terça-feira, 29 de junho de 2010

Eu, o assassino da rapariga loura e o homem de Angola

Noite de 12 para 15 de Setembro 2001 (publiquei antes a versão em inglês)

Estou dentro do carro com o assassino da rapariga loura. Ele estrangulou-a, com um fio de nylon. Evidentemente, vai também matar-me. Mas agora está a falar delicadamente comigo. É gentil e simpático. É um homem magro, de rosto comprido, normal. Eu estou do lado do volante e penso velozmente em todas as oportunidades. Será que consigo sair, abrindo a porta num movimento rápido? Vejo um canivete no tablier. Imagino a cena: espeto-lhe o canivete nos testículos quando ele me estiver a estrangular, e ele, com a dor, vai ter de me largar e eu fujo. Na verdade, a cena que imagino concretiza-se porque agora estou na rua, que é uma estrada – penso que tenho o mar à minha direita – e meto-me num táxi pedindo ao motorista que me leve ao Hospital. Tenho a garganta cortada e vou precisar de assistência rapidamente.
Mas mesmo no hospital não estou em segurança. O assassino e os seus amigos vão procurar-me para me matar. No quarto onde estou, meto-me debaixo da cama. Eles entram mas não se lembram de espreitar. São três. Depois, arranjo maneira de me porem numa maca, coberta com um lençol como se fosse um cadáver e levam-me pelos corredores sem chamar a atenção até me transferirem daquele hospital. Assim, os criminosos  perdem-me o rasto.

Depois estou numa armazém e vejo uma lista com uma faca em cima, pregada uma pasta de papel. É para mim. Eu tiro a faca e desdobro o papel e vejo uma série de informações que não pedi. Ou melhor, não me recordo de ter pedido. São títulos de cartas que eu terei recebido ao longo de meses. Todas do mesmo homem. O homem é de Angola e a fortuna dele vem ali explicada: é multi-milionário.
Eu não me recordo de nada, e não percebo porque razão aquela lista está ali à minha espera. Releio as informações até que chego a uma cifra. É a conta: 103.311$50.
Eu não tenho dinheiro nenhum. Como me foi acontecer aquilo? Eu recordo-me vagamente de ter contratado um detective para me analisar umas cartas que andava a receber. Na verdade, só lhe perguntei quanto cobraria por essa tarefa. Ele disse-me que depois fazia um cálculo e me avisava.
Mas pelos vistos o detective não esperou pela minha aprovação.
Começo a recordar-me do homem de Angola. As suas cartas são extremamente carinhosas. E agora, no armazém, estou com a irmã do homem de Angola que anda por ali a trabalhar. Ela sabe o que se passa.
É uma mulher minúscula, metade do meu tamanho, mas cheia de força. Diz-me:
- Não estás a pensar meter outras pessoas a solucionar-te um problema que só tu arranjaste, pois não?
Respondo-lhe que não, mas que acho normal pedir ajuda.
Ela é muito dura. Ela resolve todas as suas coisas. Mas ela tem muito dinheiro e não tem problemas destes. Aliás, eu estava a pensar pedir ajuda a ela. Ou então, ao irmão. Afinal, se ele gosta de mim, why not? 

Mas agora estou longe do armazém. A meio de um monte. Penso que continuo com o mar à minha direita. Há vários grupos de políticos que chegam e passam por ali. Vão todos para o alto do monte, onde há um encontro qualquer importante. Eu estou com o homem de Angola, e ele dá-me a mão. Junta os seus dedos fortes, o indicador e o médio, aos meus e é muito agradável.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Lucid dreams

 Or how to get a new mind tool. Enjoy!

