sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

O Museu de Cera dos Fantasmas

NOITE DE 24 PARA 25 DE JANEIRO DE 1997
Há um rato preto no meu caminho. Parece um monte de pelos, mas quando passo por ele desembrulha-se. É um rato enorme, comprido, quase ameaçador. Sinto-me um pouco horrorizada, mas quando percebo que não me vai atacar, pelo contrário, está a fugir em direcção a uma lixeira que há à nossa esquerda, deixo de me preocupar. Mas atrás de mim vem um rapaz, um miúdo, a correr atrás do rato para o matar. O miúdo tem seis anos.
Então é uma perseguição, com o rato obstinadamente a fugir para salvar a pele, e o miúdo aos gritos com um pau na mão para o matar. Então faz-me impressão, porque acho uma crueldade. O rato às vezes pára e olha, eu só não quero que ele venha para cima de mim, mas não vem. E também há um homem com o miúdo, a instigá-lo a matar o rato. Então eles encurralam-no em direcção a uma casa, é uma casa que parece que tem a fachada de um liceu antigo, depois parece mesmo é a casa da mãe da Alexandra, no Porto, só que é diferente, e eu grito para não fazerem aquilo, e a casa é como se se transformasse numa ratoeira onde o rato se mete, e o miúdo fecha a porta como se fechasse a porta de uma ratoeira, e eu grito para ele não entrar naquela casa, mas ele entra.
E agora estou dentro de casa e é uma casa assombrada. Mas não faz medo porque são assombrações halográficas, uma espécie de museu de cera de fantasmas. Mas são fantasmas coloridos, bem dispostos, figuras de séculos passados. Por exemplo, um homem enlaça duas raparigas, vestidas com umas saias de balão floridas, muito bonitas. Eles sobem e desçem as escadas a cantar. É muito agradável vê-los e ouvi-los. Depois, noutro canto da casa, há personagens também de séculos idos, e é como se cada um tivesse o seu lugar delimitado. Ninguém se atropela.
Depois eu estou no cimo das escadas a falar com a mãe da Alexandra a propósito de uma modista, e depois telefono-lhe e é dificilimo arranjar uma modista. E mesmo aquela acaba por me desligar o telefone porque tem de levar o filho ao dentista.
E depois eu fui à procura dessa modista, mas já estou noutro lado. E é uma casa de campo, e é a casa do Francisco P. D. que está cá fora, no terreiro. E não parece nada a casa dele. E há muita gente a chegar. E dentro de casa, aliás a sair, há também uma porção de gente, e no meio uma garota tão minúscula que acabo por lhe pegar ao colo, espantada por ela não ter ficado pisada ou esmigalhada no meio daquelas pessoas. E pergunto onde estará a mãe dela, mas ninguém sabe. Então a mãe aparece. E pergunta-me se eu preciso de facturas para as minhas despesas, por causa dos impostos. Eu digo que sim, dá-me sempre muito jeito. Ela dá-me facturas no valor talvez de oito mil escudos, e eu fico toda contente, até perceber que ela me está a pedir o dinheiro. E não tenho coragem para não lho dar, apesar de ver que aquilo é uma sacanice enorme, um desplante. E fico irritada por não ter desfeito o negócio das facturas.
E depois cá fora o Francisco está a falar de um galo, um galo enorme que está ao longe pendurado num pau de cerca, e pergunta se gosto daquela carne, só que eu não quero comer aquele galo, e de resto o galo até nem é meu. E naquela casa, naquele terreiro de terra batida está a entrar uma porção de gente com um ar um bocado vadio, um bocado duro. São os sem-terra que o Francisco está a acolher.

