-o subir, porque tenho mesmo vontade de saber como é que ele está, e se continua em Angola, e se a história dele com a tal rapariga correu bem, e tal.
Ofereceram-me um automóvel. Parece um rebuçado. É todo branco, mas tem uns pormenores em verde e noutra cor que não me lembro, mas são cores translúcidas, e esses pormenores são uma espécie de apêndice do carro, que o tornam especial. Também me lembro do E. B. que já morreu e foi um colega e amigo há muitos anos. E a mulher dele também entra. Não é suposto ela aparecer, e aliás ele estava a atirar-se a mim. Parece que ela chega para controlar o marido, mas eu não me importo porque também a conheço. E vejo, na rua, o meu amigo João Carlos, que já não vejo há muito tempo, e digo, olha, é mesmo ele! E o João levanta a cabeça e vê-me, e eu mando-o subir, porque tenho mesmo vontade de saber como é que ele está, e se continua em Angola, e se a história dele com a tal rapariga correu bem, e tal.
domingo, 15 de abril de 2007
Eu e a Xana na Muralha da China
Uma viagem à China. Estou com a Alexandra. Às vezes estou com outras pessoas. Apanhamos um comboio, não tem portas que se fecham, é um comboio parecido com os antigos eléctricos do princípio do século XX. É um comboio pequeno, e temos de mudar várias vezes para seguirmos o nosso percurso. Os comboios são cada vez mais pequenos. Numa das paragens saímos, porque não temos bem a certeza de qual devemos apanhar a seguir. E vamos conhecer melhor a China, embrenhando-nos pelo território. Há uma vilazinha de ruas íngremes, bem iluminada. Um grupo de crianças desce as ruas, cantando. Estão vestidos e pintados como figurantes de um filme, ou como atracções turísticas. Penso: gostava de conhecer uma China mais autêntica. Afinal é como na Europa, um jogo para turistas. Nada disto é autêntico.
E depois estamos a subir pelas escadas gastas e milenares da Grande Muralha, e há montanhas desertas a toda a volta, e os degraus são altos e estão esboroados dos séculos. Atrás de nós vêm dois rapazes, dois estrangeiros como nós. Vestidos de caqui, com mochilas. As pernas pesam, cada passo custa, como se os degraus aumentassem de tamanho. Sentamo-nos um pouco a olhar as estrelas. Encosto-me para trás, e olho longamente para o céu. É o céu de outro lado do mundo. Tem estrelas que nunca vi. É um céu diferente. E as estrelas unem-se pelos seus raios de luz, e fazem desenhos lindíssimos, como começam a ficar cada vez mais nítidos à medida que vou olhado. E as constelações desenham dragões no céu da China. E eu digo:
-- Alexandra vê! O céu da Europa tem ursos, sagitários, caçadores, peixes, o céu da China tem dragões que cospem luz, e eu consigo vê-los, e no céu da Europa eu já não consigo ver os peixes, os caçadores e as ursas.
Mas depois é preciso recomeçar a viagem.
Depois estamos numa pequena vila, muitíssimo iluminada, de algum modo também um cenário de turismo, com muitos cafés e restaurantes chineses. Quero comer mas tenho medo de ter nojo, porque as coisas de comer na China são uma grande nojice. E pergunto á Alexandra pelos tais rapazes que vinham atrás de nós e que depois nos passaram à frente, porque talvez soubessem alguma coisa daquela terra, e ela respondeu «estás doida? eles ...» e já não me lembro das palavras mas o sentido é que eles eram uma espécie de neo-fricks, que viam esoterismo e cabalas em todos os sinais, e eram meios destravados, e muito pobres, porque estavam a contar tostões.
Seja como for entramos no restaurante chinês, e era um restaurante todo aberto sobre a rua, com um balcão enorme dentro do qual estava um chinês a fazer comida chinesa. Mas também há coisas europeias, embrulhadas. E como tenho medo que me dêm lagartixas disfarçadas de qualquer coisa resolvo pedir um bolo. Mas quero um bolo embrulhado porque podem andar moscas a passar por cima dos outros. E quero um bolicao, mas estão todos mais ou menos abertos. E não me decido. Então vejo no centro do restaurante uma barraquinha de cachorros quentes, com um homem que não é chinês mas vive na China há tanto tempo que já é porco e tudo. Tem as mãos embodegadas. E fala inglês. E é um bocado gordo. E pago-lhe os cachorros quentes que vêm com batatas fritas palha, mas penso, que chatice, com esta história das viagens temos que comer tanta coisa que faz engordar.
Depois a Alexandra chama-me a atenção e voltamos a entrar no café, e agora eu vejo outro espaço, e é lindíssimo, porque tem muitas coisas de arte, objectos antigos, uma luz suave, muito suave, e há uma marioneta quase à entrada, e é um boneco de madeira com um ar perturbante. E eu não tinha visto nada da primeira vez.
E estamos perto da estação de comboio. E é preciso ir apanhar o comboio.
Imagem: http://br.geocities.com/mestrejair/china.htm
Mas depois é preciso recomeçar a viagem.
Depois estamos numa pequena vila, muitíssimo iluminada, de algum modo também um cenário de turismo, com muitos cafés e restaurantes chineses. Quero comer mas tenho medo de ter nojo, porque as coisas de comer na China são uma grande nojice. E pergunto á Alexandra pelos tais rapazes que vinham atrás de nós e que depois nos passaram à frente, porque talvez soubessem alguma coisa daquela terra, e ela respondeu «estás doida? eles ...» e já não me lembro das palavras mas o sentido é que eles eram uma espécie de neo-fricks, que viam esoterismo e cabalas em todos os sinais, e eram meios destravados, e muito pobres, porque estavam a contar tostões.
Seja como for entramos no restaurante chinês, e era um restaurante todo aberto sobre a rua, com um balcão enorme dentro do qual estava um chinês a fazer comida chinesa. Mas também há coisas europeias, embrulhadas. E como tenho medo que me dêm lagartixas disfarçadas de qualquer coisa resolvo pedir um bolo. Mas quero um bolo embrulhado porque podem andar moscas a passar por cima dos outros. E quero um bolicao, mas estão todos mais ou menos abertos. E não me decido. Então vejo no centro do restaurante uma barraquinha de cachorros quentes, com um homem que não é chinês mas vive na China há tanto tempo que já é porco e tudo. Tem as mãos embodegadas. E fala inglês. E é um bocado gordo. E pago-lhe os cachorros quentes que vêm com batatas fritas palha, mas penso, que chatice, com esta história das viagens temos que comer tanta coisa que faz engordar.
Depois a Alexandra chama-me a atenção e voltamos a entrar no café, e agora eu vejo outro espaço, e é lindíssimo, porque tem muitas coisas de arte, objectos antigos, uma luz suave, muito suave, e há uma marioneta quase à entrada, e é um boneco de madeira com um ar perturbante. E eu não tinha visto nada da primeira vez.
E estamos perto da estação de comboio. E é preciso ir apanhar o comboio.
Imagem: http://br.geocities.com/mestrejair/china.htm
E os dois eram o Drew e o Drew é só um
NOITE DE 3 PARA 4 DE ABRIL DE 1997
Estava dentro de uma casa grande e vieram dizer-me que o Drew estava lá fora para falar comigo e tinha vindo a correr. E fui ter com ele e estavam lá fora dois rapazes. E eram os dois magros, e os dois eram o Drew, e isto era normal. Mas comecei a ficar confusa e a tentar lembrar-me de qualquer coisa, e de repente lembrei-me. E lembrei-me que o Drew é só um. E fiquei muito perturbada e comecei a dizer-lhe isto, ou ia dizer. E até quase que acordei com o susto, só para me lembrar que não me podia esquecer disto.
E depois estava com o Eduardo, e ia jantar com ele, mas não era nesse dia, ou nessa noite. E estava mais gente e estava toda a gente bem disposta. E dentro dessa casa, que era um hotel, mas era um hotel familiar, estava a Leonor a tomar conta de uma criança, e era uma criança que ia ser operada aos rins. E ela estava a confortá-la, e a tranquilizar a criança. E eu fiquei espantada por não estarem ali os pais da menina, e ela disse-me que tinham viajado. E depois quando olhei para elas, as duas estavam a dormir. A M. Leonor tinha a boca muito aberta, e via-se que tinha poucos dentes. E a criança estava a dormir no colo dela.
E antes eu estava a olhar para um recinto onde estavam animais. E num recinto estava uma coisa estranha. Era um tubo de vidro grosso, muito grande, onde havia um animal. Era um peixe. Melhor, era uma espécie de vida anterior aos peixes. Um invertebrado, sem olhos, um animal perigoso das grandes profundidades. Uma espécie de moreia, com cor de ténia. E uma boca sem dentes que se abria a respirar dentro daquele tubo de aquário, e a boca era perigosa, porque não tinha dentes mas funcionava como uma ventosa. E tinha uma etiqueta com a marca e o preço, era esquisito. E depois olhei melhor e vi que afinal tinha olhos. E estava ali todo fechado dentro daquele espaço, e não se podia mexer. E afinal parecia já um mamífero. E era uma foca, ou tinha focinho de foca, ali aprisionado. E deu-me pena. E depois já não era uma foca, era um cão, e estava cá fora. E era um cão ferido. Ou doente.