A aranha voadora e a filha do vagabundo

Lisboa, noite de 16 para 17 de Junho 2010
Há muita vigilância sobre estudantes. Indirectamente, eu pertenço ao grupo dos vigiados. Há polícia por todo o lado e sente-se a tensão no ar.  Depois os estudantes aparecem montados num aranha gigantesca, mesmo muito gigantesca, tipo eléctrico com vários abdomens a servir de atrelados. É uma aranha muito mansa, mas está muito aborrecida. Isso vê-se pela expressão dos seus olhos multifacetados e inexpressivos. Eles desfilam pela rua principal da cidade, em cima dela, e eu estou no meio da multidão que os observa.  Os policias sentem-se desconfortáveis. Não sabem como agir. Diz-se que aquela aranha também sabe voar. Os estudantes passam-me essa tarefa.
Então eu estou montada no dorso da aranha, mas é muito dificil manobrá-la para levantar voo, porque estamos numa rua estreita, secundária, e coberta. É uma rua cheia de gente, que não queremos atropelar. Então, levo a aranha um pouco pelo chão e um pouco pela parede, para ela criar velocidade e poder levantar voo, no fim da pequena rua.
É uma manobra arriscada. No fim da rua há um prédio em frente. Temos apenas uma nesga de céu aberto para levantar voo. Não sei como, mas consigo fazer com que a aranha levante voo. 

Depois vejo o Sérgio, que é o vagabundo mais famoso da nossa zona. [Ele é muito alto, tem cabelo louro, e nos últimos anos criou uma grande barriga. Dorme nos bancos do jardim, vê televisão nas monstras das lojas e não fala com ninguém.] Vejo o Sérgio mas ele não está sozinho, leva uma criança num carrinho de bebé. É uma menina. É filha dele. É linda. Tem três anos, e está bem tratada, limpa e tudo, mas  tem um ar muito sério, quase triste porque ninguém comunica com ela, e ela não comunica com ninguém. O seu pai não fala. Ele empurra o carrinho. É um carrinho apanhado no lixo, todo desengonçado. Eu não me atrevo a perguntar-lhe nada, porque é um vagabundo muito silencioso, mas duas mulheres crivam-no de perguntas. Essas mulheres são estrangeiras. Ele responde por monossílabos, e vai-se embora. Mas não está zangado nem nada, e isso espanta-me.
A criança acena, com as suas pequeninas mãos, como se quisesse ajuda. Eu não sei o que fazer, mas as duas mulheres estrangeiras sabem muito bem: aproximam-se dele, outra vez, tiram a criança do carrinho, e perguntam ao Sérgio como é que ela se chama, e oferecem-se para cuidar dela. A menina, no colo delas, olha para mim e estende-me os braços. Eu tenho quase vontade chorar, de tanto que desejo cuidar dela. Estou espantada por ele responder às estrangeiras e não parecer muito incomodado com a interferência delas na sua vida de vagabundo.
Eu estou realmente muito espantada com isso. Depois encontro o pequeno vagabundo que cresceu. Era uma criança abandonada que eu costumava ajudar. Desapareceu durante anos. Esteve no estrangeiro. Agora voltou, está muito bem vestido, e corre para mim de braços abertos:
-- Agora tenho uma vida óptima. Vês como tudo mudou? -- abraça-me com toda a força e eu estou muito comovida, porque cheguei a pensar que ele tinha morrido e tudo, e afinal a vida correu-lhe bem e ele safou-se.
Então penso que para o Sérgio ainda há esperança. E para a filha dele, todos os caminhos estão abertos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A rosa de fogo

Noite de 15 para 16 de Junho de 2010
A mulher está do outro lado da margem do rio. É um rio estreito. A mulher é jovem. Ela atira-me coisas. Sao engenhos explosivos. Vários tipos de bombas, artesanais ou sofisticadas. Eu apanho-as e lanço-as para longe de nós. A certa altura farto-me e atiro-lhe uma daquelas coisas de volta. Não lanço porém com muita força e o engenho cai no meio do rio.
Eu não quero causar danos, então entro na água para apanhar a bomba e atirá-la para longe de nós as duas e para fora do rio, por causa dos peixes. É uma coisa feita com barras de dinamite castanhas e um mecanismo para detonar. A mulher jovem não tem qualquer expressão no rosto. Eu percebo que fiquei sem tempo. Não sinto medo, nem dor, quando aquilo explode entre os meus dedos. Com o impacto da explosão subo, subo, subo no céu. Tenho entre as mãos uma rosa de fogo a arder, mas não me queima.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Eu e o meu casamento com o Homem Moreno