Quatro Espelhos, quatro caminhos

NOITE DE 23 PARA 24 DE JANEIRO DE 1997
Uma sala ampliada por espelhos a toda a volta. Estou no centro. Alguém me diz que há quatro direcções, quatro caminhos. Os espelhos indicam cada um o seu, são quatro, como quatro são as paredes. É assustador olhar e ver tudo reflectido até ao infinito. Desvio o olhar do jogo dos espelhos entre si. Há estofos vermelhos e móveis pesados de madeira, e lustres e candeeiros. Os espelhos abrem-se, melhor, é como se para mim eles não fossem uma barreira. Eu cruzo os vários espaços. Alguém me tinha dito que o meu lugar era na realidade, no local onde estava, mas agora eu já não sei onde mora a realidade, nem em qual dos quatro mundos me encontro, porque são todos iguais, e eu não sinto impedimentos quando cruzo as várias direcções, como se os espelhos só travassem a passagem a outras pessoas.
E agora ando pelas ruas, atravesso-as, é um mundo igual, cruzo-me com pessoas, pergunto-me:
"É o mesmo mundo onde estava antes, ou é algum dos mundos dos espelhos?"
E sei que não posso saber a resposta. De modo que agora tenho medo de não encontrar o caminho de volta, porque nem sei se há caminho de volta, como nas histórias de mundos paralelos. Uma vez atravessada a barreira, voltar atrás é impossível, porque deixa de haver um "atrás", na infinidade de caminhos que se cruzam e entrelaçam.
Mas a minha maior angústia é cruzar-me com o meu duplo, porque se os espelhos reflectem toda a realidade, em cada um daqueles mundos há uma de mim. E diz-se que encontrar o duplo é sinal de morte, pelo menos para um deles. Li, antes de adormecer, aliás na noite anterior, num livro do Corto Maltese.

E agora estou outra vez a sonhar com o Joshua, não o vejo bem, mas ele está comigo, e eu tenho uma criança ao colo, e vamos à praia só que eu tenho de levar várias coisas e ele não percebe porque razão uma ida à praia implica tanto saco, e apetrecho. Eu revejo a lista das coisas que preciso, e concordo que é um exagero, mas é preciso creme para o bebé, e toalhas, e escova para o cabelo, e secador (imagine-se!) e fato de banho, e já nem sei que mais, e o Joshua está impaciente, e eu resolvo fazer-lhe a vontade, e digo, já não sei para quem, "para ele é simples, mete-se dentro de água e sai e está tudo bem, mas quando ele me vir toda desgrenhada porque nem sequer levei uma escova, é capaz de não gostar muito."
Mas não estou mal disposta nem irritada. Estou mesmo muito tranquila. Como se soubesse que no fim vou acabar por fazer a minha vontade, dando a impressão que estou a fazer a vontade dele.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Peixes. Muitos peixes.

NOITE DE 22 PARA 23 JANEIRO DE 1997
Sonho outra vez com peixes, muitos peixes, estamos a comer à mesa de alguém que não identifico, mas é uma mulher e o marido dela é pescador, e vivem talvez em Setúbal, e ele não está presente, mas ela até está a dizer-nos que nos vai arranjar-nos caixotes de peixe, e assim escusamos de comprar, porque o peixe fresco está tão caro. E eles têm todo o peixe que querem porque o marido tem barcos.
E já não me lembro de mais.