Estava dentro de uma casa grande e vieram dizer-me que o Drew estava lá fora para falar comigo e tinha vindo a correr. E fui ter com ele e estavam lá fora dois rapazes. E eram os dois magros, e os dois eram o Drew, e isto era normal. Mas comecei a ficar confusa e a tentar lembrar-me de qualquer coisa, e de repente lembrei-me. E lembrei-me que o Drew é só um. E fiquei muito perturbada e comecei a dizer-lhe isto, ou ia dizer. E até quase que acordei com o susto, só para me lembrar que não me podia esquecer disto.
E depois estava com o Eduardo, e ia jantar com ele, mas não era nesse dia, ou nessa noite. E estava mais gente e estava toda a gente bem disposta. E dentro dessa casa, que era um hotel, mas era um hotel familiar, estava a Leonor a tomar conta de uma criança, e era uma criança que ia ser operada aos rins. E ela estava a confortá-la, e a tranquilizar a criança. E eu fiquei espantada por não estarem ali os pais da menina, e ela disse-me que tinham viajado. E depois quando olhei para elas, as duas estavam a dormir. A M. Leonor tinha a boca muito aberta, e via-se que tinha poucos dentes. E a criança estava a dormir no colo dela.
E antes eu estava a olhar para um recinto onde estavam animais. E num recinto estava uma coisa estranha. Era um tubo de vidro grosso, muito grande, onde havia um animal. Era um peixe. Melhor, era uma espécie de vida anterior aos peixes. Um invertebrado, sem olhos, um animal perigoso das grandes profundidades. Uma espécie de moreia, com cor de ténia. E uma boca sem dentes que se abria a respirar dentro daquele tubo de aquário, e a boca era perigosa, porque não tinha dentes mas funcionava como uma ventosa. E tinha uma etiqueta com a marca e o preço, era esquisito. E depois olhei melhor e vi que afinal tinha olhos. E estava ali todo fechado dentro daquele espaço, e não se podia mexer. E afinal parecia já um mamífero. E era uma foca, ou tinha focinho de foca, ali aprisionado. E deu-me pena. E depois já não era uma foca, era um cão, e estava cá fora. E era um cão ferido. Ou doente.
Como um gato sobre o muro
NOITE DE 15 PARA 16 DE MARÇO DE 1997
Estou na rua ao lado da casa do meu pai. Não vim de lá, nem vou para lá. Estou só a andar ali. A certa altura passo para cima do muro de granito que delimita os jardins da casa que liga com o jardim da nossa casa. O muro é estreito. Penso: se fosse gato andava bem aqui em cima. Sinto-me no corpo de um gato. Sinto as patas aveludadas do gato que têm umas almofadinhas para amortecer as asperezas e até os pedaços de vidro que as pessoas colam nos muros para não serem assaltadas, penso. Como um gato, ando até ao fim do muro. Sem nunca me enganar. Depois estou num canto do jardim. Ali, sob a terra húmida, está alguém ou alguma coisa enterrada.
Levo um ovo cozido e cebola crua, às rodelas. Acho que é para deitar em cima da terra. Em vez disso, como as duas coisas. Os anéis da cebola e o ovo, ás dentadas.
Estou na rua ao lado da casa do meu pai. Não vim de lá, nem vou para lá. Estou só a andar ali. A certa altura passo para cima do muro de granito que delimita os jardins da casa que liga com o jardim da nossa casa. O muro é estreito. Penso: se fosse gato andava bem aqui em cima. Sinto-me no corpo de um gato. Sinto as patas aveludadas do gato que têm umas almofadinhas para amortecer as asperezas e até os pedaços de vidro que as pessoas colam nos muros para não serem assaltadas, penso. Como um gato, ando até ao fim do muro. Sem nunca me enganar. Depois estou num canto do jardim. Ali, sob a terra húmida, está alguém ou alguma coisa enterrada.
Levo um ovo cozido e cebola crua, às rodelas. Acho que é para deitar em cima da terra. Em vez disso, como as duas coisas. Os anéis da cebola e o ovo, ás dentadas.
domingo, 8 de abril de 2007
Há vestidos de baile, adereços e máscaras de Carnaval
Há uma estrada larga por onde vêm a fugir, como que em debandada, várias pessoas. Eu vou para o sítio de onde elas vêm a fugir. Avisam-me que aquilo está prestes a explodir, mas eu tenho mesmo de lá voltar.
Na estrada vejo homens, aos pares ou sozinhos, e saio para os campos, tentando passar despercebida por entre as sebes esparsas que delimitam a estrada, porque tenho medo deles. E quando chego ao meu destino descubro que ainda há lá muita gente. Gente a quem eu estou ligada e que de algum modo tenho de avisar, e pressionar a saída. Só que as pessoas não me prestam atenção. Estão muito ocupadas, como se estivessem a acabar de preparar uma festa, porque há vestidos de baile, e coisas de máscaras, parece-me. Ou pelo menos alguns de vestidos são para uma festa de Carnaval se bem me recordo, por causa dos enfeites.
E então vejo o Rob e ele precisa de falar comigo. Depois entro numa sala, que parece uma loja de centro comercial, extremamente pequena e atulhada, mas muito bem organizada. E há uns papéis pendurados numa corda pouco acima de mim. Espreito para ver o que dizem os papéis e o Rob aproxima-se e pergunta-me se já sei que aqueles papéis pertencem a dois baralhos de tarô que tem para me oferecer. Há sempre muita gente à nossa volta. E há muita luz, mas é luz eléctrica, luz de iluminação interior, luz artificial.
O velório é muito estranho porque é o meu próprio velório
NOITE DE 12 PARA 13 DE MARÇO DE 1997Vou a casa de um colega meu que é fotógrafo. Não sei se vou ali expressamente para o ver, se dou com ele por acaso quando tocamos à porta e é ele que abre. Ele vive numa casa que é, também, laboratório e escritório de fotografia. É um prédio sinuoso, cujas casas comunicam umas com as outras por corredores labirínticos. Nós queremos sair para tomar um café e ele explica que não é preciso ir à rua. Ao longo do corredor dispõe-se uma espécie de Centro Comercial, só que não é fácil aceder ao lugar para onde queremos ir. Penso que começo por entrar num café, o mais fácil de aceder, mas não gosto do aspecto. E penso que esse meu colega fotógrafo está a trabalhar. Parece-me que é para a televisão. E estamos fora de Lisboa.
Depois há um velório. É fora dali. Há casas e pátios, numa área grande, e dispostas em edifícios que, de alguma maneira, podem recordar a arquitectura de um quartel. O velório é muito estranho, porque é o meu próprio velório. Uma mulher horrível que eu conheço organizou tudo. Só estamos à espera de um caixão para eu me enfiar lá dentro. Já lá está bastante gente. São pessoas de idade sentadas em cadeiras ao longo das paredes da sala
Como a situação me incomoda saio para o pátio , e volto para o lugar de início, o sítio onde encontrei a casa do meu amigo fotógrafo. A geografia urbana do lugar mudou. Agora há pequenas moradias a ladear uma rua levemente íngreme, uma espécie de arquitectura algarvia de aldeamento de férias, misturada com uma arquitectura suburbana. Numa das casas há uma antena parabólica que gira suavemente apontando para o lugar de onde eu vim. Há mais antenas, mas aquela parece-me a mais eficaz, porque as outras estão paradas e são maiores.
Acho que estou com a Susana. Falo com ela sobre o absurdo do papel que é suposto ir representar. Digo-lhe que aquilo que parece uma espécie de partida mediática. E então descubro. Foi tudo arranjado para um programa do qual eu não tenho a menor consciência. Ou não tinha, porque agora tudo se encaixa como num puzzle, e sinto uma irritação tremenda e um alivio medonho, porque não há nada, nem ninguém, agora, que me faça voltar para aquele lugar idiota. Recordo-me agora que na sala onde já estava tudo a postos, menos o caixão porque faltava eu lá dentro, havia uma espécie de candeeiro que escondia uma câmara de filmar.
E na rua, a antena continua a girar lentamente como um olho maldoso que aponta para nós.
Depois sonho com um desvio de avião. Estamos todos apertados dentro de uma carlinga, que apesar de tudo é grande como uma casa, com vários quartos. E eu procuro a forma de sair dali. Quero descobrir os meus aliados naturais. Há coisas que é preciso preciso revelar. Caixas, embrulhos.
Uma rua que desce até ao Cais do Sodré
NOITE DE 7 PARA 8 DE MARÇO DE 1997Ouvi, distintamente, a voz de Joshua. Eu atendo o telefone e ele fala. Não consigo responder-lhe. Depois, ou antes, estou numa rua íngreme. É uma rua que desce até ao Cais do Sodré. Vou ter com um colega meu. Depois começa a chover. É uma chuva miudinha. Uma chuva molha-tolos. E quando chego ao Cais do Sodré resolvo voltar para trás porque não me quero molhar. As ruas estão desertas, ou pouco habitadas, são ruas de uma cidade que ainda está em construção. A meio caminho há um homem que se junta a mim, e é um homem de leis. É moreno e tem cabelo preto, liso. Gosto da companhia dele. Subitamente atravessa-nos à frente uma garotinha nua, com uma chupeta na boca e um boneco na mão. Parece abandonada, mas está a sorrir. E eu penso: será que vou ter de tomar conta dela? O homem agarra nela e avançamos uns metros, e ali há casas. São casas de pessoas modestas, uma espécie de ilhas. As mulheres têm aventais postos, e falam umas com as outras nos pátios comuns. Uma delas adianta-se. A criança é dela. Sinto um profundo alívio. O homem admoesta-a por ter descuidado a filha. A menina tem três anos, mas é tão pequena como um bebé de meses. No entanto parece saudável, porque é toda proporcionada. E mexe-se com alegria. Vai, pelo pé dela para dentro da sua casa. A mãe sorri, e torce o avental. E andamos mais. E agora ele tem o braço por cima do meu ombro. E a minha mão caída toca na dele, e ele agarra-me os dedos. Só a ponta dos dedos. É muito bom. Entramos para dentro de um hotel. Ele vive naquele hotel quando está em Lisboa. Vou para o quarto com ele e o quarto tem gente. Ele chama o empregado do Hotel e censura-o asperamente. Aquelas pessoas não deviam estar ali, diz ele. Ouve-se barulho, eles vêm a sair.