Noite de Domingo, 16 de Setembro 2001
Vou-me casar e estou a preparar-se para a cerimónia. No meu quarto, procuro o estojo de maquilhagem, o necessaire e coisas separadas que andam por ali. Batons, lápis, rimel, etc. O quarto não é bem o meu quarto. É, parece-me, um lugar de passagem. É um quarto de raparigas. Depois, o quarto está cheio. Amigas, sobretudo. Vejo a Cristina, que é a única que me apetece ter junto de mim, naquela altura. A M. L. também se junta ao grupo. Não consigo arranjar-me, no meio daquela confusão. Digo:
– Quero tudo fora daqui, já.
Elas parecem ficar surpreendidas, mas saem na hora. Eu digo à Cristina:
– Tu não, preciso de ti.
Ela fica.
E a verdade é que me vou casar com o Homem Moreno. À minha volta há aquela alegria natural das festas. As pessoas parecem muito contentes. Eu sinto que aquele é o desfecho lógico, e que contribui muito para que isso acontecesse. Só que eu não conheço bem o Homem Moreno. Também não é isso que me preocupa. Preocupa-me não me recordar quem era a pessoa que fazia parte da minha vida antes dele.
E preocupa-me, também, saber se gosto dele, e se ele será o Companheiro ideal. 
Peço ajuda, não sei a quem. Quero, desesperadamente, saber com quem andava antes de me ligar ao Homem Moreno. Sinto que, se casar com o Homem Moreno, que já está à minha espera e que parece profundamente encantado comigo, posso estar a trair alguém. Penso:
«Quem é que deixei para trás? A quem vou magoar? Será que me estou a envolver, e de uma maneira muito séria, quando há outra pessoa na minha vida de que não me recordo?»

Ninguém me consegue ajudar. O Homem Moreno tem um grande amigo. Esse grande amigo gosta muito de mim, e é solidário connosco porque é o grande confidente do meu noivo. Eu sei que ele me vai apoiar. Estou com algum receio que a minha vida mude muito, mas, acima de tudo, o que me angustia é a falta de memória.
E de repente, ou mudo de sonho, ou é mesmo nesse, ou acordo, e lembro-me, como uma revelação: como posso ir-me casar com o Homem Moreno se já vivo com o Otto?



Uma ilha, duas praias, barcos e jovens muçulmanos

Noite de Sábado 15 de Setembro

Avançamos por uma praia recortada por mar. Estamos longe da terra, próximo de um pontão muito, muito comprido, e próximo ainda de uma outra praia. No pontão podem ancorar barcos, de recreio, ou de longo curso. Eu gosto de ir pelo pontão, mas para já estou mais próximo desta praia, rodeada de mar por todo o lado. Não é bem uma ilha, mas é quase.
E depois estou no hotel, e há jovens muçulmanos lá. Não sei se o hotel lhes pertence, por uma questão geográfica, ou se, pelo contrário, eles são apenas empregados. Estou a arrumar as minhas coisas quando vejo uma caneta no chão. É uma caneta belíssima. Não tem tinta. Apanho-a mas tenho receio que os jovens muçulmanos me vejam e me acusem de ter ficado com uma caneta que não me pertence. Assim, entrego-a ao estudante que está sentado a uma mesa.
– É tua?
– Não – diz ele.
– Guarda-a e se aparecer alguém a provar que lhe pertence, entrega-a, se não podes acabar por ficar com ela – respondo.
Ele sorri, satisfeito. Depois, viro-me para o frigorífico e começo a tirar a carne para dentro de uns sacos térmicos. Na verdade, estivemos tanto tempo de férias e nunca gastamos tudo o que levávamos. Não quero deixar aquela comida toda a estragar-se. Os sacos ficam cheios rapidamente. É desconfortável imaginar que vou ter de carregar aquilo tudo de volta.

