segunda-feira, 7 de junho de 2010

Eu quero ir ter com o Otto mas não pelos subterrâneos.

NOITE DE 25 PARA 26 DE OUTUBRO DE 2000
Estou com o Otto e vamos entrar num local de diversões, que está agora desactivado. Vamos lá almoçar. Ou jantar. Vamos lá tomar uma refeição. Estamos muito bem dispostos. O local não é deserto. Entramos para uma sala, e já lá está mais gente. Só que a certa altura já são muitas pessoas a juntarem-se à nossa mesa.  Eu trago um prato que o cozinheiro me passa, e pergunto para quem é, mas toda a gente está servida. Há comida a mais.
Então eu e o Otto saímos, e a certa altura estamos naquela espécie de feira. Ele quer ir a um dos restaurantes mais feios, e digo que não. É uma espécie de Hamburger House, no primeiro andar de um edifício velho e feio. E estamos nas escadas e de repente ouvimos um ruído caótico e dissonante, de  uma harmonia aterradora. Gritos de loucos, choros de crianças, vozes de mulheres, e uma melopeia de vozes sincopadas que pronunciavam umas palavras, como se fossem mantras.
Ficamos paralisadas de espanto e de medo. O grupo, um grupo enorme, de negros, homens, mulheres, crianças, passa por nós, em passo de corrida.

E agora, volto a ouvi-los. Estou junto do segurança do Parque, e quero meter-me na casa onde ele estava, mas ele não abre a porta. Diz que não podemos fazer um gesto ou um som, quando eles passam:
“Se olharmos para eles e eles olharem para nós, é o fim” – explica num murmúrio.
Eu estou a mastigar uma ervinha e paro, congelada. Os gritos e os murmúrios crescem à medida que o grupo se aproxima de nós. Há uma altura em que sinto que eles nos olham. O porteiro tinha dito que eles destruíam as pessoas, completamente, quando isso acontecia. Eu só não consigo perceber é porque é que não reforçam a guarda. Ou porque é que o problema não é atacado de raiz.
Enfim, eles desaparecem e respiro de alívio. Depois, o Bernardo está comigo e o homem deixa-nos entrar para a casa do guarda. Lá dentro há escadas em caracol. Podemos descer por ali, e atravessar sob o chão, para o outro edifício. Eu quero ir ter com o Otto. Depois digo ao Bernardo que não vou por baixo, porque tenho medo.

Eu quero ir ter com o Otto mas não pelos subterrâneos.

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