Como não quero que me vejam, afasto-me e entro dentro de um quarto que está em obras. É um quarto muito grande que faz um L, e tem móveis empilhados porque está em obras. E em cima de uma cómoda, que tem uma mesa de cabeceira por cima, espreitam revistas. E há dois pares de caixas de óculos, vazias. A porta do quarto é envidraçada, com vidros pequenos, biselados. O casal que saíu do quarto do homem desce por uma escada, em frente. A rapariga volta atrás para me ver. Ela aproxima-me, mas não muito. Não tenho a certeza se me consegue ver bem. Aliás é só nessa altura que percebo que a porta é envidraçada. Ouço-a rir enquanto se volta a reunir ao namorado, e desaparecem na curva da escada. Volto para junto do homem. O quarto é parecido com o outro. Também tem ar de quarto em obras. Faz um L. A minha cama é à entrada. Ele está no centro do quarto.
quarta-feira, 4 de abril de 2007
Começar de novo depois do Apocalipse
NOITE DE 6 PARA 7 DE MARÇO DE 1997
Um prédio alto. Estou no último andar. Há muita gente. Precisamos de apanhar o elevador para descer. Ali, já fizemos o que tínhamos que fazer. Há vários elevadores. Está toda a gente com pressa. Aproximo-me do que acaba de parar mas passa muita gente à minha frente e o elevador fica tão cheio que tenho medo de entrar.
As portas fecham-se. O chão, todo ele, começa a tremer. É um tremor de terra. Precisamos de sair dali, mas não podemos ir de elevador. Agora não pdemos ir de elevador mesmo que houvesse um, porque ainda é mais perigoso.
E aconteceu um cataclismo em toda a Terra. Um apocalipse. Agora estamos num pedaço de terra seca, rodeados de extensos lençóis de água. O velho mundo foi submerso. Poucas pessoas escaparam. E tudo o que antigamente tinha valor agora não vale nada. O dinheiro, por exemplo. Percebo que não tenho nenhum, mas também que valor atribuir-lhe agora? Fico com pena por causa dos livros. Parece que salvei um. [...] Mas que importância tem isso agora? Mas tenho pena à mesma.Tenho os meus dois filhos mais novos comigo. Sei que estão comigo. Mas não sei da Marta e do Nuno. E sei que eles se salvaram, e andam a sobrevoar a terra, mas agora já não há referências de nada. Penso: como é que me vão encontrar? Sem telefones, sem mapas. Porque agora a terra é geograficamente diferente do que era. E isso angustia-me. Depois é preciso começar tudo de novo. Há algumas pessoas connosco. E eu penso: "É tudo tão estranho. Tudo tão novo."
Um prédio alto. Estou no último andar. Há muita gente. Precisamos de apanhar o elevador para descer. Ali, já fizemos o que tínhamos que fazer. Há vários elevadores. Está toda a gente com pressa. Aproximo-me do que acaba de parar mas passa muita gente à minha frente e o elevador fica tão cheio que tenho medo de entrar.
As portas fecham-se. O chão, todo ele, começa a tremer. É um tremor de terra. Precisamos de sair dali, mas não podemos ir de elevador. Agora não pdemos ir de elevador mesmo que houvesse um, porque ainda é mais perigoso.
E aconteceu um cataclismo em toda a Terra. Um apocalipse. Agora estamos num pedaço de terra seca, rodeados de extensos lençóis de água. O velho mundo foi submerso. Poucas pessoas escaparam. E tudo o que antigamente tinha valor agora não vale nada. O dinheiro, por exemplo. Percebo que não tenho nenhum, mas também que valor atribuir-lhe agora? Fico com pena por causa dos livros. Parece que salvei um. [...] Mas que importância tem isso agora? Mas tenho pena à mesma.Tenho os meus dois filhos mais novos comigo. Sei que estão comigo. Mas não sei da Marta e do Nuno. E sei que eles se salvaram, e andam a sobrevoar a terra, mas agora já não há referências de nada. Penso: como é que me vão encontrar? Sem telefones, sem mapas. Porque agora a terra é geograficamente diferente do que era. E isso angustia-me. Depois é preciso começar tudo de novo. Há algumas pessoas connosco. E eu penso: "É tudo tão estranho. Tudo tão novo."
Os olhos mortos das avestruzes mortas
NOITE DE 12 PARA 13 DE FEVEREIRO DE 1997
É uma casa grande, uma casa de família e de amigos, com vários andares, e muita história. E estou com dois amigos e temos de fugir, só que eu encontro uma casa de banho com janela e quando vou a saltar percebo que, vista de dentro a casa de banho está no primeiro andar, mas olhando pela janela é uma altura de quarto andar. E é muito alta.
Mas depois o perigo passa, ou o motivo que me ia levar a fugir desaparece. Encontro o Miguel e a Laura e são muito simpáticos, e ele é particularmente afectuoso. E está muito pouco vestido. Toda a gente está pouco vestida. AS pessoas estão mesmo quase nuas. Há um amigo, um rapaz muito novo, que está mesmo nu, e atira-se para cima de mim, como se fosse uma espécie de brincadeira, e eu estou a dizer-lhe que tinha ficado muito comovida com um texto que tinha lido dele, e ele estava a dizer que era mesmo assim que escrevia, com a alma e o coração. [E depois há um livro que já está pronto, e eu fico espantada com a pressa com que ele ficou assim pronto]
E depois há um burro que vem trazer alguém ou alguma coisa àquela casa. Aliás começa por ser um cavalo, mas depois é um burro. E eu quero ir apanhá-lo para lhe dar de comer, mas ele foge e quando eu o vejo já é um cão. E é um cão um bocado coxo. E o cão foge, mas não é por medo, é por pressa. E volta atrás e apanha um pedaço de comida, e é um pedaço de pão. Eu fico a vê-lo seguir pelo caminho de terra que leva a outros caminhos, só que ele anda um bocado esquisito, meio a correr, meio a coxear. E no meio do caminho há avestruzes mortos. Secas e mortas. Têm os olhos mortos muito abertos.
É uma casa grande, uma casa de família e de amigos, com vários andares, e muita história. E estou com dois amigos e temos de fugir, só que eu encontro uma casa de banho com janela e quando vou a saltar percebo que, vista de dentro a casa de banho está no primeiro andar, mas olhando pela janela é uma altura de quarto andar. E é muito alta.
Mas depois o perigo passa, ou o motivo que me ia levar a fugir desaparece. Encontro o Miguel e a Laura e são muito simpáticos, e ele é particularmente afectuoso. E está muito pouco vestido. Toda a gente está pouco vestida. AS pessoas estão mesmo quase nuas. Há um amigo, um rapaz muito novo, que está mesmo nu, e atira-se para cima de mim, como se fosse uma espécie de brincadeira, e eu estou a dizer-lhe que tinha ficado muito comovida com um texto que tinha lido dele, e ele estava a dizer que era mesmo assim que escrevia, com a alma e o coração. [E depois há um livro que já está pronto, e eu fico espantada com a pressa com que ele ficou assim pronto]
E depois há um burro que vem trazer alguém ou alguma coisa àquela casa. Aliás começa por ser um cavalo, mas depois é um burro. E eu quero ir apanhá-lo para lhe dar de comer, mas ele foge e quando eu o vejo já é um cão. E é um cão um bocado coxo. E o cão foge, mas não é por medo, é por pressa. E volta atrás e apanha um pedaço de comida, e é um pedaço de pão. Eu fico a vê-lo seguir pelo caminho de terra que leva a outros caminhos, só que ele anda um bocado esquisito, meio a correr, meio a coxear. E no meio do caminho há avestruzes mortos. Secas e mortas. Têm os olhos mortos muito abertos.
Ele não é o outro
NOITE DE 8 PARA 9 DE FEVEREIRO DE 1997
Este homem é novo, tem antepassados árabes e a mãe dele tem o curso de conservatório como a m.l., e tem uma irmã, mas anda sempre tão próximo de mim que começo a pensar se não será o outro, mas não tem cabelos brancos, e é mais novo. Depois estamos numa espécie de engarrafamento e ele sai do carro e pede-me que guie, e vai à frente ver o que se passa e dar-me indicações, e eu tenho que saltar para dentro do carro, porque o carro não tem portas, e é descapotável, e é verde. E é um percurso muito pequeno e é sempre em frente. Ando um bocadinho de nada, e tenho algum medo.
E depois estamos num bar, eu tenho um vestido comprido preto, decotado, com uma t-shirt branca de mangas curtas por baixo. Estamos a beber ao balcão e ele quer-me levar a casa da mãe dele a almoçar e já lá está a irmã, e tem tudo muito organizado em função da minha existência. E eu estou a pensar que ele não é a pessoa que eu estou à espera.