Depois estou de novo na praia, agora na outra, e quero tomar banho. Mas é muito perigoso. Volto para a outra praia onde está a Tita, e penso que me vou embora, no fim das férias e não cheguei a tomar um banho de mar como devia ser. Os barcos continuam ao largo, há barcos grandes, de cruzeiro, e eu sei que se andássemos pelo pontão, durante muito tempo, acabávamos por chegar até eles.

A mercearia, o jardim, o bebé

Noite de Segunda 10 de Setembro 2001

Sonho com uma mercearia. Sonho com uma rua íngreme, na parte antiga da cidade, onde me desloco, a descer com cuidado e algum à vontade. Sonho que o meu cabelo está lavado e bonito.
A mercearia fica na parte velha da cidade, num local que me é muito familiar, porque já lá  vivi. E é um lugar aonde vou de vez em quando. Agora estou a descer a rua, íngreme e estreita,  flectindo as pernas, como no Tai-Chi para não perder o equilíbrio e conseguir deslizar, confortavelmente e sem risco de cair.

Depois, a Tita está a pôr uma fralda num bebé. Não sei de qual das duas é esse bebé, embora a princípio ele seja mais dela do que meu. E a maneira dela pôr a fralda é deixando uma folga, para depois meter um gancho, para o bebé ser içado para um helicóptero que o vem buscar. E ela explica-me, várias vezes, como fazer isso. É uma fralda de pano, colocada em triângulo como antigamente se fazia, com um alfinete de segurança à frente.
E eu tenho o cabelo molhado, muito forte e muito macio, e estamos num jardim cheio de gente. É um jardim com esplanadas, com uma vereda em degraus. E eu pergunto a quem está junto de mim:
“Não é verdade que o meu cabelo está bonito?”

Depois, estou descer a vereda de mão dada com o bebé que agora é  um rapazinho, muito pequeno, mas que já fala. E nós estamos a ter um diálogo incrível, só que às vezes não consigo ouvir bem o que ele me diz porque as pessoas à nossa volta falam mais alto. Então, curvo-me e ele repete tudo, e continuamos a conversar. Eu acho estranho termos uma conversa tão rica e tão coerente, sendo ele tão pequeno. E sobretudo pelo elo de empatia que há entre nós. E acho que as pessoas não podem deixar de reparar nisso, e forçosamente ficar espantadas.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Me, The Murder Man and The Man From Angola

Noite de 11 para 12 de Setembro 2001
I am in the car with the Murder Man, who killed the Blonde Girl. He’s a pale guy, pretty polite and he’s talking about stuff, nothing important really. He shows me some documents, concerning his talking, and goes on speaking in a civilized way. He’s not talking about murdering or whatsoever nor is he tracking me. Although I do know he will try to murder me. That’s his intention. And I also know that he doesn’t feel sorry about the poor Blonde Girl. He just has no feelings toward people. I’m not in panic. I’m in stress thinking over how to escape. I’m sitting behind the steering wheel. I know the Murder Man is going to killed me with a nylon row around my neck, the same way he killed the Blonde Girl. I figure out may be I’ll have time to run away if only I would have something to defend myself. Then I realize there is a little Switzerland army knife in the dash board. In my mind I picture the scene: I’ll drill his guts because a little knife like that can’t be useful for attacking hearts or whatsoever. Plus, the man is strong. His guts are his weak point. Anyway, imagining it is, suddenly, having it done. Now I’m running away the car, but I’m hurt. I have blood in my injured neck. Anyhow he managed to attack me, I don’t know how and when. This part of the action – me attacking him, him attacking me –, was not recorded or even took place in the dream. Anyway, I am now running to a cab and asking the driver to drive me to the Hospital. Then, I’m already in the Hospital, but the Murder Man has friends who are there searching for me. I realize I need to hide myself under my bed. They enter the room, but they don’t look under the bed. Ten I realize also I must take off to another hospital. I don’t know how many of them are still around the place. So I put myself in a litter, covering my body with a blanket, like if I was a corpse going to the morgue and I made myself being drive to those huge corridors, safe and hidden, and they managed to take me off to another safe place.

