quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Noite de festa

NOITE DE 29 PARA 30 DE MARÇO DE 1998
É de noite e há uma festa. E essa festa é num terraço. E nesse terraço o Luis está comigo.

Ele é a nave. Nós somos a nave.

NOITE DE 17 PARA 18 DE MARÇO DE 1998
Um barco. Um amigo dos meus pais que não vejo há muito tempo. Ele  é quase cego por causa de um acidente de guerra, em África, há muitos anos.
Eu tenho de deixar aquele barco. Tenho de fazer a mala, mas o armário onde estão guardadas as minhas coisas está às escuras, e não consigo ver se estou a guardar tudo.
Alguém, finalmente, ilumina aquele cenário.

E depois eu e o homem que está comigo voamos muito alto, numa nave que parece uma bolha de ar. Voamos muito depressa. Porém, quando aparecem crianças, ficamos ao nível do chão. São crianças sózinhas, naquele mundo, porque os pais delas não têm tempo nem foram educados para dar carinho aos filhos. Abraço vários meninos. Sei que é só um abraço, mas digo ao homem que está comigo:
«Assim, eles vão lembrar-se, quando crescerem, o que é ser-se abraçado».
Depois, passamos ao lado de um combóio que anda com muita velocidade.
O engraçado na forma como a nossa nave voa é a ausência de painel de comandos. Mas, em vez de aparecerem campos lindíssimos, como nos filmes, à medida que avançamos chegamos aos subúrbios daquela civilização. Aí as construções modernas, e as avenidas largas, dão lugar a edifícios degradados. Há muita gente debaixo da arcada de um deles. São pessoas com fome. São homens e mulheres de rostos duros. São pessoas capazes de lutar. Nós misturamo-nos na pequena multidão, e eu penso que é uma sorte ter uma nave à minha espera para poder sair dali quando quiser.
O homem que está comigo quer tirar-me dali rapidamente. Andamos ao contrário da multidão, e eu abro caminho, sem medo, através daqueles corpos quase perigosos, afastando gente zangada. São pessoas cheias de desencanto.
Contudo, há ali um hotel onde reservámos um quarto. É um edifício decadente, mas bonito. Sobem-se umas escadas largas de três degraus em pedra até uma porta em vidro fosco, onde está gravado o nome do hotel.

Mas agora, eu e o homem vamos voar de novo. Não vejo a nave. Depois percebo tudo: ele é a nave. Ele diz que me há-de ensinar aquela tecnologia, que é muito mais simples do que parece. Subimos e começo a rir, porque percebo que nós é que somos a nave. Ele confirma. Só que ele domina a técnica melhor do que eu. No entanto nunca nos afastamos daqueles sítios.
E depois estamos no hotel, e dormimos juntos.

domingo, 22 de novembro de 2009

Eu, o motorista de táxi, o Conciliador e o seu mapa

NOITE DE 13 PARA 14 DE MARÇO DE 1998

O motorista do táxi enganou-se no percurso, ou então é essa a desculpa que dá para dizer que não me pode deixar à porta do meu destino. Explica que não pode fazer inversão de marcha, porque é uma volta muito grande, e tenta convencer-me a ficar ali, num lugar que é um descampado. Diz que estou muito perto do hotel para onde quero ir, e que é mais rápido assim. Estamos numa espécie de porto, mas tão grande que não se vê o mar. É um lugar em construção, como a Expo. Mas não se vêm pessoas, nem máquinas a trabalhar. Zango-me e digo que não admito ficar ali.
À medida que o carro vai avançado mais me convenço de que tinha razão. As ruas, largas e muito compridas, são ladeadas de armazéns e de obras. Se eu tivesse ficado onde ele queria deixar-me teria perdido muito tempo. E se calhar acabava por me perder também.
Então ele diz que não tem a certeza do lugar para onde vamos. Pergunto-lhe porque esteve a falar para a central e não aproveitou para tirar dúvidas sobre o percurso. Digo:
«Não vou pagar esta corrida, não tenho culpa da sua incompetência. Vou fazer queixa de si se não me deixar à porta.»
Há outra pessoa no táxi. É o Conciliador. Então aparece um mapa. Nesse mapa vê-se tudo com muita clareza. Mas é preciso adequar o mapa ao lugar onde estamos, para descodificar o percurso sem se perder mais tempo.