Este homem é novo, tem antepassados árabes e a mãe dele tem o curso de conservatório como a m.l., e tem uma irmã, mas anda sempre tão próximo de mim que começo a pensar se não será o outro, mas não tem cabelos brancos, e é mais novo. Depois estamos numa espécie de engarrafamento e ele sai do carro e pede-me que guie, e vai à frente ver o que se passa e dar-me indicações, e eu tenho que saltar para dentro do carro, porque o carro não tem portas, e é descapotável, e é verde. E é um percurso muito pequeno e é sempre em frente. Ando um bocadinho de nada, e tenho algum medo.
E depois estamos num bar, eu tenho um vestido comprido preto, decotado, com uma t-shirt branca de mangas curtas por baixo. Estamos a beber ao balcão e ele quer-me levar a casa da mãe dele a almoçar e já lá está a irmã, e tem tudo muito organizado em função da minha existência. E eu estou a pensar que ele não é a pessoa que eu estou à espera.
terça-feira, 13 de março de 2007
Tenho saudades do camelo
Fevereiro 97 s/dataEstou num centro comercial, e é uma cave, e tenho um casaco azul celeste sobre os ombros, e uma camisola igual de conjunto que levo na mão. E como estou a andar muito depressa o casaco cai, e só dou por isso uns metros à frente. Volto-me e ainda o vejo. Vou apanhá-lo. Caiu numa poça com alguma lama. E a camisola também está ligeiramente húmida de ter caído numa poça parecida. Volto-me contra uma parede para apertar os botões da minha blusa, que não estão fechados e até me está a ser difícil apertá-los. Depois olho para o casaco e a camisola e penso que pena, porque quando os lavar perdem metade da graça. E penso: vou ter de os lavar a seco. E penso: foram caros. E é estranho porque não costumo ter nada de vestir em azul, quanto mais azul celeste.
E depois estou em cima de um camelo, mas é um camelo pequeno, mas não é um camelo criança. É só pequeno. E estamos num quarto andar, a entrar numa loja de um indiano e é uma loja que vende roupa e muitos tecidos. E é uma loja onde não há expositores, as roupas estão penduradas em cordas de roupa, e enquanto vamos avançando o camelo enrola a cabeça, sem querer, na roupa pendurada. E o indiano dá-lhe estaladas, e eu fico zangada, porque o camelo não tem culpa. E tiro a roupa da cara do camelo, ou pelo menos estou a tentar tirar, e o indiano está a dizer que aquilo já causou muitos prejuízos, e eu digo que pago tudo. E depois não sei do camelo e estou tristíssima, e acho que alguém o levou e tenho tanta, tanta pena, porque tenho saudades do camelo.
E depois estou em cima de um camelo, mas é um camelo pequeno, mas não é um camelo criança. É só pequeno. E estamos num quarto andar, a entrar numa loja de um indiano e é uma loja que vende roupa e muitos tecidos. E é uma loja onde não há expositores, as roupas estão penduradas em cordas de roupa, e enquanto vamos avançando o camelo enrola a cabeça, sem querer, na roupa pendurada. E o indiano dá-lhe estaladas, e eu fico zangada, porque o camelo não tem culpa. E tiro a roupa da cara do camelo, ou pelo menos estou a tentar tirar, e o indiano está a dizer que aquilo já causou muitos prejuízos, e eu digo que pago tudo. E depois não sei do camelo e estou tristíssima, e acho que alguém o levou e tenho tanta, tanta pena, porque tenho saudades do camelo.
Advogado, Precisa-se!
Estou numa casa que está em obras, e os trabalhadores estão todos fora, no quintal, e ligam uma máquina que cria, dentro de casa, a ausência de gravidade. E eles têm que avisar as pessoas quando ligam a máquina, mas ou por pensarem que já não está ninguém, ou porque querem lá saber, ligam a máquina. E eu estou na casa de banho, e as janelas estão abertas. Fico muito aborrecida a pensar que um bocado mais cedo e tinha sido colada ao tecto com o rabo ao léu. Mas não chego sequer a ficar colada ao tecto. Entretanto eles vêm-me à janela e põe uma música, ou cantam. É uma música com o meu nome.
Estou um bocado envergonhada por ter que passar por eles, de modo que ponho óculos escuros, e vou sempre a falar com o Berna.
Depois chegamos a uma estação de caminho de ferro porque vamos apanhar o comboio. Está muita gente na plataforma e não consigo subir, porque toda a gente se empurra, e o comboio está a ficar cheio.
E a Susana está comigo, agora. E eu digo-lhe que não é possível subir para o comboio assim. Estou vestida de freira, o que é incómodo, porque o véu, que é um chapéu de pontas reviradas, está sempre a escorregar. É um hábito imposto. E então vemos uma coisa extraordinária. O comboio começa a andar para trás, e toma uma velocidade incrível. E eu digo que sorte não termos conseguido entrar, porque aquela história vai descarrilar com aquela gente toda lá dentro.
Depois chegamos a uma estação de caminho de ferro porque vamos apanhar o comboio. Está muita gente na plataforma e não consigo subir, porque toda a gente se empurra, e o comboio está a ficar cheio.
E a Susana está comigo, agora. E eu digo-lhe que não é possível subir para o comboio assim. Estou vestida de freira, o que é incómodo, porque o véu, que é um chapéu de pontas reviradas, está sempre a escorregar. É um hábito imposto. E então vemos uma coisa extraordinária. O comboio começa a andar para trás, e toma uma velocidade incrível. E eu digo que sorte não termos conseguido entrar, porque aquela história vai descarrilar com aquela gente toda lá dentro.
E o comboio está a andar cada vez mais depressa para trás, até que faz uma extraordinária inversão de marcha, e muda de linha, sempre a continuar na mesma, com as rodas a chiar em cima dos carris. Parece uma manobra de montanha russa, ou de comboio fantasma, não é uma manobra de comboio normal - estas coisas que só nos sonhos, penso eu a sonhar - e volta a andar na nossa direcção, só que agora não é um grande comboio cheio de gente, é só a locomotiva.
E estamos em Tomar. E eu digo que vou fazer queixa daquele maquinista, e a Susana diz-me que em Tomar a percentagem de manobras perigosas dos Caminhos-de-ferro é tão grande que quase toda a gente é advogado ali. E em todos os edifícios, em todas as lojas e todas as casas, há um advogado. E quando não há, há um letreiro a dizer «advogado, precisa-se». E nós espreitamos para dentro de uma loja de antiguidades, para eu ver se descubro lá dentro algum advogado de carne e osso.
E estamos em Tomar. E eu digo que vou fazer queixa daquele maquinista, e a Susana diz-me que em Tomar a percentagem de manobras perigosas dos Caminhos-de-ferro é tão grande que quase toda a gente é advogado ali. E em todos os edifícios, em todas as lojas e todas as casas, há um advogado. E quando não há, há um letreiro a dizer «advogado, precisa-se». E nós espreitamos para dentro de uma loja de antiguidades, para eu ver se descubro lá dentro algum advogado de carne e osso.
O sonho com Joshua
NOITE DE 25 PARA 26 JANEIRO DE 1997
Joshua vem ter comigo. É uma aproximação muito grande e é uma despedida. Ele abraça-me e eu digo-lhe que tinha passado o nosso tempo. Apesar de tudo o que ele me continua a escrever na vida de acordados. Falamos desses postais e dessas mensagens. E ele diz "mas tudo o que eu escrevi foi com todo o amor e é tudo verdade, só que eu não consegui, eu não consigo."
E eu digo-lhe "eu sei , não te preocupes." A Lu está perto, mas queremos conversar mais e andamos à procura de um sítio isolado para falar, mas não encontramos. Estamos muito comovidos, mas não é um sonho triste.
Joshua vem ter comigo. É uma aproximação muito grande e é uma despedida. Ele abraça-me e eu digo-lhe que tinha passado o nosso tempo. Apesar de tudo o que ele me continua a escrever na vida de acordados. Falamos desses postais e dessas mensagens. E ele diz "mas tudo o que eu escrevi foi com todo o amor e é tudo verdade, só que eu não consegui, eu não consigo."
E eu digo-lhe "eu sei , não te preocupes." A Lu está perto, mas queremos conversar mais e andamos à procura de um sítio isolado para falar, mas não encontramos. Estamos muito comovidos, mas não é um sonho triste.
O sonho dos ovos
NOITE DE 25 PARA 26 JANEIRO DE 1997
Sonhei outra vez com ovos, outra vez com Joshua, com a Susana e com um comboio, tudo em sonhos diferentes.
No sonho dos ovos eu e a Susana chegamos das compras e estamos na cozinha. É uma cozinha grande com uma banca de mármore. Ao pousar o saco das compras percebo que o pousei com muita força, de modo que os ovos, uma embalagem grande, a maior embalagem, se racharam. A Susana diz-me "não fiques preocupada, mas não os guardes assim. Aproveita o que puderes, porque vamos cozinhá-los."
Então abre os ovos, que têm uma gema muito amarelinha, e coloca-os dentro de uma vasilha, e os que não estão bons deita fora. Ela faz tudo em cima da banca e com as mãos. Um ou outro têm lascas de peixe dentro, aliás são ovos de lascas de peixe, e eu junto-os , e fico com as mãos todas embodegadas para os meter num saco e deitar fora. Estamos muito ocupadas as duas naquela cozinha a fazer estas coisas.
Sonhei outra vez com ovos, outra vez com Joshua, com a Susana e com um comboio, tudo em sonhos diferentes.