And then, in the very same night, but in a completely different scenario, with no memories of the other dream, I’m entering a warehouse, where somehow I work or somehow belong to me. And in the wooden wall there is a long list, written in several sheets of paper, fixed on the wall by a tiny knife. I take the list realizing that it has lots of information about some letters, whose subjects, in tittles, are included in the list. All letters were written to me by the same man: the man from Angola, and there is an explanation about the man’s huge fortune. He’s multimillionaire because he has all his business in Angola.
I don’t understand why I’m receiving all those information. I don’t even remember I’ve been receiving so many letters from that Angola Man. I keep on reading and I get horrified as I discovered I have to pay to the detective I even don’t remember to engage. And the bill is bigger than I can afford.
And now I begin to remember about the Angola Man, not him really, but his extremely affectionate letters. But I’m deeply concerned about my debt. The Angola Man’s sister is working around in the same warehouse. She’s very small about half of my size, but she’s incredibly strong. She tells me:
– You are not thinking of asking someone else to fix the problems you got to yourself, are you?
I say:
– No, course not, but I think it is pretty normal to ask for help.
She’s very tough. She can handle her own business. But she’s very rich, she doesn’t have to deal with this kind of shit. Anyway I was thinking of asking for her help all right. Or for Angola Man’s help. Why not if he’s so found of me? It is so little money for them!
Now I’m far from the warehouse. On my right hand there is the seaside. I’m climbing a little mountain. Several politics are around, claiming the mountain also. Everybody goes to the top of the hill. Over there, there is an important meeting. And now that man of Angola is with me holding my hand affectionately. His fingers are strong.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O Tigre e o voo dos pássaros


Noite de Sexta-Feira, 5 de Outubro 2001
Estamos dentro de uma casa de aldeia. Não conheço as pessoas, mas, naquele contexto, tudo se torna familiar. A casa não pertence particularmente a nenhum de nós, mas todos a podemos usar. Está  uma tigela de leite no chão. Um dos homens está a fazer queijo. Ele deita flores de nardo dentro da vasilha. Os outros estão a fazer outras coisas. Naquela casa recriam-se actividades antigas, como essa de fazer queijo de forma não industrial. Por qualquer razão, eu sou a única mulher. Ou talvez não haja razão nenhuma especial para isso.
Perguntamos ao homem que está a fazer queijo quanto tempo vai demorar para podermos comê-lo. Avançamos algumas datas e o homem ri das nossas previsões (de dias) e diz:
– Em duas horas o queijo está feito.
Como é tão rápido, resolvemos aproximar-nos da vasilha e ver como tudo se processa. O leite coalha e forma uma bola. Assim, no tempo que demora a dizê-lo. Agora o queijo está feito e é só preciso trabalhar aquela bola, espremer o soro, essas coisas.
Então toda a gente sai. Menos eu, e um rapaz que me pergunta se gosto de gatos. Eu sei que aquela pergunta encerra uma armadilha por isso respondo cuidadosamente que sim, mas não tenho tempo, nem vida, nem disponibilidade, actualmente, para ter animais. Os animais precisam de quem lhes dê atenção.
Ele diz que tem um poblema e que não é bem de um gato que está a falar. Na verdade, e através de um circuito ilegal, adquiriu um animal que não consegue tratar nem tem condições para tê-lo. Ele só quer que eu lho guarde uns tempos, ali, naquela casa, até descobrir como se há-de ver livre dele. O animal está dentro de uma caixa de madeira baixa, com grades e com uma tranca de ferro, poderosa.
Eu não quero, mas entretanto não tenho como recusar o pedido. Entretanto, olho para o tigre (ou será uma chita?) jovem que está dentro da jaula, dentro da casa. É um animal de beleza estarrecedora. O pelo, o corpo, os olhos. Sinto vontade de chorar ao vê-lo ali, naquela caixa grosseira. Além disso, o tigre (chita?) tem fome. Não comeu. O rapaz que me pediu para guardá-lo diz-me isso antes de se ir embora.
Eu não quero que o tigre me olhe. Nem que me veja. Sei que isso pode ligar-nos e eu não me sinto com força para assumir essa responsabilidade. Saio, para ir procurar comida para ele.