Depois estou com a mãe da Alexandra, em casa da Alexandra. E é também a minha casa. Há um programa de televisão, que é uma demonstração de fenómenos paranormais. Agora, à nossa frente, numa espécie de estúdio, estão duas meninas. Têm seis anos. Uma é má, a outra é boa. A boa não pode dar a mão à má. A má convence-a, porque sabe o que quer, e a boa deixa-se levar. As pessoas que estão a assistir percebem, tarde de mais, o que se vai passar. As meninas estão uma ao lado da outra, e a má estende os dedos para a boa, e diz-lhe: vá, estende-me a ponta dos teus dedos. Tem um ar muito acordado e sorri. A boa parece meia adormecida, um pouco apatetada. As meninas entrelaçam as mãos. Alguém diz:
«Separem-nas!»
Mas é tarde de mais. Há um clarão, e uma espécie de choque eléctrico que se repercute no ar, e elas desaparecem ao mesmo tempo. Alguém diz:
«Agora vou ter tanto trabalho outra vez a procurá-las no mundo astral.»

E eu estou no hospital. E só lá vou ficar por mais três dias. Alguém vem dizer-me o que posso comer, e são coisas deliciosas.  Penso: «se quiser comer isto tudo não me chegam os dias que ainda cá vou ficar».

O Filho dos meus últimos dias

NOITE DE 9 PARA 10 DE MARÇO DE 1998
É o não esperado. O último Filho. Com ele nos braços devo sair do hospital ou da clínica sem que nos detectem. Não devem saber dele.
Meto-me no carro. Para que não o vejam acomodo-o na mala, mas tenho o cuidado de ver se fica confortável e seguro.
Sei que não vai chorar.
Dentro do carro dou indicações ao motorista. As ruas estão um pouco congestionadas e as minhas indicações são todas no sentido de evitarmos o trânsito, mas não estão muito certas. Mas o motorista – que é alguém que me é muito próximo – não se zanga comigo. Isso deixa-me um pouco espantada. Além disso, como guia muito bem consegue alterar o percurso sempre na altura em que se vai meter em engarrafamentos.

Depois estou numa farmácia. Há várias pessoas à minha frente. Não posso deixar que saibam do meu bebé. Penso:
«Porque tive este filho? [...] Eu não devia ter este filho, porque não fiz nada para isso.»
E estou muito perplexa.
O meu bebé está num carrinho, tapado com uma fralda. E começa a chorar. Tento que se cale, enquanto o embalo. Ele chora com mais força. Então, destapo-o e pego-lhe ao colo, ali, à frente de toda a gente. E cubro-o de beijos. É extraordinário porque ele corresponde-me. Penso:
«Os bebés, os recém-nascidos, não sabem dar beijos. E contudo, este bebé olha para mim como se tivesse consciência de si próprio, de mim, e do laço fortíssimo que nos liga.»
Agora já não me importo que me vejam com ele. Parece que passou o perigo. Abraço-o com um amor imenso. Penso:
«Este filho é o único realmente meu, e é o filho dos meus últimos dias. O não esperado, o que me conhecia antes de nascer.»
Depois fico um pouco triste porque penso que este filho já não me vai conhecer na minha juventude nem na minha beleza, como os outros. De modo que tenho de guardar os albuns de fotografias, para, quando ele crescer, me ver como eu era, ou como os outros me viram.
E agora estou a escolher coisas, e devia estar a escolher biberons, e leite, mas em vez disso estou a escolher perfumes. Os frascos são lindíssimos. A mulher da farmácia diz-me que cheire um e outro e depois diz:
- Não pensava vender este frasco, por isso até deixei que levassem a estatueta de cristal que fazia de tampa.
Mas mesmo assim o frasco continua a ser lindíssimo, e também tem tampa. Depois peço á mulher um anti-depressivo. Estou quase a dizer-lhe que é porque estou com uma depressão pós-parto, quando me lembro que não devo dizer a ninguém, por enquanto, que tive um filho. Então digo que é uma depressão menstrual. E começo a ver os frascos de anti-depressivos e são embalagens transparentes, com a sua fórmulo química organizada no interior como se fossem jóias, a cintilar com um fulgor extraordinário. As embalagens, não sei porquê, são hexagonais. E no seu interior transparente, organizam-se as cadeias de moléculas, que parecem feitas de pequenos rubis e esmeraldas e topázios, a brilhar, a brilhar.