No sonho dos ovos eu e a Susana chegamos das compras e estamos na cozinha. É uma cozinha grande com uma banca de mármore. Ao pousar o saco das compras percebo que o pousei com muita força, de modo que os ovos, uma embalagem grande, a maior embalagem, se racharam. A Susana diz-me "não fiques preocupada, mas não os guardes assim. Aproveita o que puderes, porque vamos cozinhá-los."
Então abre os ovos, que têm uma gema muito amarelinha, e coloca-os dentro de uma vasilha, e os que não estão bons deita fora. Ela faz tudo em cima da banca e com as mãos. Um ou outro têm lascas de peixe dentro, aliás são ovos de lascas de peixe, e eu junto-os , e fico com as mãos todas embodegadas para os meter num saco e deitar fora. Estamos muito ocupadas as duas naquela cozinha a fazer estas coisas.
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
O Museu de Cera dos Fantasmas
NOITE DE 24 PARA 25 DE JANEIRO DE 1997Há um rato preto no meu caminho. Parece um monte de pelos, mas quando passo por ele desembrulha-se. É um rato enorme, comprido, quase ameaçador. Sinto-me um pouco horrorizada, mas quando percebo que não me vai atacar, pelo contrário, está a fugir em direcção a uma lixeira que há à nossa esquerda, deixo de me preocupar. Mas atrás de mim vem um rapaz, um miúdo, a correr atrás do rato para o matar. O miúdo tem seis anos.
Então é uma perseguição, com o rato obstinadamente a fugir para salvar a pele, e o miúdo aos gritos com um pau na mão para o matar. Então faz-me impressão, porque acho uma crueldade. O rato às vezes pára e olha, eu só não quero que ele venha para cima de mim, mas não vem. E também há um homem com o miúdo, a instigá-lo a matar o rato. Então eles encurralam-no em direcção a uma casa, é uma casa que parece que tem a fachada de um liceu antigo, depois parece mesmo é a casa da mãe da Alexandra, no Porto, só que é diferente, e eu grito para não fazerem aquilo, e a casa é como se se transformasse numa ratoeira onde o rato se mete, e o miúdo fecha a porta como se fechasse a porta de uma ratoeira, e eu grito para ele não entrar naquela casa, mas ele entra.
E agora estou dentro de casa e é uma casa assombrada. Mas não faz medo porque são assombrações halográficas, uma espécie de museu de cera de fantasmas. Mas são fantasmas coloridos, bem dispostos, figuras de séculos passados. Por exemplo, um homem enlaça duas raparigas, vestidas com umas saias de balão floridas, muito bonitas. Eles sobem e desçem as escadas a cantar. É muito agradável vê-los e ouvi-los. Depois, noutro canto da casa, há personagens também de séculos idos, e é como se cada um tivesse o seu lugar delimitado. Ninguém se atropela.
Depois eu estou no cimo das escadas a falar com a mãe da Alexandra a propósito de uma modista, e depois telefono-lhe e é dificilimo arranjar uma modista. E mesmo aquela acaba por me desligar o telefone porque tem de levar o filho ao dentista.
E depois eu fui à procura dessa modista, mas já estou noutro lado. E é uma casa de campo, e é a casa do Francisco P. D. que está cá fora, no terreiro. E não parece nada a casa dele. E há muita gente a chegar. E dentro de casa, aliás a sair, há também uma porção de gente, e no meio uma garota tão minúscula que acabo por lhe pegar ao colo, espantada por ela não ter ficado pisada ou esmigalhada no meio daquelas pessoas. E pergunto onde estará a mãe dela, mas ninguém sabe. Então a mãe aparece. E pergunta-me se eu preciso de facturas para as minhas despesas, por causa dos impostos. Eu digo que sim, dá-me sempre muito jeito. Ela dá-me facturas no valor talvez de oito mil escudos, e eu fico toda contente, até perceber que ela me está a pedir o dinheiro. E não tenho coragem para não lho dar, apesar de ver que aquilo é uma sacanice enorme, um desplante. E fico irritada por não ter desfeito o negócio das facturas.
Depois eu estou no cimo das escadas a falar com a mãe da Alexandra a propósito de uma modista, e depois telefono-lhe e é dificilimo arranjar uma modista. E mesmo aquela acaba por me desligar o telefone porque tem de levar o filho ao dentista.
E depois eu fui à procura dessa modista, mas já estou noutro lado. E é uma casa de campo, e é a casa do Francisco P. D. que está cá fora, no terreiro. E não parece nada a casa dele. E há muita gente a chegar. E dentro de casa, aliás a sair, há também uma porção de gente, e no meio uma garota tão minúscula que acabo por lhe pegar ao colo, espantada por ela não ter ficado pisada ou esmigalhada no meio daquelas pessoas. E pergunto onde estará a mãe dela, mas ninguém sabe. Então a mãe aparece. E pergunta-me se eu preciso de facturas para as minhas despesas, por causa dos impostos. Eu digo que sim, dá-me sempre muito jeito. Ela dá-me facturas no valor talvez de oito mil escudos, e eu fico toda contente, até perceber que ela me está a pedir o dinheiro. E não tenho coragem para não lho dar, apesar de ver que aquilo é uma sacanice enorme, um desplante. E fico irritada por não ter desfeito o negócio das facturas.
E depois cá fora o Francisco está a falar de um galo, um galo enorme que está ao longe pendurado num pau de cerca, e pergunta se gosto daquela carne, só que eu não quero comer aquele galo, e de resto o galo até nem é meu. E naquela casa, naquele terreiro de terra batida está a entrar uma porção de gente com um ar um bocado vadio, um bocado duro. São os sem-terra que o Francisco está a acolher.
Quatro Espelhos, quatro caminhos
Uma sala ampliada por espelhos a toda a volta. Estou no centro. Alguém me diz que há quatro direcções, quatro caminhos. Os espelhos indicam cada um o seu, são quatro, como quatro são as paredes. É assustador olhar e ver tudo reflectido até ao infinito. Desvio o olhar do jogo dos espelhos entre si. Há estofos vermelhos e móveis pesados de madeira, e lustres e candeeiros. Os espelhos abrem-se, melhor, é como se para mim eles não fossem uma barreira. Eu cruzo os vários espaços. Alguém me tinha dito que o meu lugar era na realidade, no local onde estava, mas agora eu já não sei onde mora a realidade, nem em qual dos quatro mundos me encontro, porque são todos iguais, e eu não sinto impedimentos quando cruzo as várias direcções, como se os espelhos só travassem a passagem a outras pessoas.
E agora ando pelas ruas, atravesso-as, é um mundo igual, cruzo-me com pessoas, pergunto-me:
"É o mesmo mundo onde estava antes, ou é algum dos mundos dos espelhos?"
E sei que não posso saber a resposta. De modo que agora tenho medo de não encontrar o caminho de volta, porque nem sei se há caminho de volta, como nas histórias de mundos paralelos. Uma vez atravessada a barreira, voltar atrás é impossível, porque deixa de haver um "atrás", na infinidade de caminhos que se cruzam e entrelaçam.
Mas a minha maior angústia é cruzar-me com o meu duplo, porque se os espelhos reflectem toda a realidade, em cada um daqueles mundos há uma de mim. E diz-se que encontrar o duplo é sinal de morte, pelo menos para um deles. Li, antes de adormecer, aliás na noite anterior, num livro do Corto Maltese.
Mas a minha maior angústia é cruzar-me com o meu duplo, porque se os espelhos reflectem toda a realidade, em cada um daqueles mundos há uma de mim. E diz-se que encontrar o duplo é sinal de morte, pelo menos para um deles. Li, antes de adormecer, aliás na noite anterior, num livro do Corto Maltese.
E agora estou outra vez a sonhar com o Joshua, não o vejo bem, mas ele está comigo, e eu tenho uma criança ao colo, e vamos à praia só que eu tenho de levar várias coisas e ele não percebe porque razão uma ida à praia implica tanto saco, e apetrecho. Eu revejo a lista das coisas que preciso, e concordo que é um exagero, mas é preciso creme para o bebé, e toalhas, e escova para o cabelo, e secador (imagine-se!) e fato de banho, e já nem sei que mais, e o Joshua está impaciente, e eu resolvo fazer-lhe a vontade, e digo, já não sei para quem, "para ele é simples, mete-se dentro de água e sai e está tudo bem, mas quando ele me vir toda desgrenhada porque nem sequer levei uma escova, é capaz de não gostar muito."
Mas não estou mal disposta nem irritada. Estou mesmo muito tranquila. Como se soubesse que no fim vou acabar por fazer a minha vontade, dando a impressão que estou a fazer a vontade dele.
sábado, 17 de fevereiro de 2007
Peixes. Muitos peixes.
NOITE DE 22 PARA 23 JANEIRO DE 1997
Sonho outra vez com peixes, muitos peixes, estamos a comer à mesa de alguém que não identifico, mas é uma mulher e o marido dela é pescador, e vivem talvez em Setúbal, e ele não está presente, mas ela até está a dizer-nos que nos vai arranjar-nos caixotes de peixe, e assim escusamos de comprar, porque o peixe fresco está tão caro. E eles têm todo o peixe que querem porque o marido tem barcos.
E já não me lembro de mais.
Sonho outra vez com peixes, muitos peixes, estamos a comer à mesa de alguém que não identifico, mas é uma mulher e o marido dela é pescador, e vivem talvez em Setúbal, e ele não está presente, mas ela até está a dizer-nos que nos vai arranjar-nos caixotes de peixe, e assim escusamos de comprar, porque o peixe fresco está tão caro. E eles têm todo o peixe que querem porque o marido tem barcos.