A casa de aldeia fica numa vila. As pessoas estão em suas casas ocupadas nos seus trabalhos, muitos deles artesanais. Estou num largo, diante da casa do sapateiro. Dentro da casa do sapateiro há crianças.
Mas enquanto ando à procura de comida para o tigre,  não consigo deixar de voltar atrás e ir a casa, várias vezes, para ver como tudo está. É muito estranho. O Tigre não rosna, nem está inquieto nem furioso, como seria de esperar. O Tigre, é um tigre genuinamente feliz, se esta palavra se pode aplicar a este animal, ainda por cima em tais condições. Aqui, no sonho, aplica-se contudo. Além disso, é um animal incrivelmente inteligente. Ele está a tentar abrir o ferrolho da jaula. Paciente e tenazmente.
Um dos homens tinha dito:
– A tranca é muito poderosa. É impossível conseguir abri-la.
Mas cada vez que entro em casa, o Tigre já resolveu mais uma daquelas etapas com as suas patas de veludo. A certa altura a tranca salta. Agora, basta ele dar um empurrão e a jaula abre-se. Encosto-me à porta e tento trancá-la com o meu peso.
Agora a caixa é toda de madeira, sem grades. Ele não me vê, eu não o vejo a ele. Apoio as minhas costas, com toda a força, à porta e tento contrariar o impulso do tigre para a abrir. Ele não se atira violentamente. Pelo contrário, dá impulsos suaves mas firmes. Ele não faz as coisas às cegas. E, reparo eu, não rosna, nem brame. Não parece um animal selvagem.
Com a força das minhas costas, e num esforço enorme, trago a caixa para a rua, e começo a empurrá-la pela rua acima. É um processo muito difícil, porque tenho, simultaneamente, de empurrar a caixa e de empurrar a porta para a manter fechada. Ninguém me ajuda e eu não quero gritar por dois motivos. Por um lado, porque já não tenho forças. Por outro, porque não quero que o tigre perceba o que se está a passar, e que com um pouco mais de energia pode abrir a porta.
Então vejo um polícia a conversar à porta de um café. O polícia vem ajudar-me quando lhe conto o que está a acontecer. Mas eu não quero que o tigre seja levado para uma esquadra, e depois para um jardim zoológico. Estou num dilema terrível. Eu e o Tigre (ou a chita?) já temos uma ligação. Sinto-me profundamente ligada a ele. Quero devolvê-lo ao seu mundo. O polícia tranquiliza-me: o tigre vai ser entregue aos cuidados de um grupo de Defesa da Vida Natural, com quem ele trabalha, e que é um departamento da sua esquadra.

Então o tigre solta-se.