Ondas enormes caem sobre a casa

NOITE DE 21 PARA 22 DE JANEIRO DE 1997
Uma casa ao pé do mar. As paredes são de vidro. Vidro muito grosso. As ondas caem em cima da casa com um fragor espantoso. É um pouco assustador. Mas eu sinto que a casa é segura e aguenta. É uma casa construída para estar ao pé do mar e aguentar com as marés.
Então alguém diz «agora vem aí mais uma! Está é que é forte, cuidado!». E como por vezes as ondas quase enrolavam a casa, penso, se esta é que é forte pode ser um abraço de rebentar com as paredes ou com o tecto. Então começo a pensar por onde posso sair, mas sair, não sei porquê, não é boa ideia. Mas afinal não aconteceu nada de tão dramático, e eu venho até à porta, e encostado à porta está o homem que tinha lançado o aviso. E o homem está a rir. Diz:
“Era uma Honda. Sim, não deixa de ser uma honda, mas não era dessas que estavam à espera”.
Uns metros à frente da porta, está um rapaz parado numa mota potente. E o motor está a trabalhar. O chão ainda está húmido das ondas.
Então eu e a Susana, depois ou antes, não me lembro, estamos dentro de casa a cozinhar. Eu estou a fazer mousse de chocolate, com tantas gemas que dá vontade de comer mesmo assim, e ela está a fazer licor de medronho. Depois chega um grupo de políticos, só que são políticos-estudantes, têm todos 20 anos. E ficam parados à porta. Eu digo-lhe que não pensem vir rapar as vasilhas nem as colheres, porque eu é que vou fazer isso. E rio-me, porque é verdade e eles também se riem. E a Susana pergunta se querem provar a aguardente de medronho, e eles querem, e eu também, apesar de não gostar de aguardente. Só quero mesmo provar.
E é muito bom, apesar de não gostar. E ela diz que, este ano e por causa das chuvas, a aguardente não está tão boa porque está mais aguada.


(Depois acordo e depois volto a adormecer)
E depois estamos num jardim que dá para uma casa, e há uma janela aberta que dá para um quarto, e dentro do quarto, sentado em cima de uma cama de pernas estendidas, está o Marcelo Rebelo de Sousa a falar ao telefone. Ele está a falar muito baixo, mas estranhamente ouve-se tudo cá fora com perfeita nitidez. E ele está a dizer que há fugas de informação no seu gabinete. E por causa dessas fugas de informação é que as sondagens dão o PSD tão em baixo, porque que as campanhas são fantásticas, e os resultados seriam muito melhores se não fossem aquelas fugas de informação. Cá fora, nós estamos a ouvir e a comentar que as campanhas eram uma porcaria, e que ele está profundamente equivocado, ou iludido.
E sonho outra vez que estou grávida, mas é uma coisa espiritual e uma gravidez que não vai ser de um filho de carne e osso. E eu estou muito contente, como se finalmente aceitasse neste, todos os outros sonhos em que sonhei que estava grávida e tinha tanto medo. Agora eu percebo. Agora eu percebo tudo.
imagem: http://www.svms.santacruz.k12.ca.us/Computer_Class/comp/lexi%20w/big%20wave.jpg

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

A pele do peixe fica agarrada

NOITE DE 20 PARA 21 JANEIRO DE 1997
Sonhei toda a noite, ou grande parte dela com peixes. A última vez estou a grelhar postas de peixe-espada num fogão a carvão, e aparentemente alguma coisa não está a correr bem porque a pele das postas fica agarrada aos ferros do grelhador

Tão tranquilo e tão em paz

NOITE DE 19 PARA 20 DE JANEIRO DE 1997
Estou num Centro comercial a escolher perfumes. Há duas lojas, uma no primeiro andar outra na cave. Vou às duas para ter a certeza de que escolho o perfume certo, e aliás na loja do primeiro andar nem encontro nada de especial, porque estão mais especializadas nas essências que vendem a peso, e que não são de grande qualidade.
A empregada diz-me que na loja da cave há mais escolha.
E é verdade. Eu quero comprar dois perfumes, não por necessidade mas por aquele impulso que nos leva a desejar ter perfumes. Provo vários, há frascos lindíssimos, procuro os mais recentes.
Na cave há duas salas de cinema. Numa delas passa o filme «O ABC do Amor», do Woody Allen, só que em vez de ser aquele filme cómico parece ser outro, porque é a preto e branco e os actores que aparecem nos cartazes têm um aspecto mais sério, como se o argumento fosse romântico. Mas eu não tenho tempo, agora, para ir ao cinema.
Cá fora dois travestis entram comigo num carro onde já está um homem. Estamos os três no banco de trás do automóvel, o homem é rico. Sinto-me apertada e tenho medo, porque a cena parece que pode tornar-se pesada. Peço para sair e ir comprar cigarrilhas. O homem, que tem as pernas dos travestis em cima dele, (e eu estou de frente para ele sentada e mal nos seus joelhos, com uma perna de um deles a sair pela janela), diz que não preciso de sair porque tem cigarrilhas ali, e não vale a pena.
Antes, ou depois? vi o Zé no primeiro andar de um edifício, talvez aquela espécie de Centro comercial onde comprei os perfumes. Ele tem a boca pintada e pó de arroz. E penso, olha que bem que ele anda, tão tranquilo, tão em paz.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

