sábado, 21 de novembro de 2009

A Hora do Corvo

NOITE DE 26 PARA 27 DE FEVEREIRO DE 1998

Uma linha inaugural de metropolitano. Vai atravessar o rio e servir a margem sul. É quase sempre de superfície. As carruagens são muito boas e espaçosas, e a viagem dura mais ou menos três quartos de hora. Penso: «as pessoas que vão viajar aqui todos os dias, à mesma hora, vão acabar por se conhecer, e até toprnar-se amigas umas das outras.» E acho essa prespectiva muito interessante, aplicada aos utentes daquela linha. [...] Penso: «é muito engraçado para mim, porque se trata apenas de uma viagem inaugural.» Saímos numa paragem porque a Marta quer fazer compras, e ver as lojas daquela estação. [...] Mas à medida que nos afastamos a luz torna-se mais fraca, e não há lojas nenhumas. Digo:
«Vamos despachar-nos porque se não ainda perdemos o metro.» Se isso acontecer é muito desagradável. Vamos ter de esperar a ligação a seguir, e ficamos sem fazer nada durante quase uma hora. Mas quando chegamos à linha, e já vamos a correr, o combóio está a arrancar. Não conseguimos entrar, embora, dentro das carruagens, e junto das portas abertas, as pessoas nos incitem a saltar para dentro das carruagens. Mas é perigoso. Ficamos na plataforma, a ver o comboio afastar-se cada vez com maior velocidade, até que surge um homem carregado de sacos. E é um homem da estação. Tem o poder de fazer parar as carruagens. E à frente dele pára uma das composições, e ele começa a colocar os sacos lá dentro. Estamos próximo dessa carruagem, mas, quase em frente de nós há outra, também parada, e é uma espécie de vagão de mercadorias. O homem da estação aconselha-nos a saltar para essa, e entrar logo ali. Se formos ter com ele podemos já não ter tempo. E parece que o importante é entrar, depois logo mudamos.
A carruagem está fechada. Agarramo-nos aos varões de aço inoxidável e apoiamo-nos em pequenas plataformas de madeira. É um apoio seguro, mas desconfortável. E faz algum medo, sobretudo quando o combóio começar a desenvolver velocidade. Batemos à porta da carruagem, mas não nos abrem. Só podemos contar com a nossa força. As pessoas que estão dentro da carruagem não querem deixar-nos entrar, porque não gostam de estranhos, e estão muito habituadas umas às outras.Continuo a bater, até porque vejo que a Marta está numa posição mais instável do que a minha, embora ela diga que está bem. Mas eu estou preocupada com ela.
Então uma porta abre-se e saiem dois homens. Têm braços muito fortes. Agarram-se aos varões e dizem-nos para entrarmos. Trocam connosco de lugar. Seguram-nos e colocam-nos dentro da carruagem. Digo-lhes que não é preciso trocar porque cabemos todos lá dentro, mas eles não me ligam.Lá dentro é muito confortável, e muito divertido. Não há bancos. O chão está coberto de mantas, e por cima tem um pano branco, como se fosse um lençol. Viajamos deitados, e mesmo em frente de nós há duas janelas panorâmicas por onde podemos disfrutar da paisagen, porque estamos mesmo atrás dos bancos do condutor. Parece que aquela carruagem é autónoma, tem um condutor só para ela. Ou dois.
Dentro da carruagem toda a gente está muito divertida, muito bem disposta, embora não perceba bem porquê. Fico muito contente por ter mudado, porque esta viagem é muito melhor.

E quando acordo há uma coisa que me lembro muitas vezes, e durante o sonho também. É que eu estou na Hora do Corvo.

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