Não sei como foi, mas agora está livre. Nunca vi uma criatura tão bela e tão feliz. Ele corre e salta pelo prazer de correr e saltar e estar vivo. Ele salta de uma maneira inconcebível, à altura do voo dos pássaros. Os seus saltos são de uma beleza geométrica, pura e indizível.
Sei que ele está com fome, mas ao contrário do que seria de esperar, a sua primeira acção não é atacar ninguém à procura de comida. É sentir, literalmente, a alegria da liberdade.
Sinto lágrimas a correr-me pela cara abaixo. Digo ao polícia:
– Vê? Como se pode prender um animal destes? Como se podem meter animais assim em jaulas e jardins zoológicos? É um crime.
Agora, estou com os elementos da Brigada da Conservação da Natureza. Peço-lhes comida para dar ao tigre. Um deles tira de um cilindro de metal, a baixíssimas temperaturas, uma caixa de tampa amarela que tem bisnagas de comida para tigres. Está tudo enevoado por causa do frio, mas, nas bisnagas, a comida, um concentrado fortíssimo de proteínas, está à temperatura ambiente.
O homem diz:
– Meta a bisnagas entre as grades e tente meter a comida na boca do tigre.
Respondo que prefiro pegar-lhe ao colo. Então, estou a agarrar numa criança de três anos que me estende os braços como se estivesse a abrir as asas. Meto-lhe a comida na boca. Sei que vai voltar a ser tigre e que vai ser devolvido à sua natureza. Mas os homens que vão tratar disso prometem fazê-lo de uma forma não traumática. Sei, também, que vou sentir a falta dele para sempre.
A criança chupa gulosamente a pasta que sai da bisnaga. A cara da criança está suja com bocados de comida que lhe escorrem dos cantos da boca. Ela come sofregamente porque tem muita fome, mas está muito bem disposta.

Eu quero ir ter com o Otto mas não pelos subterrâneos.

NOITE DE 25 PARA 26 DE OUTUBRO DE 2000
Estou com o Otto e vamos entrar num local de diversões, que está agora desactivado. Vamos lá almoçar. Ou jantar. Vamos lá tomar uma refeição. Estamos muito bem dispostos. O local não é deserto. Entramos para uma sala, e já lá está mais gente. Só que a certa altura já são muitas pessoas a juntarem-se à nossa mesa.  Eu trago um prato que o cozinheiro me passa, e pergunto para quem é, mas toda a gente está servida. Há comida a mais.
Então eu e o Otto saímos, e a certa altura estamos naquela espécie de feira. Ele quer ir a um dos restaurantes mais feios, e digo que não. É uma espécie de Hamburger House, no primeiro andar de um edifício velho e feio. E estamos nas escadas e de repente ouvimos um ruído caótico e dissonante, de  uma harmonia aterradora. Gritos de loucos, choros de crianças, vozes de mulheres, e uma melopeia de vozes sincopadas que pronunciavam umas palavras, como se fossem mantras.
Ficamos paralisadas de espanto e de medo. O grupo, um grupo enorme, de negros, homens, mulheres, crianças, passa por nós, em passo de corrida.

E agora, volto a ouvi-los. Estou junto do segurança do Parque, e quero meter-me na casa onde ele estava, mas ele não abre a porta. Diz que não podemos fazer um gesto ou um som, quando eles passam:
“Se olharmos para eles e eles olharem para nós, é o fim” – explica num murmúrio.
Eu estou a mastigar uma ervinha e paro, congelada. Os gritos e os murmúrios crescem à medida que o grupo se aproxima de nós. Há uma altura em que sinto que eles nos olham. O porteiro tinha dito que eles destruíam as pessoas, completamente, quando isso acontecia. Eu só não consigo perceber é porque é que não reforçam a guarda. Ou porque é que o problema não é atacado de raiz.
Enfim, eles desaparecem e respiro de alívio. Depois, o Bernardo está comigo e o homem deixa-nos entrar para a casa do guarda. Lá dentro há escadas em caracol. Podemos descer por ali, e atravessar sob o chão, para o outro edifício. Eu quero ir ter com o Otto. Depois digo ao Bernardo que não vou por baixo, porque tenho medo.

Eu quero ir ter com o Otto mas não pelos subterrâneos.