Penso: «A medicina avançou extraordinariamente».
E a mulher da farmácia diz:
«Esta é uma conquista do século XXI.»
Então falo-lhe do meu filho. E digo que não estava mesmo à espera, e que achava tão improvável ter um filho.
E aquele filho não era filho de homem nenhum.

Como se estivesse em Paris

NOITE DE 7 PARA 8 DE MARÇO
Percorro salas e corredores de uma casa muito grande. Depois subo escadas com a sensação de que me quero esconder de uma pessoa muito aborrecida que me rodeia de atenções, mas com quem eu não quero perder tempo. E essa pessoa é uma das minhas aias e vive no palácio.
Estou a subir um lance de escadas, de madeira, e ouço a voz a perguntar:
«Quem está aí?»
Estou muito alegre. Continuo a subir as escadas, agora a correr. Respondo:
«Sou eu» -- e digo o meu nome próprio. E estou contente por correr tanto, porque agora estou no último andar. E entro numa sala ampla que dá para um terraço, e salto da janela para o terraço. É um terraço grande, irregular, bonito, com vasos de plantar e canteiros, e pequenos muros a marcar separações. São muros do próprio chão, como se o terraço tivesse sido o aproveitamento de um telhado plano.
Há muita luz. Dali vêm-se outros terraços, alguns ainda mais bonitos. De certa forma sinto-me como se estivessemos em Paris, de onde vim há poucos dias.

Um grupo de pessoas junta-se a mim. Fico aborrecida. É um grupo de mulheres idosas, solícitas e barulhentas. Instalam-se à minha volta em pequenas mesas, e prepararam-se para o chá. Delicadamente tento convencê-las a não ficarem ali. Depois lembro-me que tenho poder. Uso o meu poder para lhes dizer que quero estar só.
«Estou a fazer meditação» -- digo. E empurro-os para dentro da sala, pela janela de onde saímos. Vão-se embora, parecem um bando de crianças velhas. Uma delas diz, azeda:
«Está bem, mas vais pagar o bolo».
Fico ligeiramente incomodada com a forma como ela me tratou, mas sinto um enorme alívio por me ver livre delas. No terraço há um homem. É um rapaz. É conhecido delas. Reparo nele, olho-o disfarçadamente. Fico desapontada por perceber que ele nem olha para mim.
[...]

sábado, 21 de novembro de 2009

Uma viagem com o meu amigo

NOITE DE 28 PARA 1 DE MARÇO DE 1998

Fiz, e ainda estou a fazer, uma viagem com o meu amigo. Chegamos a uma pensão. Ainda não é o destino final da nossa viagem. Ele fica num quarto mesmo á entrada, eu sigo pelo corredor, e fico num quarto, ao fundo, à esquerda. Nessa pensão há duas crianças execráveis. Fazem muito barulho próximo do quarto onde ele está. Então eu volto atrás e vou falar com a mãe deles, que é uma mulher que fala muito de ópera. Ela é muito aborrecida. Eu estou a conversar com ela com a desculpa de tentar convencê-la a mandar calar os filhos, e a falar, ela própria, mais baixo também, mas no fundo sei que estou a alimentar uma conversa para ter a certeza que o meu amigo acorda. E ele acorda.
Eu digo:«Vê, estava a pedir-lhe para falar mais baixo e para fazerem menos barulho».
E a minha filha pergunta-me:«Porque não foram a Peniche? Era mais bonito.»
E eu, que queria tanto fazer antes essa viagem digo-lhe que detesto aquela terra, e só irei lá se for preciso, e em trabalho. E o meu amigo leva-me junto de uma torneira e juntos bebemos água que sai do bocal.