"John you faded"

NOITE DE 18 PARA 19 DE JANEIRO DE 1997
Estou algures, talvez no Alentejo, quando se torna conhecida uma decisão do governo: cortar a energia eléctrica a uma aldeia completamente habitada por norte-americanos que se recusam a pagar as suas contas de electricidade. O Presidente Sampaio é amigo do presidente americano, contudo este envia-lhe um telegrama em que lhe diz: «John you faded».
Estou na redacção de um jornal local. Ninguém parece, contudo, dar muita importância aquilo. Eu sinto vontade de rir perante o teor daquele e de outros telegramas que traduzo por «John estás fodido». Não tenho a certeza de que é esta a tradução, e procuro um dicionário. O director do jornal local é um padre, que não percebe muito o meu empenho de fazer uma notícia sobre o assunto, mas eu explico-lhe que pode ser a oportunidade de fazer o seu jornal crescer de importância. De resto, apenas me encontro ali por acaso. Depois convenço-o a mandar-me com um fotógrafo até à tal aldeia de americanos agora sem luz eléctrica nas suas casas.
Mas agora estou com um pequeno grupo de soldados, e eu também pertenço a essa tropa especial. O nosso aquartelamento é mais ou menos no deserto, e portanto tem um ar transitório. Eu escolho a melhor das casas de banho, que mesmo assim não é nada de especial, e tenho que a dividir com outra pessoa. Vou ter com o general peço uma só para mim, “e tem de ser boa”, mas ele explica-me que eu fiquei com a melhor casa de banho das redondezas, basta ir comparar com a dos outros, que até têm que a dividir com mais gente. Então compro alguns objectos básicos de limpeza, nada de muito sofisticado: esfregona, balde e pano de pó, para a manter em ordem. A dos outros é um pouco mais confusa, porque há muito roupa pendurada atrás das portas.
Entretanto vamos a caminho da nossa missão, e subitamente o grupo divide-se em dois, e torna-se antagónico. De um lado os anteriores camaradas, que agora são americanos e disparam contra nós. Somos poucos, estamos separados por montículos, à distância de meia dúzia de metros, e estamos muitíssimo bem armados. Ao meu lado um dos soldados tem um lança-morteiros. Peço-lhe que dispare rapidamente ou corremos o risco de morrer todos. Ele põe uma pistola na minha mão. É tão pesada que a mão até cai. Faço um esforço, uma vez que sou soldado, e ergo-a tentando não tremer a mão para fazer pontaria. Digo ao soldado ao meu lado que vá por trás dos montes desarmar de surpresa os inimigos. Agora à minha frente está só um, que é um perigo. Aparentemente todos os outros se acalmaram, e ninguém ficou ferido. Isso é espantoso,
Mas aquele é perigosíssimo, porque está artilhado de bombas de alto a baixo. Granadas pendem-lhe do peito, coisas ainda mais sofisticadas que granadas amarram-se-lhe à cintura. Exijo que se renda. Ele tem um olhar parado de quem não compreende, ou de quem não tem já nada a perder. Diz “se me tocarem vamos todos pelos ares”. Então ouço a voz da Tita, ao meu lado, dizer que o tem sob a mira e que, ou ele se rende imediatamente, ou leva um tiro na cabeça e morre instantaneamente.
Há um longo momento de silêncio e de suspense. Nós todos pensamos “porque raio não dispara ela de uma vez? é menos um perigo para todos”. Mas ela insiste. E ele acaba por se render, ou seja, larga o fio do cordão que ameaçava puxar e que despoletaria a bomba que nos faria ir a todos pelos ares. Pomo-nos a caminho e somos de novo um grupo coeso, o mesmo corpo de comandos. Há homens e mulheres no grupo, mas não somos mais do que cinco, penso. Digo à Tita (nunca a chego a ver) que ela é um espírito muito elevado, para ter tido um inimigo sob a mira e poupar-lhe a vida. É preciso estar muito acima na escala evolutiva humana, para reagir dessa forma. Ela explica-me que não foi só por isso, embora seja sempre de evitar matar os inimigos. Mas o que a impediu também de o fazer foi uma questão de inteligência, porque se o atingisse, mesmo depois de ele ter largado aquele cordão que estava ligado à bomba, as suas mãos ao escorregarem ao longo do corpo iam despoletar outro engenho, mais perigoso ainda, que estava guardado ao nível das virilhas. Assim sendo só havia uma maneira que era dominá-lo de forma psicológica, a fim de que, e por sua vontade, ele desistisse de nos fazer explodir a todos.
Vamos a andar e eu reparo que, para além dos trajes militares em caqui, etc., estamos todos muito bem calçados, com botas sólidas. Uma das mulheres-soldado acho que está com ténis. Falamos de sapatos, e eu digo que, apesar das minhas, das nossas botas, serem muito boas, agora há outros materiais que ainda são melhores, e que era bom substituir o nosso equipamento. Basicamente os sapatos.
As forças vivas da terra estão num palanque, é uma coisa um pouco desorganizada, porque a terra é pequena, e se calhar também não estavam à espera que aparecêssemos naquela altura. A gente não lhes liga, porque os militares não prestam muita atenção aos civis. E aquilo é um bocado saloio. Nós nem estamos a marchar afinados, mas também não é preciso. Cumprimentam-me e eu respondo fazendo uma continência, sem ligar, e a rir. Pergunto ao soldado ao meu lado se fiz bem e ele diz que sim, que é mesmo assim, mas que se quiser fazer a coisa mais a sério tenho que levantar bem a perna esquerda e marchar, não me lembro dos pormenores.