E já não me lembro de mais.
Ondas enormes caem sobre a casa
Uma casa ao pé do mar. As paredes são de vidro. Vidro muito grosso. As ondas caem em cima da casa com um fragor espantoso. É um pouco assustador. Mas eu sinto que a casa é segura e aguenta. É uma casa construída para estar ao pé do mar e aguentar com as marés.
Então alguém diz «agora vem aí mais uma! Está é que é forte, cuidado!». E como por vezes as ondas quase enrolavam a casa, penso, se esta é que é forte pode ser um abraço de rebentar com as paredes ou com o tecto. Então começo a pensar por onde posso sair, mas sair, não sei porquê, não é boa ideia. Mas afinal não aconteceu nada de tão dramático, e eu venho até à porta, e encostado à porta está o homem que tinha lançado o aviso. E o homem está a rir. Diz:
“Era uma Honda. Sim, não deixa de ser uma honda, mas não era dessas que estavam à espera”.
Uns metros à frente da porta, está um rapaz parado numa mota potente. E o motor está a trabalhar. O chão ainda está húmido das ondas.
Então eu e a Susana, depois ou antes, não me lembro, estamos dentro de casa a cozinhar. Eu estou a fazer mousse de chocolate, com tantas gemas que dá vontade de comer mesmo assim, e ela está a fazer licor de medronho. Depois chega um grupo de políticos, só que são políticos-estudantes, têm todos 20 anos. E ficam parados à porta. Eu digo-lhe que não pensem vir rapar as vasilhas nem as colheres, porque eu é que vou fazer isso. E rio-me, porque é verdade e eles também se riem. E a Susana pergunta se querem provar a aguardente de medronho, e eles querem, e eu também, apesar de não gostar de aguardente. Só quero mesmo provar.
E é muito bom, apesar de não gostar. E ela diz que, este ano e por causa das chuvas, a aguardente não está tão boa porque está mais aguada.
Uns metros à frente da porta, está um rapaz parado numa mota potente. E o motor está a trabalhar. O chão ainda está húmido das ondas.
Então eu e a Susana, depois ou antes, não me lembro, estamos dentro de casa a cozinhar. Eu estou a fazer mousse de chocolate, com tantas gemas que dá vontade de comer mesmo assim, e ela está a fazer licor de medronho. Depois chega um grupo de políticos, só que são políticos-estudantes, têm todos 20 anos. E ficam parados à porta. Eu digo-lhe que não pensem vir rapar as vasilhas nem as colheres, porque eu é que vou fazer isso. E rio-me, porque é verdade e eles também se riem. E a Susana pergunta se querem provar a aguardente de medronho, e eles querem, e eu também, apesar de não gostar de aguardente. Só quero mesmo provar.
E é muito bom, apesar de não gostar. E ela diz que, este ano e por causa das chuvas, a aguardente não está tão boa porque está mais aguada.
(Depois acordo e depois volto a adormecer)
E depois estamos num jardim que dá para uma casa, e há uma janela aberta que dá para um quarto, e dentro do quarto, sentado em cima de uma cama de pernas estendidas, está o Marcelo Rebelo de Sousa a falar ao telefone. Ele está a falar muito baixo, mas estranhamente ouve-se tudo cá fora com perfeita nitidez. E ele está a dizer que há fugas de informação no seu gabinete. E por causa dessas fugas de informação é que as sondagens dão o PSD tão em baixo, porque que as campanhas são fantásticas, e os resultados seriam muito melhores se não fossem aquelas fugas de informação. Cá fora, nós estamos a ouvir e a comentar que as campanhas eram uma porcaria, e que ele está profundamente equivocado, ou iludido.
E sonho outra vez que estou grávida, mas é uma coisa espiritual e uma gravidez que não vai ser de um filho de carne e osso. E eu estou muito contente, como se finalmente aceitasse neste, todos os outros sonhos em que sonhei que estava grávida e tinha tanto medo. Agora eu percebo. Agora eu percebo tudo.
imagem: http://www.svms.santacruz.k12.ca.us/Computer_Class/comp/lexi%20w/big%20wave.jpg
E depois estamos num jardim que dá para uma casa, e há uma janela aberta que dá para um quarto, e dentro do quarto, sentado em cima de uma cama de pernas estendidas, está o Marcelo Rebelo de Sousa a falar ao telefone. Ele está a falar muito baixo, mas estranhamente ouve-se tudo cá fora com perfeita nitidez. E ele está a dizer que há fugas de informação no seu gabinete. E por causa dessas fugas de informação é que as sondagens dão o PSD tão em baixo, porque que as campanhas são fantásticas, e os resultados seriam muito melhores se não fossem aquelas fugas de informação. Cá fora, nós estamos a ouvir e a comentar que as campanhas eram uma porcaria, e que ele está profundamente equivocado, ou iludido.
E sonho outra vez que estou grávida, mas é uma coisa espiritual e uma gravidez que não vai ser de um filho de carne e osso. E eu estou muito contente, como se finalmente aceitasse neste, todos os outros sonhos em que sonhei que estava grávida e tinha tanto medo. Agora eu percebo. Agora eu percebo tudo.
imagem: http://www.svms.santacruz.k12.ca.us/Computer_Class/comp/lexi%20w/big%20wave.jpg
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
A pele do peixe fica agarrada
NOITE DE 20 PARA 21 JANEIRO DE 1997
Sonhei toda a noite, ou grande parte dela com peixes. A última vez estou a grelhar postas de peixe-espada num fogão a carvão, e aparentemente alguma coisa não está a correr bem porque a pele das postas fica agarrada aos ferros do grelhador
Sonhei toda a noite, ou grande parte dela com peixes. A última vez estou a grelhar postas de peixe-espada num fogão a carvão, e aparentemente alguma coisa não está a correr bem porque a pele das postas fica agarrada aos ferros do grelhador
Tão tranquilo e tão em paz
NOITE DE 19 PARA 20 DE JANEIRO DE 1997
Estou num Centro comercial a escolher perfumes. Há duas lojas, uma no primeiro andar outra na cave. Vou às duas para ter a certeza de que escolho o perfume certo, e aliás na loja do primeiro andar nem encontro nada de especial, porque estão mais especializadas nas essências que vendem a peso, e que não são de grande qualidade.
A empregada diz-me que na loja da cave há mais escolha.
E é verdade. Eu quero comprar dois perfumes, não por necessidade mas por aquele impulso que nos leva a desejar ter perfumes. Provo vários, há frascos lindíssimos, procuro os mais recentes.
Na cave há duas salas de cinema. Numa delas passa o filme «O ABC do Amor», do Woody Allen, só que em vez de ser aquele filme cómico parece ser outro, porque é a preto e branco e os actores que aparecem nos cartazes têm um aspecto mais sério, como se o argumento fosse romântico. Mas eu não tenho tempo, agora, para ir ao cinema.
Cá fora dois travestis entram comigo num carro onde já está um homem. Estamos os três no banco de trás do automóvel, o homem é rico. Sinto-me apertada e tenho medo, porque a cena parece que pode tornar-se pesada. Peço para sair e ir comprar cigarrilhas. O homem, que tem as pernas dos travestis em cima dele, (e eu estou de frente para ele sentada e mal nos seus joelhos, com uma perna de um deles a sair pela janela), diz que não preciso de sair porque tem cigarrilhas ali, e não vale a pena.
Antes, ou depois? vi o Zé no primeiro andar de um edifício, talvez aquela espécie de Centro comercial onde comprei os perfumes. Ele tem a boca pintada e pó de arroz. E penso, olha que bem que ele anda, tão tranquilo, tão em paz.
Estou num Centro comercial a escolher perfumes. Há duas lojas, uma no primeiro andar outra na cave. Vou às duas para ter a certeza de que escolho o perfume certo, e aliás na loja do primeiro andar nem encontro nada de especial, porque estão mais especializadas nas essências que vendem a peso, e que não são de grande qualidade.
A empregada diz-me que na loja da cave há mais escolha.
E é verdade. Eu quero comprar dois perfumes, não por necessidade mas por aquele impulso que nos leva a desejar ter perfumes. Provo vários, há frascos lindíssimos, procuro os mais recentes.
Na cave há duas salas de cinema. Numa delas passa o filme «O ABC do Amor», do Woody Allen, só que em vez de ser aquele filme cómico parece ser outro, porque é a preto e branco e os actores que aparecem nos cartazes têm um aspecto mais sério, como se o argumento fosse romântico. Mas eu não tenho tempo, agora, para ir ao cinema.
Cá fora dois travestis entram comigo num carro onde já está um homem. Estamos os três no banco de trás do automóvel, o homem é rico. Sinto-me apertada e tenho medo, porque a cena parece que pode tornar-se pesada. Peço para sair e ir comprar cigarrilhas. O homem, que tem as pernas dos travestis em cima dele, (e eu estou de frente para ele sentada e mal nos seus joelhos, com uma perna de um deles a sair pela janela), diz que não preciso de sair porque tem cigarrilhas ali, e não vale a pena.
Antes, ou depois? vi o Zé no primeiro andar de um edifício, talvez aquela espécie de Centro comercial onde comprei os perfumes. Ele tem a boca pintada e pó de arroz. E penso, olha que bem que ele anda, tão tranquilo, tão em paz.
domingo, 11 de fevereiro de 2007
"John you faded"
Estou algures, talvez no Alentejo, quando se torna conhecida uma decisão do governo: cortar a energia eléctrica a uma aldeia completamente habitada por norte-americanos que se recusam a pagar as suas contas de electricidade. O Presidente Sampaio é amigo do presidente americano, contudo este envia-lhe um telegrama em que lhe diz: «John you faded».