Depois vamos apanhar uma camioneta, e eu descubro que vamos para o mesmo lado. E ficamos na mesma fila. E só ficamos separados por um homem, que se senta entre nós. Eu vou no banco da frente (ou no de trás, não me lembro), o homem vai a seguir, o meu amigo depois (ou antes, não me lembro).

A Hora do Corvo

NOITE DE 26 PARA 27 DE FEVEREIRO DE 1998

Uma linha inaugural de metropolitano. Vai atravessar o rio e servir a margem sul. É quase sempre de superfície. As carruagens são muito boas e espaçosas, e a viagem dura mais ou menos três quartos de hora. Penso: «as pessoas que vão viajar aqui todos os dias, à mesma hora, vão acabar por se conhecer, e até toprnar-se amigas umas das outras.» E acho essa prespectiva muito interessante, aplicada aos utentes daquela linha. [...] Penso: «é muito engraçado para mim, porque se trata apenas de uma viagem inaugural.» Saímos numa paragem porque a Marta quer fazer compras, e ver as lojas daquela estação. [...] Mas à medida que nos afastamos a luz torna-se mais fraca, e não há lojas nenhumas. Digo:
«Vamos despachar-nos porque se não ainda perdemos o metro.» Se isso acontecer é muito desagradável. Vamos ter de esperar a ligação a seguir, e ficamos sem fazer nada durante quase uma hora. Mas quando chegamos à linha, e já vamos a correr, o combóio está a arrancar. Não conseguimos entrar, embora, dentro das carruagens, e junto das portas abertas, as pessoas nos incitem a saltar para dentro das carruagens. Mas é perigoso. Ficamos na plataforma, a ver o comboio afastar-se cada vez com maior velocidade, até que surge um homem carregado de sacos. E é um homem da estação. Tem o poder de fazer parar as carruagens. E à frente dele pára uma das composições, e ele começa a colocar os sacos lá dentro. Estamos próximo dessa carruagem, mas, quase em frente de nós há outra, também parada, e é uma espécie de vagão de mercadorias. O homem da estação aconselha-nos a saltar para essa, e entrar logo ali. Se formos ter com ele podemos já não ter tempo. E parece que o importante é entrar, depois logo mudamos.
A carruagem está fechada. Agarramo-nos aos varões de aço inoxidável e apoiamo-nos em pequenas plataformas de madeira. É um apoio seguro, mas desconfortável. E faz algum medo, sobretudo quando o combóio começar a desenvolver velocidade. Batemos à porta da carruagem, mas não nos abrem. Só podemos contar com a nossa força. As pessoas que estão dentro da carruagem não querem deixar-nos entrar, porque não gostam de estranhos, e estão muito habituadas umas às outras.Continuo a bater, até porque vejo que a Marta está numa posição mais instável do que a minha, embora ela diga que está bem. Mas eu estou preocupada com ela.
Então uma porta abre-se e saiem dois homens. Têm braços muito fortes. Agarram-se aos varões e dizem-nos para entrarmos. Trocam connosco de lugar. Seguram-nos e colocam-nos dentro da carruagem. Digo-lhes que não é preciso trocar porque cabemos todos lá dentro, mas eles não me ligam.Lá dentro é muito confortável, e muito divertido. Não há bancos. O chão está coberto de mantas, e por cima tem um pano branco, como se fosse um lençol. Viajamos deitados, e mesmo em frente de nós há duas janelas panorâmicas por onde podemos disfrutar da paisagen, porque estamos mesmo atrás dos bancos do condutor. Parece que aquela carruagem é autónoma, tem um condutor só para ela. Ou dois.
Dentro da carruagem toda a gente está muito divertida, muito bem disposta, embora não perceba bem porquê. Fico muito contente por ter mudado, porque esta viagem é muito melhor.