Cães de guarda vêm ao nosso encontro

NOITE DE 16 PARA 17 JANEIRO DE 1997
É uma daquelas terras que conhecemos em viagem. Espreito por uma janela para ver um portal recortado sob não sei que espécie de luz. Vista assim, aquela construção revela outra atrás, lindíssima, um pouco medieval. Ponho-me em cima de um banco de pedra, embutido na parede para olhar. Depois resolvemos subir por uma escadas, também de pedra, exteriores, que dão para uma cúpula ou um caramanchão de onde podemos ver muito mais. Há uma amiga comigo que conhece aquilo. As escadas são muito estreitas. Quando vamos a descer cães de guarda vêm ao nosso encontro. Rosnam. São perigosos. Penso, não posso mostrar medo, e para não mostrar medo não posso sequer senti-lo. Estendo-lhes a mão, avançando o braço porque quase não há espaço nas escadas estreitas. E eles cheiram a minha mão e vão-se acalmando. Até abanam o rabo como se me reconhecessem. E depois aparece um criado daquela casa, e depois o senhor daquela casa, e ficam espantados por nos ver naquela situação, até porque não era preciso. Bastava termos tocado à porta. E convidam-nos a entrar.
E depois, sei que estou em Espanha a caminho de Portugal, é a mesma terra de há bocado, e encontro o Joshua que vem de Portugal a caminho de Espanha. E percebo que ele fez isto para me encontrar. E que como eu nunca mais não lhe disse nada, nem sequer respondi aquele seu recado sumido no atendedor de chamadas, está a começar a ficar inquieto. Ele tenta falar comigo, mas estou completamente desinteressada, e ele não sabe o que há-de dizer ou fazer.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Uma ilha muito próxima de terra


OUTRO ANO: 1997

NOITE DE 10 PARA 11 DE JANEIRO DE 1997
Por uma razão que ignoro sou condenada, juntamente com um rapaz brasileiro. Eu não cometi nenhum crime, ele sim. A pena que lhe dão a ele é de morte. A mim não sabem, mas estão a deliberar de modo que, não sendo a pena máxima, seja pesada. Estou tão indignada pela injustiça que exijo que me condenem à pena capital. É meu direito reivindicá-la. Eu sei que isso cria um grande constragimento nos orgão de cúpula judiciais.