Estou na redacção de um jornal local. Ninguém parece, contudo, dar muita importância aquilo. Eu sinto vontade de rir perante o teor daquele e de outros telegramas que traduzo por «John estás fodido». Não tenho a certeza de que é esta a tradução, e procuro um dicionário. O director do jornal local é um padre, que não percebe muito o meu empenho de fazer uma notícia sobre o assunto, mas eu explico-lhe que pode ser a oportunidade de fazer o seu jornal crescer de importância. De resto, apenas me encontro ali por acaso. Depois convenço-o a mandar-me com um fotógrafo até à tal aldeia de americanos agora sem luz eléctrica nas suas casas.
Mas agora estou com um pequeno grupo de soldados, e eu também pertenço a essa tropa especial. O nosso aquartelamento é mais ou menos no deserto, e portanto tem um ar transitório. Eu escolho a melhor das casas de banho, que mesmo assim não é nada de especial, e tenho que a dividir com outra pessoa. Vou ter com o general peço uma só para mim, “e tem de ser boa”, mas ele explica-me que eu fiquei com a melhor casa de banho das redondezas, basta ir comparar com a dos outros, que até têm que a dividir com mais gente. Então compro alguns objectos básicos de limpeza, nada de muito sofisticado: esfregona, balde e pano de pó, para a manter em ordem. A dos outros é um pouco mais confusa, porque há muito roupa pendurada atrás das portas.
Entretanto vamos a caminho da nossa missão, e subitamente o grupo divide-se em dois, e torna-se antagónico. De um lado os anteriores camaradas, que agora são americanos e disparam contra nós. Somos poucos, estamos separados por montículos, à distância de meia dúzia de metros, e estamos muitíssimo bem armados. Ao meu lado um dos soldados tem um lança-morteiros. Peço-lhe que dispare rapidamente ou corremos o risco de morrer todos. Ele põe uma pistola na minha mão. É tão pesada que a mão até cai. Faço um esforço, uma vez que sou soldado, e ergo-a tentando não tremer a mão para fazer pontaria. Digo ao soldado ao meu lado que vá por trás dos montes desarmar de surpresa os inimigos. Agora à minha frente está só um, que é um perigo. Aparentemente todos os outros se acalmaram, e ninguém ficou ferido. Isso é espantoso,
Mas aquele é perigosíssimo, porque está artilhado de bombas de alto a baixo. Granadas pendem-lhe do peito, coisas ainda mais sofisticadas que granadas amarram-se-lhe à cintura. Exijo que se renda. Ele tem um olhar parado de quem não compreende, ou de quem não tem já nada a perder. Diz “se me tocarem vamos todos pelos ares”. Então ouço a voz da Tita, ao meu lado, dizer que o tem sob a mira e que, ou ele se rende imediatamente, ou leva um tiro na cabeça e morre instantaneamente.
Há um longo momento de silêncio e de suspense. Nós todos pensamos “porque raio não dispara ela de uma vez? é menos um perigo para todos”. Mas ela insiste. E ele acaba por se render, ou seja, larga o fio do cordão que ameaçava puxar e que despoletaria a bomba que nos faria ir a todos pelos ares. Pomo-nos a caminho e somos de novo um grupo coeso, o mesmo corpo de comandos. Há homens e mulheres no grupo, mas não somos mais do que cinco, penso. Digo à Tita (nunca a chego a ver) que ela é um espírito muito elevado, para ter tido um inimigo sob a mira e poupar-lhe a vida. É preciso estar muito acima na escala evolutiva humana, para reagir dessa forma. Ela explica-me que não foi só por isso, embora seja sempre de evitar matar os inimigos. Mas o que a impediu também de o fazer foi uma questão de inteligência, porque se o atingisse, mesmo depois de ele ter largado aquele cordão que estava ligado à bomba, as suas mãos ao escorregarem ao longo do corpo iam despoletar outro engenho, mais perigoso ainda, que estava guardado ao nível das virilhas. Assim sendo só havia uma maneira que era dominá-lo de forma psicológica, a fim de que, e por sua vontade, ele desistisse de nos fazer explodir a todos.
Vamos a andar e eu reparo que, para além dos trajes militares em caqui, etc., estamos todos muito bem calçados, com botas sólidas. Uma das mulheres-soldado acho que está com ténis. Falamos de sapatos, e eu digo que, apesar das minhas, das nossas botas, serem muito boas, agora há outros materiais que ainda são melhores, e que era bom substituir o nosso equipamento. Basicamente os sapatos.
As forças vivas da terra estão num palanque, é uma coisa um pouco desorganizada, porque a terra é pequena, e se calhar também não estavam à espera que aparecêssemos naquela altura. A gente não lhes liga, porque os militares não prestam muita atenção aos civis. E aquilo é um bocado saloio. Nós nem estamos a marchar afinados, mas também não é preciso. Cumprimentam-me e eu respondo fazendo uma continência, sem ligar, e a rir. Pergunto ao soldado ao meu lado se fiz bem e ele diz que sim, que é mesmo assim, mas que se quiser fazer a coisa mais a sério tenho que levantar bem a perna esquerda e marchar, não me lembro dos pormenores.
Cães de guarda vêm ao nosso encontro
É uma daquelas terras que conhecemos em viagem. Espreito por uma janela para ver um portal recortado sob não sei que espécie de luz. Vista assim, aquela construção revela outra atrás, lindíssima, um pouco medieval. Ponho-me em cima de um banco de pedra, embutido na parede para olhar. Depois resolvemos subir por uma escadas, também de pedra, exteriores, que dão para uma cúpula ou um caramanchão de onde podemos ver muito mais. Há uma amiga comigo que conhece aquilo. As escadas são muito estreitas. Quando vamos a descer cães de guarda vêm ao nosso encontro. Rosnam. São perigosos. Penso, não posso mostrar medo, e para não mostrar medo não posso sequer senti-lo. Estendo-lhes a mão, avançando o braço porque quase não há espaço nas escadas estreitas. E eles cheiram a minha mão e vão-se acalmando. Até abanam o rabo como se me reconhecessem. E depois aparece um criado daquela casa, e depois o senhor daquela casa, e ficam espantados por nos ver naquela situação, até porque não era preciso. Bastava termos tocado à porta. E convidam-nos a entrar.
E depois, sei que estou em Espanha a caminho de Portugal, é a mesma terra de há bocado, e encontro o Joshua que vem de Portugal a caminho de Espanha. E percebo que ele fez isto para me encontrar. E que como eu nunca mais não lhe disse nada, nem sequer respondi aquele seu recado sumido no atendedor de chamadas, está a começar a ficar inquieto. Ele tenta falar comigo, mas estou completamente desinteressada, e ele não sabe o que há-de dizer ou fazer.
sábado, 10 de fevereiro de 2007
Uma ilha muito próxima de terra

OUTRO ANO: 1997
NOITE DE 10 PARA 11 DE JANEIRO DE 1997
Por uma razão que ignoro sou condenada, juntamente com um rapaz brasileiro. Eu não cometi nenhum crime, ele sim. A pena que lhe dão a ele é de morte. A mim não sabem, mas estão a deliberar de modo que, não sendo a pena máxima, seja pesada. Estou tão indignada pela injustiça que exijo que me condenem à pena capital. É meu direito reivindicá-la. Eu sei que isso cria um grande constragimento nos orgão de cúpula judiciais.
Por uma razão que ignoro sou condenada, juntamente com um rapaz brasileiro. Eu não cometi nenhum crime, ele sim. A pena que lhe dão a ele é de morte. A mim não sabem, mas estão a deliberar de modo que, não sendo a pena máxima, seja pesada. Estou tão indignada pela injustiça que exijo que me condenem à pena capital. É meu direito reivindicá-la. Eu sei que isso cria um grande constragimento nos orgão de cúpula judiciais.
Movimento-me numa cidade, ou num território, ou seja lá o que for, que é uma casa de muitos andares. Em liberdade. Num dos quartos está o tal rapaz brasileiro. O padre Pedro anda por lá.
Então, e de repente, é véspera de minha morte. Tomo consciência disso de uma forma avassaladora. Penso: agora tenho de escolher a melhor forma de morrer.
Visualizo-as a todas: enforcamento. Vejo-me pendurada por uma corda diante de meia dúzia de pessoas sentadas numa sala como se fosse uma sala de aulas. Acho ignominioso que a minha morte seja assim, e exijo, na projecção mental, que cubram o meu imaginado corpo com capuz até aos pés. Mas assim baloiço imaginariamente com falta de ar, mesmo antes de morrer. Desisto do enforcamento.
Passo ao fuzilamento. Vejo-me diante de um pelotão que atira sobre mim. E surpreende-me a dor que sinto. As balas traçam no meu corpo dores ardentes. E é tão estúpido morrer assim.
Visualizo o gaz. Penso: assim é rápido e indolor. Mas quando me visualizo amarrada naquela cadeira, e a ampola larga o veneno, sinto um pânico horrível e penso que não posso, não devo morrer com aquela sensação pavorosa de medo e de claustrofobia.
E percebo tudo: estou demasiado saudável para poder morrer. É anormal deixar-me matar assim. Ando pelos corredores com este pensamento a queimar-me.