E quando acordo há uma coisa que me lembro muitas vezes, e durante o sonho também. É que eu estou na Hora do Corvo.

domingo, 1 de novembro de 2009

Dançar como quem respira e mais e mais

NOITE DE 26 PARA 27 DE FEVEREIRO DE 1998

É uma terra estrangeira e familiar, um local de trabalho onde me sinto como se estivesse de férias, porque tem uma luz lindíssima, como se fosse de Verão. Faz-me lembrar a luz do Alentejo. E é muito quente. Estão a construir uma rampa que eu costumava subir e que era muito íngreme. Agora, há  máquinas a nivelar o piso. Só que nivelam o piso esmagando todos os carros que estão ali estacionados, e espalhando depois terra e brita por cima deles. Vejo as máquinas a calcarem os carros, e a tapá-los com terra, e a aplanar o caminho, e eu ando à procura de casa, só que já tenho casa. E é uma casa que partilho com um amigo meu, que é estrangeiro, e temos dois filhos que são dele. [...]
O meu amigo entra. É estrangeiro. Digo-lhe: «Devíamos casar». [...]
Entretanto começamos a dançar. Fico espantada, não sabia que ele sabia dançar. E ele fica espantado: não sabia também, que eu dançava. E à medida que vamos dançando é como se eu adivinhasse os passos dele, que são lentos e muito elaborados, e não é nenhuma dança que eu tivesse conhecido antes, ou que alguma vez tivesse aprendido. E é como se fosse uma respiração, e é deslumbrantemente bom. Sinto uma segurança muito grande nos braços do meu amigo.

E depois há uma festa de trabalho. Há muita gente que vem a essa festa, e eu preciso de lá estar. A essa festa vêm japoneses, porque há associações que vão ser levadas acabo, e o meu trabalho tem a ver com isso. Parece que vou ser apresentada a umas pessoas, e é por isso que me pediram para lá estar. E entretanto vamos conversando uns com os outros, e apresentam-nos a umas pessoas, entre as quais se encontram crianças prodígios. São crianças horrorosas, como as que vi (ontem) num programa de televisão.
Essas crianças desaparecem de seguida.

Subo umas escadas e estou no último andar do prédio onde vou viver, e há muita luz que se derrama pela clarabóia do tecto. Do patamar onde me encontro e as escadas têm azulejos arte-nova, muito bonitos, mas alguns estão estragados. Vou começar a viver naquele sítio e a senhoria, que está comigo, diz:
«E preciso mandar arranjar estes azulejos».Pergunto:
«Onde posso encontrar quem conheça ainda esta técnica?»
Ela diz que é muito fácil. Acontece que no mesmo prédio onde estamos, exactamente no andar debaixo do meu, há um homem que ainda trabalha nisso. «É um artista, um mestre», diz ela. E chama por ele. O homem sai de casa. A casa dele fica mesmo por baixo, à direita. É um homem horroroso, tem um cabelo muito comprido atrás, todo emaranhado, muito oleoso. É um homem que me faz lembrar aqueles personagens que viviam no Pártio dos Milagres. Vêm outros homens com ele e eu tenho nojo.
O homem sobe as escadas na minha direcção, e à medida que sobe as escadas percebo que tem um rosto claro e bom, emoldurado pelas farripas brancas do seu cabelo de artista. Agora sei que é uma sorte conhecê-lo, porque é raríssimo encontrarmos artistas que, para além de perceberem estas técnicas, ainda por cima são os autores dos trabalhos.
Ele é do Porto. E diz-me que eu estou muito maravilhada a olhar para aqueles azulejos de flores e ramos, que são muito fáceis de fazer, e que não têm nada de especial, e ainda não vi o mais importante. Mostra. à minha direita, no patamar que leva ao último andar, azulejos que são paisagens do Vinho do Porto, coisas mais ou menos abstractas. O homem diz:
«Isto é que é um bom trabalho.».
Mais acima, há um nicho na parede, e nesse nicho está uma instalação em xisto. As pedras, negras, estão colocadas de tal forma que parecem sugerir o corpo de Cristo. O nicho está parcialmente coberto, na superfície da parede, com uma rede de galinheiro, esburacada. O homem diz:
«Estas pedras são raras.»Fico espantada, porque aquela obra é de uma grande contemporaneidade. E penso, de repente, nos trabalhos que queria fazer e que têm a ver com aquelas formas que o homem me está a mostrar. E são trabalhos que têm a ver com o Porto. [...]