Movimento-me numa cidade, ou num território, ou seja lá o que for, que é uma casa de muitos andares. Em liberdade. Num dos quartos está o tal rapaz brasileiro. O padre Pedro anda por lá.
Então, e de repente, é véspera de minha morte. Tomo consciência disso de uma forma avassaladora. Penso: agora tenho de escolher a melhor forma de morrer.
Visualizo-as a todas: enforcamento. Vejo-me pendurada por uma corda diante de meia dúzia de pessoas sentadas numa sala como se fosse uma sala de aulas. Acho ignominioso que a minha morte seja assim, e exijo, na projecção mental, que cubram o meu imaginado corpo com capuz até aos pés. Mas assim baloiço imaginariamente com falta de ar, mesmo antes de morrer. Desisto do enforcamento.
Passo ao fuzilamento. Vejo-me diante de um pelotão que atira sobre mim. E surpreende-me a dor que sinto. As balas traçam no meu corpo dores ardentes. E é tão estúpido morrer assim.
Visualizo o gaz. Penso: assim é rápido e indolor. Mas quando me visualizo amarrada naquela cadeira, e a ampola larga o veneno, sinto um pânico horrível e penso que não posso, não devo morrer com aquela sensação pavorosa de medo e de claustrofobia.
E percebo tudo: estou demasiado saudável para poder morrer. É anormal deixar-me matar assim. Ando pelos corredores com este pensamento a queimar-me.
Tomo a decisão de fugir. Urgentemente. Os conceitos, as palavras, que importa tudo isso diante do absurdo da minha morte no dia seguinte, por uma falta que não cometi?
Chamo a Tita. Ela sai de uma igreja onde estava a assistir à missa rezada pelo padre Pedro, uma capela de Centro Comercial, e um pouco atrás dela vem a Ninor, velha e curvada, mas indiferente ou inconsciente em relação ao que se passa. Penso: "lá anda ela a fazer de conta que reza pelos filhos."

Chamo a Tita à parte. Peço-lhe que meta dentro da mochila do Nuno, aquela que ele me empresta de vez em quando, os básicos da minha partida. Roupa interior, os meus cremes, uma água-de-colónia, pouco mais. Falamos em sussurros. Dinheiro não preciso, tenho o suficiente. Próximo, o padre Pedro está no quarto do brasileiro, suponho que a prepará-lo para a morte imediata. Mas não há nenhuma tensão, nenhum drama, nenhum desgosto no ar.
Eu vou fugir para muito próximo, que estranho. E não é por terra que vou partir. É por mar. Ou pelo Sul ou por Ocidente. Sei que há uma ilha muito próximo de terra, uma coisa tão próxima que se atravessa a vau. Tem de ser assim para eu continuar a cumprir o meu Sonho na vida de acordada. Vou para outra terra tem outra jurisdição. Ali estou salva.
Imagem: http://www.jeffpritchard.com/index.html