Tomo a decisão de fugir. Urgentemente. Os conceitos, as palavras, que importa tudo isso diante do absurdo da minha morte no dia seguinte, por uma falta que não cometi?
Chamo a Tita. Ela sai de uma igreja onde estava a assistir à missa rezada pelo padre Pedro, uma capela de Centro Comercial, e um pouco atrás dela vem a Ninor, velha e curvada, mas indiferente ou inconsciente em relação ao que se passa. Penso: "lá anda ela a fazer de conta que reza pelos filhos."
Então, e de repente, é véspera de minha morte. Tomo consciência disso de uma forma avassaladora. Penso: agora tenho de escolher a melhor forma de morrer.
Visualizo-as a todas: enforcamento. Vejo-me pendurada por uma corda diante de meia dúzia de pessoas sentadas numa sala como se fosse uma sala de aulas. Acho ignominioso que a minha morte seja assim, e exijo, na projecção mental, que cubram o meu imaginado corpo com capuz até aos pés. Mas assim baloiço imaginariamente com falta de ar, mesmo antes de morrer. Desisto do enforcamento.
Passo ao fuzilamento. Vejo-me diante de um pelotão que atira sobre mim. E surpreende-me a dor que sinto. As balas traçam no meu corpo dores ardentes. E é tão estúpido morrer assim.
Visualizo o gaz. Penso: assim é rápido e indolor. Mas quando me visualizo amarrada naquela cadeira, e a ampola larga o veneno, sinto um pânico horrível e penso que não posso, não devo morrer com aquela sensação pavorosa de medo e de claustrofobia.
E percebo tudo: estou demasiado saudável para poder morrer. É anormal deixar-me matar assim. Ando pelos corredores com este pensamento a queimar-me.
Tomo a decisão de fugir. Urgentemente. Os conceitos, as palavras, que importa tudo isso diante do absurdo da minha morte no dia seguinte, por uma falta que não cometi?
Chamo a Tita. Ela sai de uma igreja onde estava a assistir à missa rezada pelo padre Pedro, uma capela de Centro Comercial, e um pouco atrás dela vem a Ninor, velha e curvada, mas indiferente ou inconsciente em relação ao que se passa. Penso: "lá anda ela a fazer de conta que reza pelos filhos."
Chamo a Tita à parte. Peço-lhe que meta dentro da mochila do Nuno, aquela que ele me empresta de vez em quando, os básicos da minha partida. Roupa interior, os meus cremes, uma água-de-colónia, pouco mais. Falamos em sussurros. Dinheiro não preciso, tenho o suficiente. Próximo, o padre Pedro está no quarto do brasileiro, suponho que a prepará-lo para a morte imediata. Mas não há nenhuma tensão, nenhum drama, nenhum desgosto no ar.
Eu vou fugir para muito próximo, que estranho. E não é por terra que vou partir. É por mar. Ou pelo Sul ou por Ocidente. Sei que há uma ilha muito próximo de terra, uma coisa tão próxima que se atravessa a vau. Tem de ser assim para eu continuar a cumprir o meu Sonho na vida de acordada. Vou para outra terra tem outra jurisdição. Ali estou salva.
Imagem: http://www.jeffpritchard.com/index.html
Eu vou fugir para muito próximo, que estranho. E não é por terra que vou partir. É por mar. Ou pelo Sul ou por Ocidente. Sei que há uma ilha muito próximo de terra, uma coisa tão próxima que se atravessa a vau. Tem de ser assim para eu continuar a cumprir o meu Sonho na vida de acordada. Vou para outra terra tem outra jurisdição. Ali estou salva.
Imagem: http://www.jeffpritchard.com/index.html
terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
O crocodilo é albino e não tem dentes
Um pequeno quiosque circundado por um cordão de monumento. Parece uma antiga cabine telefónica preservada para a curiosidade do futuro. O telefone não funciona. Ergo o cordão que a protege simbolicamente, porque é mais fácil passar por baixo do que saltar por cima deste frágil obstáculo. A Tita está comigo e eu continuo a segurá-lo para ela passar. Então, atrás de nós, a estrutura frágil, de madeira, da cabine, oscila e quase cai. Fica tombada num equilíbrio instável e eu ouço as vozes risonhas de uns turistas que andam por ali a fotografar curiosidades e que me exortam a não deitar tudo ao chão. Pelo menos enquanto as fotografias não estiveram completas. Fico embaraçada e quero ir logo embora daquele local, mas a Tita fica a falar com eles e não se despacha.
Então avanço até um tanque de lavar a roupa quase em frente, do outro lado da estrada. E vejo que a superfície das águas agitar-se e percebo a sombra de um pequeno réptil que assoma à superfície. Retiro a mão que avançava para a água. A Tita chega e, com um dedo, aflora o ponto onde emerge a cabeça do réptil e eu digo-lhe que tenha cuidado porque parece um crocodilo.
E é um crocodilo que acaba de emergir, agora já em ponto grande. Recuo ainda mais assustada, mas a Tita continua ali, ao lado, a mão quase a afagar a cabeça do monstro que é albino e manchado e abre a boca enorme de onde os dentes parecem ter sido arrancados porque só se vêm umas lascas de osso.
E o crocodilo abre a boca inútil como se bocejasse. Mas logo a água se agita de novo com outro crocodilo que começa a emergir. Mas parece que aquela raça de crocodilos não tem dentes. Já não tem dentes.
E depois sei que estou grávida. Vou ter mais dois filhos. Lembro-me então dos outros sonhos em que sonho com essas gravidezes inesperadas e totalmente inoportunas. Só que agora percebo que esta é uma decisão minha que só tem a ver comigo. Sei que preparei tudo isto, removi obstáculos, e determinei que o meu ventre estivesse pronto para tornar possível consentir neste destino. E penso: “desta vez não sou apanhada de surpresa. Fui eu que determinei isto porque é assim que deve ser.”
E depois há uma mulher que cai das escadas com tanta força e tanto barulho que corro para a ajudar a tempo de ver que ela não está mais do que atordoada e aflita e então acordo.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
Eu, Joshua, o amigo recente e a noiva no super-mercado
1996, Julho, s/diaVou a um super fazer compras. Viajo através de uma cidade de Domingo, e acho que vou de mota. Estou nos subúrbios ou fora do meu lugar de viver. O super-mercado é um conjunto de grandes armazéns cheios de coisas para a casa. Quero comprar mas não tenho dinheiro. Entretanto a Tita aparece e diz que já tem os dois cheques do Jornal. É mais do que suficiente. É o que estava combinado. Quase me passo de contente. Depois vou ao super mas a Tita tem o mesmo carrinho que eu, e eu não quero, porque ela já está despachada e eu tenho de ir à carne que é no rés-do-chão, melhor na cave, e é preciso descer umas rampas inclinadíssimas. A Tita leva outro carrinho. Acho que não chego a descer completamente.
Encontro outro amigo recente. Depois passa por mim, no corredor deste armazém, o Joshua. Não me fala. Fico chocada, porque ainda há muito pouco tempo me escreveu. Volta a passar e eu cumprimento-o, e então ele responde, mas tudo ao longe, sem dar mostras de se querer aproximar.
O meu amigo recente está sentado aos pés de uma cama de casal, e diz-me que o Joshua está ali porque veio ver uma colega analista, que trabalha no mesmo Centro de Saúde onde ele dá consultas, com o pretexto de fazer umas análises, mas a mulher é lindíssima e é só um pretexto. Depois vejo a Mimi que me diz que o Joshua se esconde e que os nossos contactos são sempre assim no desencontro, e que não a espanta nada. Aquilo é a confirmação.
Entretanto aproxima-se de uma das portas de saída – que não é porta de entrada – uma noiva recém-casada, de véu e tudo, a empurrar um carrinho de compras para ir ao super. Falamos através dos vidros sem se ouvir nenhum som. Nós a dizer que ela não pode entrar por ali ela a perguntar então por onde? O cortejo dos convidados aproxima-se e junta-se diante daquela porta por onde não podem entrar. Até é cómico porque eles não estão aborrecidos. E estamos todos a rir. Cá dentro, comigo, junta-se imensa gente conhecida, minha conhecida. Uns são pintores, outros cantores.
Encontro outro amigo recente. Depois passa por mim, no corredor deste armazém, o Joshua. Não me fala. Fico chocada, porque ainda há muito pouco tempo me escreveu. Volta a passar e eu cumprimento-o, e então ele responde, mas tudo ao longe, sem dar mostras de se querer aproximar.
O meu amigo recente está sentado aos pés de uma cama de casal, e diz-me que o Joshua está ali porque veio ver uma colega analista, que trabalha no mesmo Centro de Saúde onde ele dá consultas, com o pretexto de fazer umas análises, mas a mulher é lindíssima e é só um pretexto. Depois vejo a Mimi que me diz que o Joshua se esconde e que os nossos contactos são sempre assim no desencontro, e que não a espanta nada. Aquilo é a confirmação.
Entretanto aproxima-se de uma das portas de saída – que não é porta de entrada – uma noiva recém-casada, de véu e tudo, a empurrar um carrinho de compras para ir ao super. Falamos através dos vidros sem se ouvir nenhum som. Nós a dizer que ela não pode entrar por ali ela a perguntar então por onde? O cortejo dos convidados aproxima-se e junta-se diante daquela porta por onde não podem entrar. Até é cómico porque eles não estão aborrecidos. E estamos todos a rir. Cá dentro, comigo, junta-se imensa gente conhecida, minha conhecida. Uns são pintores, outros cantores.
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