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

O crocodilo é albino e não tem dentes

Noite de 14 para 15 Dezembro de 1996
Um pequeno quiosque circundado por um cordão de monumento. Parece uma antiga cabine telefónica preservada para a curiosidade do futuro. O telefone não funciona. Ergo o cordão que a protege simbolicamente, porque é mais fácil passar por baixo do que saltar por cima deste frágil obstáculo. A Tita está comigo e eu continuo a segurá-lo para ela passar. Então, atrás de nós, a estrutura frágil, de madeira, da cabine, oscila e quase cai. Fica tombada num equilíbrio instável e eu ouço as vozes risonhas de uns turistas que andam por ali a fotografar curiosidades e que me exortam a não deitar tudo ao chão. Pelo menos enquanto as fotografias não estiveram completas. Fico embaraçada e quero ir logo embora daquele local, mas a Tita fica a falar com eles e não se despacha.
Então avanço até um tanque de lavar a roupa quase em frente, do outro lado da estrada. E vejo que a superfície das águas agitar-se e percebo a sombra de um pequeno réptil que assoma à superfície. Retiro a mão que avançava para a água. A Tita chega e, com um dedo, aflora o ponto onde emerge a cabeça do réptil e eu digo-lhe que tenha cuidado porque parece um crocodilo.
E é um crocodilo que acaba de emergir, agora já em ponto grande. Recuo ainda mais assustada, mas a Tita continua ali, ao lado, a mão quase a afagar a cabeça do monstro que é albino e manchado e abre a boca enorme de onde os dentes parecem ter sido arrancados porque só se vêm umas lascas de osso.
E o crocodilo abre a boca inútil como se bocejasse. Mas logo a água se agita de novo com outro crocodilo que começa a emergir. Mas parece que aquela raça de crocodilos não tem dentes. Já não tem dentes.
E depois sei que estou grávida. Vou ter mais dois filhos. Lembro-me então dos outros sonhos em que sonho com essas gravidezes inesperadas e totalmente inoportunas. Só que agora percebo que esta é uma decisão minha que só tem a ver comigo. Sei que preparei tudo isto, removi obstáculos, e determinei que o meu ventre estivesse pronto para tornar possível consentir neste destino. E penso: “desta vez não sou apanhada de surpresa. Fui eu que determinei isto porque é assim que deve ser.”
E depois há uma mulher que cai das escadas com tanta força e tanto barulho que corro para a ajudar a tempo de ver que ela não está mais do que atordoada e aflita e então acordo.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Eu, Joshua, o amigo recente e a noiva no super-mercado

1996, Julho, s/dia
Vou a um super fazer compras. Viajo através de uma cidade de Domingo, e acho que vou de mota. Estou nos subúrbios ou fora do meu lugar de viver. O super-mercado é um conjunto de grandes armazéns cheios de coisas para a casa. Quero comprar mas não tenho dinheiro. Entretanto a Tita aparece e diz que já tem os dois cheques do Jornal. É mais do que suficiente. É o que estava combinado. Quase me passo de contente. Depois vou ao super mas a Tita tem o mesmo carrinho que eu, e eu não quero, porque ela já está despachada e eu tenho de ir à carne que é no rés-do-chão, melhor na cave, e é preciso descer umas rampas inclinadíssimas. A Tita leva outro carrinho. Acho que não chego a descer completamente.
Encontro outro amigo recente. Depois passa por mim, no corredor deste armazém, o Joshua. Não me fala. Fico chocada, porque ainda há muito pouco tempo me escreveu. Volta a passar e eu cumprimento-o, e então ele responde, mas tudo ao longe, sem dar mostras de se querer aproximar.
O meu amigo recente está sentado aos pés de uma cama de casal, e diz-me que o Joshua está ali porque veio ver uma colega analista, que trabalha no mesmo Centro de Saúde onde ele dá consultas, com o pretexto de fazer umas análises, mas a mulher é lindíssima e é só um pretexto. Depois vejo a Mimi que me diz que o Joshua se esconde e que os nossos contactos são sempre assim no desencontro, e que não a espanta nada. Aquilo é a confirmação.
Entretanto aproxima-se de uma das portas de saída – que não é porta de entrada – uma noiva recém-casada, de véu e tudo, a empurrar um carrinho de compras para ir ao super. Falamos através dos vidros sem se ouvir nenhum som. Nós a dizer que ela não pode entrar por ali ela a perguntar então por onde? O cortejo dos convidados aproxima-se e junta-se diante daquela porta por onde não podem entrar. Até é cómico porque eles não estão aborrecidos. E estamos todos a rir. Cá dentro, comigo, junta-se imensa gente conhecida, minha conhecida. Uns são pintores, outros cantores.